Lourença Correia (Enciclopédia Negra)


Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Lourença Correia (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Lourença Correia 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Lourença Correia 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Lourença Correia era uma escravizada que morava na cidade do Rio de Janeiro e que trabalhava para o sargento-mor Antônio de Figueira e Almeida, de quem também era concubina. Devido a esta ligação, ela era diariamente castigada pela esposa de seu senhor, Isabel, que, ao mesmo tempo, insistia para que o marido promovesse o casamento da escravizada com algum negro da casa.

Em 1739, Lourença uniu-se ao negro Pedro Benguela, cativo do mesmo sargento. No entanto, e ao que tudo indica, continuou amante de seu senhor, e assim não se livrou das perseguições e castigos da esposa deste.

Não aguentando a pressão, Lourença fugiu para São João do Meriti (RJ), onde se casou com um escravizado chamado Amaro. Foi, porém, acusada de bigamia pelo Santo Ofício, e presa pela instituição em 1745.

Defendeu-se junto ao inquisidor com o argumento de que sua primeira união se dera unicamente pela vontade da esposa de seu senhor, mas não teve sucesso e foi condenada ao degredo em Angola, onde morreu.

EN

Lourença Correia was a slave who lived in the city of Rio de Janeiro and who worked for sergeant-major Antônio de Figueira e Almeida, of whom she was also a concubine. Due to this connection, she was punished daily by her master’s wife, Isabel, who, at the same time, insisted that her husband arrange a marriage of the enslaved woman to some black man in the house.

In 1739, Lourença married Pedro Benguela, a captive of the same sergeant. However, and by all appearances, she remained her master’s lover, and thus did not free herself from the persecutions and punishments of his wife.

Not withstanding the pressure, Lourença fled to São João do Meriti (RJ), where she married an enslaved named Amaro. She was, however, accused of bigamy by the Holy Office, and arrested by the institution in 1745.

She defended herself with the inquisitor arguing that her first union had taken place merely  by the will of her lord’s wife, but she was unsuccessful and was sentenced to an exile in Angola, where she died.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Catarina Cassange (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Catarina Cassange 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, óleo e carvão sobre tela, 120 x 90 x 08 cm, 2021. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, oil and charcoal on canvas, 48 x 36 x 03 in, 2021. Image: Edouard Fraipont

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

“Catarina Cassange 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

EN

In 1906 Machado de Assis published the short story “Pai Contra Mãe” published in his book “Relíquias da Casa Velha”. Eighteen years had passed since the end of slavery and he seemed to want to mock the trades and moral dilemmas that society had created and perhaps had not disappeared. No longer runaway slaves and their pursuers, but grieving mothers and fathers. In his literary drama – on a fictional date of 1850 – Cândido das Neves appeared, a very impoverished “white” man who was about to hand over his newborn son to the “Roda dos Expostos”. To obtain funds, he would invest in the capture of fugitive slaves, appealing to newspaper advertisements that abounded in the urban Rio press. She would try to capture Arminda, an enslaved woman born in Brazil, who had fled precisely because she was pregnant. Aside from novels and fiction, not a few enslaved black women chose to flee at the time of pregnancy, trying both to have a more peaceful birth and to prevent their offspring from continuing enslaved or even being separated by lordly sale. Six or more fugitive time could provide many black women with a strategy to free their children from captivity or even trigger their black community at the time of delivery and early in their children’s lives.

Catarina Cassange was one of those. Her strategies could be accompanied by several advertisements between 1838 and 1839. Its owner, Manoel da Rosa, announced in the Diário do Rio de Janeiro that she had escaped by being four months pregnant. Just like the advertisements of the time, his body and behavior would be described. The first announcement of her getaway was followed by at least three more announcements within four months. Even without being able to capture her, information about her whereabouts was obtained. Known as “preta ganha”, a saleswoman used to walk around Valongo beach and Rua do Livramento, where many Africans were concentrated. She could even have been seduced. A month after the first announcement, another notice would be published saying that Catarina – with the help of seducers – would be trying to follow to Minas Gerais. In one more advertisement it was said that she was spending the nights hiding in anchored boats and would already be in an advanced pregnancy. Catarina managed to stay a year as a refugee, only being captured at the end of 1839. She revealed that she had walked through many places in the city and in the Guanabara region. The one who had helped her the most was the freed Aleixo, an African Mina who had the trade of a barber. For a long time he hid Catarina in his house on Rua dos Ferradores. With the support of several bailers and provisional protections, Catarina would manage to have her son – named José – even being taken to the vicinity of the “quilombo de Laranjeiras”.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; SOARES, Carlos Eugênio Libano; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flávio dos Santos.  Cidades Negras: Africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista. São Paulo, Alameda, segunda edição, 2006

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas”, acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas”, acrylic on canvas, 20 x 28 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Verbete

Até praticamente a década de 1850 havia uma “capoeira escrava” com o perfil de africanos – destacadamente os africanos centro-ocidentais – e a população negra livre. No último quartel Oitocentista ele se prolifera com força e rapidez para vários centros urbanos, mobilizando a prática de pessoas livres, considerados brancos e mesmo letrados.  

