#RetratosRelatos 017

Oi Pamela! Primeiro quero dizer que adoro você, seu trabalho, sua história. Você é uma mulher da porra! Meu nome é XXXX, tenho 55anos, um filho de 28anos e uma filha de 20. Sempre fui a ovelha estragada da família! Tenho 2 irmãs mais novas e minha mãe sempre me hostilizou ao ponto de eu pegar uma mochila É viajar de carona da Bahia a Porto Alegre. Entrei pro Hare Krishna, porque curtia yoga, natureza e lá ninguém enchia o saco pra arrumar um namorado, eu sempre fui muito tímida! Mas percebi que entrar de cabeça em religiões é furada, rola muita hipocrisia e grana. Entrei com 17 anos e sai com 23. Fui trabalhar na sorveteria com meu pai, que sempre foi um paizão.  Conheci meu primeiro marido, muitas brigas porque ele era super ciumento, eu não podia virar o rosto no carro que ele fazia drama. Mas eu estava cansada de brigar com minha mãe e irmãs e fui morar com a família dele. Me tratavam bem, mas eu não podia me posicionar politicamente, sempre fui esquerdista e meu sogro era muito ignorante, tudo pobre de direita metido à besta.

Eu trabalhava como auxiliar de escritório, meu marido de repositor no Carrefour e fim de semana a gente entregava pizza. Ah! Nasci, cresci no Capão Redondo!! Bairro mais sinistro de SP! A gente financiou um apartamento no INOCOOP de Campo Limpo e casamos no civil.  Eu queria muito ser mãe e engravidei logo. Pronto! O homem mudou, me chamava de vaca,  dizia que parecia um balão, me empurrava, teve uma vez que eu estava sentada no banco do carona é ele ficou jogando o carro contra um ônibus falando que se quisesse matava eu e minha barriga. Meu filho nasceu e ele nem ligou,  ia a festas, me deixava sózinha, tive que usar fraldas de pano,  ele não comprava nada pro bebê.  Quando o bebê ficava doente, ele fechava a porta do quarto e gritava pra não fazer barulho. Era um pai horrível! Teve algumas separações, eu acreditava, ele melhorava, mas o inferno voltava. Nesse tempo eu estava desempregada é ele também perdeu o emprego. Eu comecei a deixar meu filho com a minha mãe e ajudava ele vendendo frutas e legumes na rua. Ele alugou um ponto comercial e começou a montar uma pequena agropecuária. Tirei carta de motorista e a situação começou a melhorar. Óbvio que eu não queria engravidar novamente, ele era totalmente ausente como pai. Quando meu filho estava com 7 anos a gente vivia de aparência. Eu não o amava, mas se eu falasse em separação ele dizia que eu ia passar fome, etc. Eu cedia. Acabou que engravidei sem querer. Foi horrível,  eu só chorava e ele ficou feliz num dia E no outro voltou dizendo que ia embora e que eu me virasse! O fdp tinha uma amante  e ela, ao saber da minha gravidez, encostou ele na parede e ele ficou com ela. Tive uma gravidez terrível,  meus vizinhos me davam cesta básica e os pais dele traziam o gás e pagavam as contas.

Na época se vendia telefone, eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor horrível Meu pai, que estava morando no interior de SP, me convidou pra morar com ele e minha mãe. Na época se vendia linha telefônica,  eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor dos inferno.  Ele nem foi ver a neném.  Coloquei o nome de Vitória e meu instinto maternal passou por cima de toda rejeição e me apaixonei por aquela menina. No interior, meu pai me ajudou muito,  me deixava usar o carro é pediu pra que eu voltasse a estudar. O pai dos meus filhos nunca pagou pensão. Como era comerciante, tirou tudo que estava no nome dele, fez declaração de pobreza, chegou a se vestir de mendigo numas das várias audiências. Fiz um supletivo. Entrei na faculdade, fiz pedagogia, pra pagar a faculdade consegui estágio num projeto que ficava com crianças carentes ou de risco e consegui terminar a faculdade. Meu pai foi o pai da minha filha. Cuidava, tinha um amor maior que tudo, meu filho guardou os traumas,  até hoje ele tem baixa autoestima, mas minha filha nunca sentiu falta do que não teve.  Fiquei 1 anos desempregada e minha mãe com cara feia. Aproveitei pra fazer todos concursos e estudava muito. Passei em 2 concursos e comecei a lecionar numa cidade perto do meu pai. Consegui juntar um $ e comprei uma casinha,minha casa, minha vida, comecei a namorar só depois.

