Catarina Cassange (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Catarina Cassange (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Catarina Cassange 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, óleo e carvão sobre tela, 120 x 90 x 08 cm, 2021. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, oil and charcoal on canvas, 48 x 36 x 03 in, 2021. Image: Edouard Fraipont

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

“Catarina Cassange 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

EN

In 1906 Machado de Assis published the short story “Pai Contra Mãe” published in his book “Relíquias da Casa Velha”. Eighteen years had passed since the end of slavery and he seemed to want to mock the trades and moral dilemmas that society had created and perhaps had not disappeared. No longer runaway slaves and their pursuers, but grieving mothers and fathers. In his literary drama – on a fictional date of 1850 – Cândido das Neves appeared, a very impoverished “white” man who was about to hand over his newborn son to the “Roda dos Expostos”. To obtain funds, he would invest in the capture of fugitive slaves, appealing to newspaper advertisements that abounded in the urban Rio press. She would try to capture Arminda, an enslaved woman born in Brazil, who had fled precisely because she was pregnant. Aside from novels and fiction, not a few enslaved black women chose to flee at the time of pregnancy, trying both to have a more peaceful birth and to prevent their offspring from continuing enslaved or even being separated by lordly sale. Six or more fugitive time could provide many black women with a strategy to free their children from captivity or even trigger their black community at the time of delivery and early in their children’s lives.

Catarina Cassange was one of those. Her strategies could be accompanied by several advertisements between 1838 and 1839. Its owner, Manoel da Rosa, announced in the Diário do Rio de Janeiro that she had escaped by being four months pregnant. Just like the advertisements of the time, his body and behavior would be described. The first announcement of her getaway was followed by at least three more announcements within four months. Even without being able to capture her, information about her whereabouts was obtained. Known as “preta ganha”, a saleswoman used to walk around Valongo beach and Rua do Livramento, where many Africans were concentrated. She could even have been seduced. A month after the first announcement, another notice would be published saying that Catarina – with the help of seducers – would be trying to follow to Minas Gerais. In one more advertisement it was said that she was spending the nights hiding in anchored boats and would already be in an advanced pregnancy. Catarina managed to stay a year as a refugee, only being captured at the end of 1839. She revealed that she had walked through many places in the city and in the Guanabara region. The one who had helped her the most was the freed Aleixo, an African Mina who had the trade of a barber. For a long time he hid Catarina in his house on Rua dos Ferradores. With the support of several bailers and provisional protections, Catarina would manage to have her son – named José – even being taken to the vicinity of the “quilombo de Laranjeiras”.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; SOARES, Carlos Eugênio Libano; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flávio dos Santos.  Cidades Negras: Africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista. São Paulo, Alameda, segunda edição, 2006

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

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