Carta à Malala

Querida Malala,

No Brasil, passamos agora por um período de retrocessos. O projeto de lei que tenta instituir a chamada “Escola sem Partido” tem sido muito debatido e impulsionado por setores extremamente conservadores da sociedade representados no congresso. A proposta, se aprovada, vai limitar (e punir!) professoras e professores que falarem sobre gênero em sala de aula, entre outros.

Além de criar uma cultura do medo e diminuir a reflexão crítica, a “Escola Sem Partido” inibe o desenvolvimento de uma sociedade onde homens e mulheres são iguais tanto no que diz respeito ao controle como ao uso de seus bens e serviços.

Na Nami, durante as oficinas do projeto “Graffiti Pelo Fim da Violência Contra a Mulher” que é realizado em escolas para alunos entre 14 e 19 anos, além de falarmos sobre os tipos de violência doméstica e promovermos a Lei Maria da Penha, criamos um momento para pensarmos a desconstrução do gênero no sentido de alargarmos as bordas do que é definido sobre como é ser uma mulher e como é ser um homem. Eu, como uma sobrevivente da violência doméstica, entendo que a violência contra a mulher acontece justamente quando o outro não aceita saímos do padrão pré estabelecido sobre como deve ser uma mulher e por isso estimulamos esta reflexão nas oficinas. Para que entenda melhor, posso usar minha própria história como exemplo: quando fui espancada por meu companheiro e mantida em cárcere privado por uma semana, ele alegava que eu não era uma boa dona de casa. Na época ele estava desempregado e eu além de trabalhar ainda estudava, passando o dia todo fora. Ainda assim, ele acreditava que todas as tarefas de casa, incluindo as refeições, deveriam ser feitas exclusivamente por mim, pois este era meu papel como esposa. Ainda hoje, muitos meninos não são estimulados a realizarem as tarefas de casa, alegando-se que este não é trabalho para homens. Então, quando eu falo em afrouxar as barreiras do que é ser mulher e do que é ser homem, eu falo justamente em quebrar essas definições pré concebidas.

Este trabalho está diretamente ligado à educação. Aqui no Brasil, as meninas assim como os meninos podem frequentar escolas. No entanto, a educação ainda não é uma ferramenta de mudança do padrão de relacionamento entre homens e mulheres porque não existe perspectiva de gênero na educação. Eu mesma fui privilegiada por poder cursar uma boa escola e ingressar em uma das melhores universidades do país, mas desconhecia meus direitos enquanto mulher e sequer era capaz de identificar uma violência, passando anos naquele relacionamento abusivo. Precisamos de uma educação que ensine que meninos e meninas devem ter os mesmos direitos, se respeitar e resolverem conflitos sem uso da violência. Mas o legislativo acha que fazer isso é ruim, e persegue a discussão sobre gênero na escola.

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