Refém da Paixão: belo ou medonho?

Eu vi um filme que achei muito bonito. Era a história de um fugitivo que se abriga na casa de uma mulher e seu filho, e que no decorrer da trama acaba por conquistando-os e torna-se parte da família. Em cinco dias…

Refém da Paixão, filme do diretor Jason Reitman que também dirigiu Juno e Garota Infernal, é mais um filme que nos engana com um amor romântico que na verdade beira o sadomasoquismo repleto de abuso onde a mulher é sempre a vítima. Isso não o faz menos belo como obra cinematográfica, mas me assusta ao pensar sobre como mulheres reais vivenciam esses relacionamentos abusivos em nome do amor.

Que amor é esse que um homem que vc nunca viu, cheio de sangue e autoridade te obriga com chantagens psicológicas a levá-lo pra casa. E que quando você alcança a informação de que é um fugitivo perigoso, ele a força a acoberta-lo? Pode parecer que a protagonista o faz por vontade própria, mas percebi nos diálogos um ar constante de medo e desconfiança como se no momento que ela o recusasse, ele simplesmente a esfaquearia sem dó.

Um embuste que o roteiro tenta mostrar como injustiçado, mas que na minha opinião, não passa de mais um machista neurótico preocupado com a paternidade do filho que criava e que em um momento de agressividade mata “sem querer” a mulher. Bom, se ele não tivesse agido daquela forma a mulher não havia caído e morrido, e sabe Deus lá mais o quê ele fez para enlouquecer sua esposa a ponto dela assassinar seu filho.

Porquê o diretor quer reforçar esse clichê da esposa infiel, da mãe louca e assassina, enquanto o homem se posiciona como vítima? Veja bem em junho: Mãe louca abortadora (leia-se assassina); e em Mulher infernal: puta assassina (substituindo a esposa infiel). Parece que o diretor tem mesmo essa ideia de que nós mulheres somos desorientadas, perigosas e não confiáveis, como foi Eva, Medusa e aquela outra lá da caixa de Pandora. Valores que antes eram passados pelos mitos e contos, e que hoje fazem parte de filmes para “nos colocar em nossos lugares”.

Às vezes eu acho q estou com pensamentos psicóticos porque faço esse tipo de leitura das coisas que vejo, mas sempre chego à conclusão que é justo isso q eles querem: que adoecermos como insanas para continuarmos precisando sermos cuidadas e tê-los decidindo sobre nossos corpos e vida como o que acontece nos espaços repletos de homens ( e na maioria brancos) onde as leis são criadas.

Um cara como o do filme – que é um estranho que obriga a personagem a aceitá-lo em casa – põe a mão em suas costas; o q vc faz? Dá um pulo? Prende a respiração? Vomita? Não, vc encosta a sua cabeça no seu ombro. Desacreditei.  

Só sei que chega uma hora do filme que a personagem já tá transando com o fugitivo e já quer se fugitiva com ele e não bastasse, envolve o filho nessa doidera toda. Quando o garoto atende a porta e conta um monte de mentira pro vizinho, ela não se preocupa com o fato do garoto estar aprendendo a cometer crimes com seu novo “padrasto”. Pela primeira vez no filme eu vejo aquela mulher reagir, mas mais uma vez ela nos surpreende levantando valores que confundem ainda mais nossa mente.

Não é porquê uma mulher não está apanhando ou não está amarrada que não é vítima. A gente passa todos os dias por um tipo de violência que não percebemos na vida real e o filme vem reforçando e normatizando isso. É um tipo de domínio psicológico que o homem exerce sobre a personagem que muitos não perceberão que ela está em posição submissa, que está sendo controlada, enganada. Parece que é ela que quer, e muitos vão dizer assim, tanto quantos questionam mulheres estupradas se elas realmente não consentiram.

As mulheres são cúmplices dos seus escravizadores há milénios e nem sequer se identificam nesta posição. É justo por esse poder psicológico das normas e convenções sociais que faz com que um filme que poderia ser aterrorizante possa ser considerado belo. Quando uma obra possui esse tom ironia e é aberta o suficiente para nos gerar essas dúvidas, é uma obra boa, que posso interpretar de acordo com minhas vivências, o que me incomoda aqui, é a repetição desses personagens femininos dentro de padrões repetitivos onde a mulher aparece sempre de forma pejorativa.

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