Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva Paiva (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Mathias Henrique e Faustino Da Silva 01”, acrílico sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Mathias Henrique and Faustino Da Silva 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Verbete

Um clube de leitura organizado por e para escravizados? Em plena década da Abolição? Estas seriam as notícias vindas do interior de São Paulo. Os escravizados Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva assinariam uma carta – publicada em vários periódicos de Minas Gerais – na qual solicitavam contribuições, especialmente envio de exemplares para o clube de leitura que tinham.

Em 1882, tal notícia — quase transformada em pilhéria, posto que considerada provavelmente surrealista e ao mesmo tempo verossímil e ameaçadora – era publicada nos periódicos mineiros “O Baependyano” e “O Colombo” que mencionavam a existência de um clube de leitura criado por abolicionistas em Bragança Paulista, não muito distante de Itu. Os signatários da carta — Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva – não eram apenas escravizados letrados, mas respectivamente presidente e secretário desta iniciativa abolicionista. Bem antes já tinham surgido notícias de associações abolicionistas que estavam estabelecendo cursos noturnos de alfabetização para escravizados libertos e seus descendentes. Desde a década de 1870 em várias partes do Brasil foi comum notícias semelhantes, embora não conseguimos ainda medir o alcance destas várias iniciativas e o número de negros e negras envolvidos.

Em Bragança Paulista a coisa tinha começado através de abolicionistas — ligados ao jornal “O Guaripocaba”  — que tinham estabelecido escolas noturnas para pobres livres. Não muito esporadicamente, muitos libertos e filhos destes – além dos próprios escravizados – sempre procuravam por tais espaços e oportunidades. Alguns setores abolicionistas podiam mesmo estar interessados em fomentar leitura e alfabetização para escravizados.  Na organização do Clube Literário de escravos em Bragança havia turmas noturnas que contavam com o apoio de abolicionistas locais e professores voluntários. Daquele jornal – com sua face  positivista e participação maçônica local — setores brancos ajudariam na propaganda e na ampliação da iniciativa. O Clube de Bragança, fundado entre 1881 e 1882, funcionaria numa casa modesta no centro da cidade, chegando a ter cerca de 40 crianças. A novidade ficaria por conta da direção deste club, contando com escravizados à frente.

Quais as expectativas destes escravizados com tal Clube de Leitura? O que isso significava diante num contexto onde se acusavam abolicionistas e monarquistas de manipularem os escravizados nas campanhas abolicionista e republicana? Ensinar os escravizados a ler para que eles participassem dos debates era um dos recados republicanos ao noticiar tais iniciativas. Só que escravizados não precisavam exatamente de letramento para fazer avaliações políticas da atmosfera em que viviam. A carta do Clube de Leitura, enviada para as redações dos jornais e a assinatura de signatários escravos — portanto já alfabetizados suficientemente — sugerem pensar mediações e símbolos nos enfrentamentos e mobilização negra. A carta publicada nos jornais falava – num tom autoral dos próprios escravizados – que eles eram “aviltados por sua abjeta condição” estando “eliminados do seio da humanidade e equiparados aos mais ínfimos animais”, portanto eram a “mancha negra do nome brasileiro”. Embora “sem pátria e sem liberdade” considerados “párias errantes” e “renegados de uma civilização” avaliavam que o letramento era a única solução, qual seja “que a instrução é o único meio possível” sendo isso “o motivo da fundação do Clube Literário dos Escravos em Bragança”. Os escravizados estavam dispostos a investir em “inauditos esforços empregados nas horas de descanso” no presente para fugir das “misérias de uma vida” no futuro. Atualizando o debate que falava de manipulação política e desinteresse dos fazendeiros pelo destino dos ex-escravos garantiam:  a “instrução é um preventivo necessário para os males sociais, que podem resultar da emancipação”. Afirmavam mesmo que era a “educação” que tinha que preparar a “liberdade”.

EN

A reading club organized by and for the enslaved? In the middle of the Abolition decade? These would be the news coming from the countryside of the state of São Paulo. The enslaved Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva would sign a letter – published in several periodicals in Minas Gerais – in which they requested contributions, especially sending copies to their reading club.

In 1882, this news – almost turned into a joke, since it was probably considered surrealist and at the same time credible and threatening – was published in the Minas Gerais periodicals “O Baependiano” and “O Colombo” that mentioned the existence of a reading club created by abolitionists in Bragança Paulista , not far from Itu. The signatories of the letter – Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva – were not only enslaved scholars, but respectively president and secretary of this abolitionist initiative. Long before, there had already been news of abolitionist associations that were establishing night literacy classes for the enslaved, freed and their descendants. Since the 1870s in various parts of Brazil similar news has been common, although we have not yet been able to measure the reach of these various initiatives and the number of black men and women involved.

In Bragança Paulista, the thing had started with abolitionists – linked to the newspaper “O Guaripocaba” – who had established night schools for the free poor. Not very sporadically, many freedmen and their children – in addition to the enslaved themselves – always looked for such spaces and opportunities. Some abolitionist sectors might even be interested in promoting reading and literacy for the enslaved. In the organization of the Slaves’ Literary Club in Bragança, there were night groups that had the support of local abolitionists and volunteer teachers. From that newspaper – with its positivist face and local Masonic participation – white sectors would help in the propaganda and expansion of the initiative. The Club of Bragança, founded between 1881 and 1882, would operate in a modest house in the center of the city, having around 40 children. The novelty would be on account of the direction of this club, with enslaved people in front.

What are the expectations of these enslaved with such a Reading Club? What did this mean in a context where abolitionists and monarchists were accused of manipulating the enslaved in the abolitionist and republican campaigns? Teaching the enslaved to read so that they could participate in the debates was one of the republican messages when reporting such initiatives. But enslaved people didn’t exactly need literacy to make political assessments of the atmosphere in which they lived. The letter from the Reading Club, sent to the newsrooms of the newspapers and the signature of slave signatories – therefore already sufficiently literate – suggest thinking about mediations and symbols in the confrontations and black mobilization. The letter published in the newspapers spoke – in an authorial tone of the enslaved themselves – that they were “degraded by their abject condition” being “eliminated from the bosom of humanity and equated with the tiniest animals”, therefore they were the “black spot of the Brazilian name”. Although “without a homeland and without freedom” considered “wandering outcasts” and “renegades of a civilization” they assessed that literacy was the only solution, namely “that education is the only possible means” being this “the reason for the foundation of the Club Literary of Slaves in Bragança”. The enslaved were willing to invest in “unheard of efforts employed in hours of rest” in the present to escape the “miseries of a lifetime” in the future. Updating the debate that spoke of political manipulation and the lack of interest of farmers in the fate of ex-slaves, they guaranteed: “instruction is a necessary preventive for social ills that can result from emancipation”. They even claimed that it was “education” that had to prepare “freedom”.

Visitante observando obra de Panmela Castro na Exposição enciclopédia Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing the work of Panmela Castro at the Black Encyclopedia Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MACHADO, Maria Helena & GOMES, Flávio dos Santos. “Eles ficaram ’embatucados’: seus escravos sabiam ler. Abolicionistas, senhores e cativos no alvorecer da liberdade. In: Mac CORD, Marcelo; ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; GOMES, Flavio dos Santos. (Org.). Rascunhos Cativos. Educação, Escolas e Ensino no Brasil Escravista. 1ed.Rio de Janeiro: 7Letras, 2017, pp. 253-283.

SILVA, Jacinto da. No Tempo da Escravidão: experiências de senhores e escravos em Bragança Paulista (1871-1888). Dissertação de Mestrado, Departamento de História, PUC-SP, 2009

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