Três dias com Raoni Azevedo

Um tanto quanto precipitada, seria uma escrita sobre algo que ainda não muito bem conheço. O frescor das primeiras impressões e novas emoções me movem então nesta primeira jornada sobre Raoni Azevedo.

Raoni Azevedo III
Foto retirada do instagram @raoniazevedo

Jovem artista carioca, atual residente da Rocinha e membro da Igreja do Reino da Arte, Raoni é aquela figura que de longe já chama atenção. Eu que tenho medo de gringo, de ser ignorada, mal tratada e subjugada, não me atreveria a chegar perto. Só que Raoni não é gringo e é justamente sobre isso que trata sua obra.

Um estrangeiro em seu próprio lugar. Em uma estrutura de sociedade onde há tantas urgências, como ainda se assumir  protagonista sendo um homem branco padrão?

Um filme sobre sí; uma fala sobre suas experiências, um trabalho autobiográfico onde ficção e realidade se confundem. Tudo isso daria margem à aquela velha alto estima que nunca entendemos como pode ser tão inflada nesses homens brancos. Mas nessa pesquisa o contrário acontece: Raoni bate em sua cabeça ampliada em forma de Pinhata com toda a força como se quisesse destruir quem é. Um botijão de gás preso à parede com fitas e fogo na borda anuncia uma auto-extinção.

Raoni Azevedo II
Primeira Comunhão de Raoni Azevedo e Eduardo de Barros na Inauguração do Templo da Igreja do Reino da Arte (ANoiva) na Rocinha em 25 de agosto.

Essa metáfora à destruição do seu ser, não é de forma alguma ódio de si; mas sim negação do papel que a nossa construção social o fez ocupar: o de opressor. Sua pesquisa é sobre ser um privilegiado em meio ao outro jogados à margem. Como valer sua existência e sua arte sem que esta sirva como ferramenta da manutenção dos privilégios do poder em vigor?

Hora seu trabalho pode aparecer em video, objeto, imagem, ação; mas a obra aqui, companheiros, é a ideia em si. A própria existência como artista cercado de um “outro” em que ele próprio anseia pela existência e promoção. A busca é por esta existência onde todo e qualquer tipo de poder possa ser distribuído de forma igualitária. É por um extremo esforço para manter sua soberania e autonomia de forma co existente à aquele que nunca as tiveram.

Como homem branco, Raoni não precisava falar disso. É o negro, o trans (etc.) e o feminino (etc.) que precisam fazer um tipo de arte sobre ser esta pessoa no mundo para ter qualquer tipo de atenção de um mercado/sistema ingrato. Falar sobre clichê, estereótipo e tabu é necessidade, mas também é regra para nós pessoas de cor e não normativas. Raoni poderia assumir seu privilégio em criar qualquer tipo de arte sobre qualquer coisa e ser visto, ouvido e aplaudido, mas não, o seu comprometimento é político, e é por este outro. Raoni puxa a luta de classes, gênero e raça de dentro de seu lugar de fala e é isto o que faz de seu trabalho relevante enquanto homem, hétero e cis.

OBS: É importante citar esta crítica dentro da perspectiva do grupo em que eu e Raoni co-existimos atualmente, entre favela, rua, artes, não normativos e militantes. Nunca devemos nos esquecer, que fora de nossa bolha, estas preocupações ainda deixam a desejar. Para as pessoas de fora, principalmente na política e economia, a grande parte do pensamento coletivo ainda é aquele velho antigo onde não existe vergonha em ser um branco no poder.
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