Porque Negro da China seria algo ruim?

Não sou youtuber nem minha ONG trabalha com campanhas online, nosso trabalho é presencial, corpo a corpo no dia a dia, de mulher pra mulher, de pessoa para pessoa. Não procuramos views para auto sustentar nosso trabalho. O que nos move é o depoimento de cada mulher que fala sobre a mudança que proporcionamos em suas vidas. Por isso a resposta ao vídeo do canal Etnia Brasileira, no qual sou exposta e em que o trabalho da Rede NAMI com o projeto AfroGrafiteiras é desqualificado, vem por escrito.

No canal a Youtuber falou sobre o programa Encontro Com Fátima Bernardes com o tema Dororidade.

Antes de tudo, é importante situar o meu lugar de fala, pois todo mundo tem seu lugar de fala. Sou considerada uma artista, de cunho político, muitas vezes chamada de ativista. Desde 2008 trabalho com a promoção do fim da violência contra a mulher, uma vez que fui vítima de violência doméstica. A minha arte é autobiográfica, podendo ser descrita como confessional, pois utilizo de minhas experiências para falar para o mundo sobre um tipo de prisão de gênero para contextualizar este tipo de violência. Em minha ONG Rede NAMI utilizamos o graffiti para oferecer oficinas para promover a Lei Maria da Penha e desde essa época, nosso público alvo ia além da mulher tendo trabalhado com centenas de meninos e rapazes, de maneira didática, com foco na prevenção, pois acreditamos na luta plural, conjunta, em todas as frentes.

Antes mesmo da aprovação da Lei do Feminicídio em 2015, já havia percebido que as políticas contra a violência contra a mulher não estavam dando conta da mulher negra e por isso, essas eram as que morriam mais. Por este motivo, estrategicamente, criei também em 2015 o programa AfroGrafiteiras – uma formação de 8 meses em arte urbana e feminismo negro – um projeto que além de falar da violência do machismo como fazíamos antes, se aprofundou em falar sobre racismo, tentando contribuir de forma efetiva com a reversão do quadro atual. De lá pra cá já passaram mais de 560 mulheres Afrobrasileiras, como as denominamos antes, mas esse termo caiu em desuso na Rede NAMI depois dos aprendizados do programa. A minha experiência no AfroGrafiteiras me fizeram definir a palavra negra para tratar todas as participantes, incluindo eu própria. Eu cresci como uma menina branca, em uma família branca, fui estimulada a me mimetizar toda a vida, alisando e pintando os cabelos de loiro. Me chamavam de moreninha e eu sempre acreditei não ser negra, até entender que chamar alguém de morena ou parda era uma maneira de embranquecer a pessoa e fazê-la mais socialmente aceita, estigmatizando ainda mais os negros de pele mais pigmentada. Eu comecei a me identificar com a fala das participantes do Afrografiteiras que colocavam sobre suas experiências com o racismo, e via que sofria racismo, e logo eu me identifiquei como negra também. Acredito que hoje seja mais adequado chamar alguém de negro do que de afrodescendente ou afrobrasileiro pois é mais uma nomenclatura política, de ação dos movimentos sociais na luta contra discriminação do que para designar a cor, é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo. Esse é um tema muito polémico. Com o tempo eu compreendi as questões sobre colorismo, que o fenótipo e a pigmentação da pele influi na dureza do racismo que se recebe. A leitura com que as pessoas fazem da aparência das outras e o quanto isso é o que verdadeiramente importa. Hoje pontuo a minha fala de um lugar como mulher negra privilegiada, por sofrer menos racismo do que uma mulher negra retinta e ser mais socialmente aceita. Neste ponto é sempre bom enfatizar que lugar de fala e representatividade são coisas diferentes, e eu posso sim falar a partir da minha condição, mas é importante que outras mulheres, muito mais desautorizadas a falarem do que eu, possam se colocar e representar outras em sua condição. E o meu trabalho na Rede NAMI trata justamente disso.

O Catraca Livre publicou uma matéria sobre grafiteiras negras e eu questionei o porquê que nesta lista não existiam mulheres de pigmentação mais escura. Foi quando tomei minha decisão final de colocar além da renda, o colorismo como critério principal para a seleção das candidatas ao programa AfroGrafiteiras. Ainda sim, é difícil que as mulheres retintas se inscrevam em maioria no programa, pois essas mulheres estão muito ocupadas tentando sobreviver. Todos os anos tento captar recursos para pagar a passagem e alimentação, além de tentar levar o programa para as áreas mais afastadas, facilitando assim o ingresso dessas mulheres. No projeto levamos em consideração a representatividade colocando professores e palestrantes negras, renovando a equipe da NAMI de forma a apenas contratar mulheres negras. Buscamos mulheres negras para nosso conselho. Seguimos.

