Felipa Maria Aranha (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Felipa Maria Aranha (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Felipa Maria Aranha 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 x 02 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 x 01 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Felipa Maria Aranha, foi líder do quilombo de Mola ou Itapocu; localidade disposta nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, um braço do Rio Tocantins, onde agora existe o município de Cametá, no estado do Pará. 

Ela organizou um quilombo na segunda metade do século XVIII, constituído por mais de 300 escravizados e escravizadas fugidos, que se auto sustentaram por muitos anos sem que fossem ameaçados pelas forças legais. Acredita-se que seja proveniente da região da Costa da Mina, no Golfo da Guiné, onde hoje estão localizados os países Gana, Togo, Benin e Nigéria. Deve ter nascido entre os anos de 1720 a 1730, tendo sido capturada em algum momento a partir de 1740, nessa que foi uma das regiões mais importantes para o tráfico de almas empreendido pelos portugueses. Vendida como escravizada, ela foi levada para a localidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará (atual capital do estado do Pará). Em seguida, foi enviada para trabalhar numa plantação de cana-de-açúcar na comunidade de Cametá.

Não suportando os maus tratos, Maria Aranha fugiu junto com outros escravizados no ano de 1750, e na região do baixo Tocantins criara o quilombo do Mola – mais exatamente nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, no território de Cametá –, um espaço por ela liderado, que ostentava alto grau de organização política, social e militar, sendo um dos maiores modelos de resistência à escravidão que a historiografia já encontrou. Tanto que, quando começaram a sofrer com a repressão colonial, foi graças à liderança militar de Maria Aranha, que foram vitoriosos ao expulsar as forças portuguesas e as várias incursões de capitães do mato.

Dona de grande capacidade de articulação política, Maria Aranha estruturou uma entidade composta por cinco quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança e Porto Alegre), a então chamada Confederação do Itapocu. A entidade empreendeu severas derrotas às forças escravagistas, e, diferentemente do exemplo de Palmares, somente cessou sua luta contra as autoridades escravagistas quando Portugal ofereceu perdão político e declarou quilombolas súditos da coroa. 

Maria Aranha morreu em 1780, ainda liderando a Confederação do Itapocu. No início do século XIX, além da liderança de Felipa, nas proximidades do rio Trombetas, perto de Óbidos, ainda na Amazônia, formou-se um quilombo, chefiado pelo cafuzo Atanásio, que chegou a contar com mais de 2000 habitantes que, além de plantar mandioca e tabaco, vendiam produtos colhidos nas florestas da Guiana Holandesa. Tudo leva a crer que estes quilombolas eram respeitados pela vizinhança, sendo suas crianças batizadas nas igrejas vizinhas. Além do mais, em pesquisas recentes feitas na região do Baixo Tocantins e que usam da história oral, há uma desmistificação da suposta subalternidade das mulheres negras.

Hoje se conhecem muitas outras histórias de como, no próprio quilombo do Mola, houve o protagonismo de outras mulheres negras que deixaram muitas histórias para a memória dos seus descendentes. A negra Maria Luiza Piriá ou Piriçá, registrou sua passagem neste quilombo, organizando e liderando a Dança do Bambaê do Rosário e na administração da própria vida dos quilombolas que ali viviam. Juvita foi mais uma dessas mulheres que fizeram a sua própria história e de seus povoados. Ao sair do quilombo do Mola ou Itapocu, ela fundou o Povoado de Tomázia e liderou o mesmo por muitos anos. As negras Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina e outras que tomavam parte do quilombo do Paxibal se embrenharam nas matas e realizavam tarefas em geral consideradas masculinas como: caçar, trabalhar na construção das improvisadas barracas de moradia – os tapiris cobertos e emparedados com palhas, como ubim e sororoca. Também atuavam na plantação de roças, na coleta dos frutos do mato, na pesca, na fabricação de utensílios de barro, de redes de dormir e de roupas feitas com fibras de curuanã e palhas de palmeiras.

Como se pode notar, a resistência e o protagonismo da mulher negra são históricos e tem suas raízes fincadas na tradição e na cultura de suas ancestrais africanas através de artifícios, artimanhas, improvisações e muita astúcia. Elas reinventavam o seu cotidiano e a sua importância no mundo, conseguindo assim, melhores condições para si e para os seus. Casos como o do povoado de Tomásia, que se uniu à já mencionada Confederação do Itapocu e o exemplo do Quilombo de Pixabal, no município de Baião, formado pela liderança das negras Leonor, Virgilina, Francisca e Maximiana descrevem histórias de líderes negras, que não foram apenas esposas ou companheiras. Protagonizaram e lutaram por suas próprias sinas e destinos nesse território da liberdade precária e precarizada. Já o quilombo de Maria Aranha só recebeu reconhecimento legal das suas terras recentemente, em 2013.

