#RetratosRelatos 35 – Quarentena 1

Durante a quarentena recebi pelo email panmelacastro@yahoo.com relatos de mulheres enviados junto à uma selfie e nos quais retratei. Este trabalho em específico foi comissionado pelo Instituto Moreira Sales para o programa “IMS Convida”. A coleção das 3 obras produzidas para o programa pode ser conferida no site do instituto.

@panmelacastro

Sou XXXX XXXX, com som de i mesmo, estou com 27 anos e essa quarentena é o ápice do desafio que está sendo sobreviver diante do caos.

Recebi um diagnóstico de HIV no último pré natal da gestação de XXXX, meu gavião em tupi, há dois anos e três meses.
Estou só, experenciando a vida desde meus 12 anos e a família do pai dele não soube lidar muito bem com a notícia.
O diagnóstico é mais mental e social do que físico. De um dia para o outro, marquei uma cesárea eletiva e descobri que não poderia amamentar e teria que tomar dois medicamentos para sempre. Foi uma quebra de toda utopia que acreditava viver. O XXXX, pai de XXXX foi super grosseiro antes de eu entrar no pré natal e quando saí já sabia que não teria nenhum apoio emocional.
Entre depressão pós parto, tristeza, medo e solidão, vivi o maior dos amores que é ser mãe e a esperança de finalmente construir minha base e não ser mais só.
Então ninguém soube lidar com.nada, o machismo impregnou nossa relação, as tradições engessadas me sufocaram e a família dele ameaçava tirar meu filho de mim entre ameaças, humilhações e deboches. Ouvi que era só uma vagabunda que ele engravidou na rua, que ninguém iria querer uma magrela aidética, que se nem minha mãe me quis, quem iria querer? Ouvi isso e mais do homem que escolhi passar a vida, o homem que compartilhei o maior amor que o universo me dara.
Aconteceu tanta coisa, e eu cansada, magoada… até remédio de hiv ja jogaram na calçada para eu pegar. Ele procurava prostitutas, me agredia e depois fingia que nada havia acontecido. Já me empurrou e gritou logo em seguida para que eu parasse de me jogar. E eu tentava a todo custo me libertar desse padrão de achar que isso iria mudar, que ele estava doente, que não era maldoso assim.
Aluguei minha casa para morar com meu filho e segui.meus princípios até o fim. Acreditei que se fizesse minha parte e seguisse os ensinamentos do mestre Cristo, que ele iria se invadir por amor e me perdoar por qualquer que seja o motivo que me odeie.
E estou aqui, escrevendo esse e-mail, sem ver meu filho há 5 meses, perdi minha casa, perdi minha alegria, trabalho, perdi minha luz e estou de favor no quarto de um moço muito gentil que encontrei na vida. De favor, lutando para comer e me manter viva e superar essa fase. Abraçar meu filho e compartilhar essa vida com ele.
Quando conto isso, só recebo perguntas como o que fiz, que tipo de mãe perde o filho, mas afirmo que nossos direitos não são reconhecidos e estamos muito longe de uma igualdade justa. Existem pessoas que manipulam tudo e todos até obterem o resultado esperado e é quase impossível provar que elas fizeram o que fizeram.
Fui processada pelo ministério público por intransigência ao questionar meus direitos na creche da prefeitura e depois notei que tudo o que foi feito, foi lentamente estruturado por ele.
Demorei para aceitar a maldade da humanidade e demorei a aceitar que valemos o que temos, o que ofertamos materialmente importa e status ainda manda nesse sistema.
Estou com 48 kg, mas não desisto e sou extremamente grata de ter oportunidade de transformar toda essa arte em alegria, seja por momentos ou uma poesia ou quadro. A arte resgata minha alma toda vez que ela tenta fugir e sou.muito grata por ser quem sou.
Retomando à quarentena, não sei se saio entregando coisas de bicicleta, se corro riscos por ser soropositiva e nao estar me alimentando direito, se estou mesmo acolhida, se verei meu filho e se vou construir uma família um dia. Estou cansada de estar só sempre sendo atacada e julgada. Cansei. Espero que tudo isso valha de algo um dia. Sentir a dor de estar sem.meu filho e o desamor é muito, mas eu aguento.
Sei que a deusa vai permitir que eu veja e esteja por perto do meu passarinho e sei que ainda vou ajudar muitas mulheres.
Poderia escrever muito mais, mas sou grata por esse espaço de fala e tenho fé de que todas iremos retomar nosso lugar.
Assino Aveeva nos meus trabalhos para lembrar do sagrado e profano femininos e toda magia que nos foi negada.

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