O que me leva a seguir é ver que o trabalho é sério e está ajudando a mudar a situação racista da sociedade. Sinceramente minha carreira está muito bem fundamentada, e eu não precisaria gastar 50% do meu tempo com trabalho social, e muito menos focar na mulher negra. Não preciso me promover com o tema, afinal, não sou jovem como disse Fátima, e muito menos menina como colocado pela Youtube. Sou uma mulher chegando aos 40 anos com a carreira já estabelecida. Minha produção é internacionalmente reconhecida como feminista, mas não trata diretamente de etnia. Sim sou de classe média, mas nem sempre foi assim. Graças às oportunidades e investimentos que outras mulheres com este mesmo modo de pensar fizeram em mim, a maioria brancas, minha carreira de artista decolou me rendendo títulos como rainha do graffiti, Young Global Leaders do World Economic Forum e até como uma das 150 mulheres corajosas que estão mudando o mundo, segundo a revista americana Newsweek, além de outros.  Mais uma vez volto a colocar que isso se da pelo fato de eu ser mais socialmente aceita, mas ainda sim, não sou branca, e isso já foi algum passo adiante. Eu quero retribuir isso de alguma forma para que mais mulheres subvertam a posição que foram fadadas. Eu quero ir além, quero que essas mulheres sejam as menos privilegiadas. Eu sei que não posso falar por elas ou representa-las, mas posso usar minha influência para transferir poder para elas, é por isso que durante esses três anos do AfroGrafiteiras foram sempre elas que foram a cara do projeto, não eu. É por isso também que até então, nenhum dos meus trabalhos de arte falavam da questão de etnia. Minhas mulheres grafitadas são coloridas, com fenótipo similares ao meu até o momento que Vilma criou o conceito de dororidade. Eu já vinha trabalhando a Sororidade nos meus projetos de arte, e prontamente me identifiquei. Dororidade não é uma fala exclusiva da mulher negra, é uma fala de todas nós mulheres, que sofremos pelo racismo, mas que sofremos também pelo machismo. Então dororidade contempla todas nós, e dentro do meu lugar de fala, posso falar sobre dororidade pois tenho dor e esta dor me fortalece de forma política com outras. Como diz Vilma, dor é dor. O tema fala de mulheres, quando falamos de mulheres, é importante falar de todas, mesmo que de lugares de fala diferentes; e eu não posso falar de todas pintando apenas mulheres como eu. Ao me lembrar de quantas mulheres negras me pediram para representá-las na parede, pois até então se sentiam excluídas na minha arte, vi que essa era hora de dar minha contribuição mesmo sabendo que existem centenas de AfroGrafiteiras representando a mulher negra de várias formas. E essa representação não é pelo spray marrom ou preto de contorno, pois mesmo nas mulheres com fenótipos brancos, a cor de contorno em sua maioria sempre foi essa. Contorno é contorno, técnica é técnica. A representação nesta arte vem pela ideia, afinal a obra é aberta e cada um a vê e significa de acordo com suas experiências pessoais.

Dentre as demais pautas daquele programa da Fátima Bernardes, dororidade foi tema destaque, e para isso nada mais natural do que chamar a criadora do conceito para falar. Lá estava Vilma Piedade. Eu produzi uma musica, um video clipe, um mural e um projeto social sobre o tema. Foi o quê eles, orientados por Vilma, acharam de mais autêntico para mostrar. Eu tenho plena noção do privilégio que tive em alcançar uma profissionalização do trabalho para conseguir estes produtos, e por isso ali eu era a pessoa talvez com mais visibilidade para falar sobre o assunto, tirando o lugar de uma mulher retinta que não teve o mesmo privilégio e não possuí o mesmo produto pra mostrar. Mas o meu trabalho junto ao de Vilma é justamente para que negros que “que mal sabem escrever e estão preocupados em ter o que comer”, segundo a Youtuber, possam um dia estar ali falando sobre suas criações e que eu possa me ocupar em falar de outros temas poéticos da vidas que não são tão urgentes. A produção do programa teve o cuidado de me perguntar se as meninas do VT que iriam falar sobre o AfroGrafiteiras, pudessem ser as de pele mais pigmentada, já que eram sempre as mais excluídas e que no programa haveria apenas Adriana. Podemos problematizar esta colocação, mas deve haver uma sensibilidade de que ali houve um cuidado, mesmo que por muitos considerado mínimo, com a representatividade.

Existe um conflito geracional em que as meninas novas que chegam agora não respeitam a história anterior que a fez com que estas pudessem ter acesso e voz antes impensáveis. Vilma Piedade fez parte dessa história, podemos debater, mas nunca desqualificar sua fala. Desqualifica-la é uma falta de respeito. Eu e Vilma temos um trabalho sério, e não é de hoje. Construímos uma sociedade em que uma jovem negra poder ter um canal de youtube e nos criticar de tão empoderada, e ter com isso milhares de views e uma carreira. As feministas brancas talvez não tenham pensado nas negras, mas quebraram as primeiras barreiras do gênero para que possamos discutir etnia, assim como homens negros quebraram as primeiras barreiras da raça para que hoje nós pudéssemos discutir sobre gênero. É um conjunto de lutas que geraram a interseccionalidade. Sem nós, e muitas outras pessoas mais, sejam estas pretas, mestiças ou brancas isso nunca seria possível.

E sobre o título, não é porque uma coisa é ruim que ela vem da China. Na China tem muita coisa boa, ta ai o ai weiwei pra provar. Não vamos combater um preconceito fortalecendo o outro.

Panmela Castro raça etnia pintura mulher negra
Primeira pintura minha em suporte convencional a retratar a temática de raça.

 

 

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