Depois de uns 4 anos lecionando comecei com sintomas de depressão. Só chorava, ñ comia, tinha taquicardia e ficava com as mãos pingando suor frio quando entrava numa sala de aula. Passei nos psiquiatras do SUS, fluoxetina, diazepan, sertralina. Mas eu comecei a beber, tinha que beber o tempo todo. Brigava muito com o namorado e meus filhos crescendo e eu não conseguia lidar. Meu filho passou em direito na UEM, em Maringá e eu não tinha como ajudar muito financeiramente e ele não trabalhava ao mesmo tempo minha filha com 12 anos já transava e usava maconha. Eu não conseguia me impor, sempre fui boazinha, mas eu não sabia lidar com aquela realidade. Acabei casando com o namorado, mas bebia o tempo todo, meu segundo marido me levou num psiquiatra fudido,caro pra cacete, mas ele me deu o diagnóstico de Transtorno Bipolar Esquisoafetivo e como eu não conseguia parar de beber como uma dependente química fui internada num hospício.  Nossa! Chamava IPT Instituto de Psiquiatria de Tupã,  era um inferno, eu vi gente esfregando cocô na cara, era tudo fedido, a noite só se ouvia gritos, fiquei 2 dias num quarto com mulheres menstruadas, mijadas e cagadas amarradas na cama. Eu chorava muito e pedia pra falar com meu marido,  mas me disseram que visita só depois de um mês. As roupas eram marcadas e tinha uns doidos que dava medo. Rodei a baiana, falei que quando saísse ia denunciar, me seguravam e aplicavam injeção, mas nem fazia efeito, mesmo grogue eu ficava gritando até eles me mudarem de pavilhão. Fiquei numa ala menos fedida, num quarto com mais 2 e era menos monstruoso. Me acalme e acho que todas injeções fizeram efeito e eu sei que dormi 3 noites e 2 dias seguidos. Não tinha tomado banho ainda, acordei, tomei banho e esperei a hora de comer. Chamaram meu marido e deixaram eu me encontrar com ele por 4 minutos! Só deu tempo de eu pular no pescoço dele e implorar pra ele me tirar dali. Ele chorou e disse pra mim ficar calma. Ele procurou a irmã rica dele e pagou pra me transferir na ala particular.  Fiquei 3 meses.

Na ala particular era tudo melhor, tinha um quarto e banheiro só pra mim, enfermeira grudada, aulas de artesanato e não tinha louco de pedra, algumas figuras dependentes de drogas e uns que a família internada por serem idosos ou inválidos.  Sai da clínica, mas não parei de beber, meu marido não aguentou e foi embora. Descobri que meu filho ficava fumando maconha na República tinha abandonado a faculdade. Minha filha continuou a vida louca dela é eu bebia e comecei a roubar vodka nos mercados e estava sempre de licença,  com a internação os médicos conseguiram me readaptar e eu não precisava mais dar aula. Trabalhei na biblioteca, transava com quem queria. Fui pega roubando e rolou um processo. Comecei a ter surtos psicóticos, ouvia vozes, tinha medo de morrer,  achava que a polícia vinha me prender toda hora,tinha medo de tudo, pedia pra minha filha ñ me abandonar, ela tina que me dar banho e eu me arranjava, uma hora vi minha filha chorando dizendo que não sabia mais o que fazer comigo. Tentei suicídio,  tomei 3 cartelas de lítio, minha filha e o namorado dela me levaram no pronto Socorro e fizeram uma lavagem. A cidade é pequena,  eu tinha vergonha de sair na rua, ficava andando de um lado pra outro falando sózinha. Até que não aguentei e liguei pro meu marido pedindo socorro.

Ele estava no MG e pediu 3 dias pra esperar. Quando ele veio, me levou num psiquiatra, mudou meus remédios e eu pedi pra ele ficar .Ele está comigo até hoje, parei de beber, fui absolvida, nunca mais tive um surto tão forte, às vezes tenho umas recaídas, mas não deixo de tomar meus remédios e ir no médico.  Aprendi que a mente controla tudo. Cuido da minha alimentação, me tornei vegana, chorei muito quando o Bolsonaro foi eleito, escutava aqueles rojões e nunca vou entender como esse povo pode festejar a eleição de um fascista. Briguei com muita gente por causa disso. Estou pra me mudar de cidade com meu marido, que esteve comigo nos piores momentos e não desistiu. Meus filhos moram na capital, meu filho se formou em História na USP e minha filha se juntou com um bolsominio. Minha mãe diz pra mim que ñ me quer na casa dela e minhas irmãs não tenho contato. Tô num momento de mudança! Vou vender tudo ou doar e meu sonho é conseguir comprar um terreno na praia e construir uma casa de madeira,  ter uma horta, aprender surfar e conhecer gente legal. É isso!!!! Ufa!!!!!


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Esta obra faz parte da Exposição #RetratosRelatos que abriu em 07 de março de 2020 no Museu da República no Rio de Janeiro.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s