EN

Felipa Maria Aranha, was leader of the quilombo of Mola or Itapocu; located at the headwaters of the Igarapé Itapocu, a branch of the Tocantins River, where the city  of Cametá now exists, in the state of Pará.

She organized a quilombo in the second half of the 18th century, made up of more than 300 enslaved fugitives, who supported themselves for many years without being threatened by legal forces. It is believed that she came from the Costa da Mina region in the Gulf of Guinea, where Ghana, Togo, Benin and Nigeria are now located. She must have been born between the years 1720 to 1730, having been captured at any moment  after 1740, in what was one of the most important regions for the trafficking of souls undertaken by the Portuguese. Sold as enslaved, she was taken to the locality of Santa Maria de Belém in Grão Pará (current capital of the state of Pará). She was then sent to work on a sugarcane plantation in the community of Cametá.

Unable to bear the mistreatment, Maria Aranha fled along with other enslaved people in 1750, and in the lower Tocantins region she had created the Mola quilombo – more precisely in the headwaters of the Igarapé Itapocu, in the territory of Cametá –, a space she led , which boasted a high degree of political, social and military organization, being one of the greatest models of resistance to slavery that historiography has ever found. When they began to suffer from colonial repression, it was thanks to the military leadership of Maria Aranha, that they were victorious in expelling the Portuguese forces and in the various incursions of the “capitães do mato”.

Owner of great political articulation capacity, Maria Aranha structured an entity composed of five quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança and Porto Alegre), the so-called Confederation of Itapocu. The entity undertook severe defeats to the slave forces, and, unlike the example of Palmares, only ceased its fight against the slave authorities when Portugal offered political pardon and declared some quilombolas as subjects of the crown.

Maria Aranha died in 1780, still leading the Confederation of Itapocu. In the beginning of the 19th century, in addition to Felipa’s leadership, in the vicinity of the Trombetas River, near Óbidos, still in the Amazon, a quilombo was formed, headed by the “cafuzo” Atanásio, which had more than 2000 inhabitants who, in addition to planting cassava and tobacco, they sold products harvested in the forests of Dutch Guiana. All suggest that these quilombolas were respected by the neighborhood, having their children being baptized in neighboring churches. Furthermore, in recent surveys carried out in the Lower Tocantins region that use oral history, there is a demystification of the supposed subordination of black women.

Today, many other stories are known of how, in the Mola quilombo itself, there was the prominence of other black women who left many stories for the memory of their descendants. The black woman Maria Luiza Piriá or Piriçá, recorded her passage in this quilombo, organizing and leading the Dance of Bambaê do Rosário and managing the lives of the quilombolas who lived there. Juvita was one of those women who made their own history and that of their villages. Upon leaving the Mola or Itapocu quilombo, she founded the Povoado de Tomázia and led it for many years. The black women Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina and others who took part of the Paxibal quilombo, penetrated into the woods and performed tasks generally considered masculine, such as hunting, working in the construction of improvised housing tents – the tapiris covered and walled with straw , such as ubim and sororoca. They also worked in the planting of fields, gathering wild fruits, fishing, making clay utensils, sleeping hammocks and clothing made from curuanã fibers and palm straw.

As can be seen, the resistance and protagonism of black women are historical and have their roots in the tradition and culture of their African ancestors through artifices, tricks, improvisations and a lot of cunning. They reinvented their daily lives and their importance in the world, thus achieving better conditions for themselves and their similar. Cases such as the town of Tomásia, which joined the already mentioned Confederation of Itapocu, and the example of Quilombo de Pixabal, in the city of Baião, formed by the leadership of black women Leonor, Virgilina, Francisca and Maximiana describe stories of black leaders who weren’t just wives or companions. They played a leading role and fought for their own fates and destinies in this territory of precarious freedom. The Maria Aranha quilombo only received legal recognition for its land recently, in 2013.

Felipa Maria Aranha e outras obras de Panmela Castro estão na exposição “Enciclopédia Negra”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a convite dos curadores Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz e Jaime Lauriano.
Felipa Maria Aranha and other works by Panmela Castro are in the exhibition “Enciclopédia Negra”, at the Pinacoteca do Estado de São Paulo, at the invitation of curators Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz and Jaime Lauriano.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: EdUSP, 2004. p. 47

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «Escravidão, Fuga e a Memória de quilombos na Região do Tocantins». Revistas Eletrônicas da PUC-SP. Consultado em 25 de março de 2016

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «História, Memória e Poder Feminino em Povoados Amazônicos» (PDF). Anais Eletrônicos – Encontro Nacional de História Oral – 2012. Consultado em 25 de março de 2016

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