Mulheres capoeiristas no século XIX? Quase cena surrealista, a edição do Jornal do Comércio de 26 de janeiro de 1878 noticiava que algumas “pretas” tinham sido presas por capoeiras. Na rua do Riachuelo acabaram capturadas três mulheres sob acusação de “peritas na capoeiragem”. Com o adjetivo de “destemidas” foram detidas as mulheres negras livres Isabel Maria da Conceição – conhecida vulgarmente como Nenê – Ana Clara Maria Andrade, juntamente com a escravizada Deolinda, pertencente ao Doutor Bandeira de Gouveia. Na ocasião da abordagem policial estavam todas em “renhida luta”, desafiando pedestres e depois as próprias autoridades. Identificada como prática – luta, ritual e dança – associada às grandes cidades atlânticas e à população negra, entre livres, africanos, escravizados e nascidos no Brasil – a capoeira e os “capoeiras” se proliferaram entre o final do século XVIII e ao longo do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Não se sabe com estas práticas se desenvolveram, repercutiram e alcançaram várias regiões brasileiras, junto aos setores livres e não-negros, como imigrantes no Rio de Janeiro, por exemplo.

No Rio de Janeiro, a cidade estava cheia de escravizados ao ganho, participantes do mercado de rua e também de capoeiras. Fica difícil imaginar cenários onde mulheres quitandeiras podiam ser também capoeiristas. O certo é que a cidade vai armar diariamente vários cenários onde música, alimentação, trabalho e cultura vão juntar experiências, produzindo outras. Na época em que as “peritas” e “destemidas” mulheres capoeiristas foram presas, o Rio de Janeiro já era dividido – territórios com cores de insígnias e distinção – em dois grandes grupos (subdivididos em maltas) de capoeira, alardeados em versos, suspeitos de usos políticos no jogo eleitoral e celebrizados em alguns romances: Nagoas e Guaiamuns. Não muito mais sabemos sobre as mulheres noticiadas em 1878. Fariam parte de algumas das conhecidas maltas: Três Cachos, Cadeira de Senhora, Espada, ou a principal, Flor da Gente? Indagações a espera de mais pesquisas. 

Mulheres negras na capoeira no século XIX sugerem pensar experiências envolvendo cultura e gênero bem mais antigas do que o estágio atual, no qual os capoeiristas e as práticas da capoeira alcançam mais de 200 países, entre homens, jovens, mulheres e crianças. Para a Bahia e a cidade de Salvador – locais onde a capoeira e vários mestres ganharam distinção e prestígio ao longo do século XX – aqui ou acolá há mais evidências de mulheres participando da capoeira como ritmistas, praticantes, aprendizes e desafiantes de lutas e combates.    

EN

Capoeirista women in the 19th century? Almost a surrealist scene, the January 26, 1878 edition of Jornal do Comércio reported that some “black women ” had been arrested for capoeira. In Rua do Riachuelo, three women were captured on charges of “experts in capoeiragem”. With the adjective “fearless”, free black women Isabel Maria da Conceição – commonly known as Nenê – Ana Clara Maria Andrade were arrested, along with the enslaved Deolinda, belonging to Dr. Bandeira de Gouveia. At the time of the police approach, they were all in a “hard fight”, defying pedestrians and then the authorities themselves. Identified as a practice – fight, ritual and dance – associated with large Atlantic cities and the black population, among free, African, enslaved and Brazilian-born people – capoeira and the “capoeiras” proliferated between the end of the 18th century and throughout the nineteenth century, especially in Rio de Janeiro, Salvador and Recife. It is not known how these practices developed, reverberated and reached various Brazilian regions, along with free and non-black sectors, such as immigrants in Rio de Janeiro, for example.

Until almost the 1850s, there was a “slave capoeira” with the profile of Africans – especially the Central-West Africans – and the free black population. In the last 19th century quarter, it proliferated with force and speed to various urban centers, mobilizing the practice of free people, considered white and even literate.

In Rio de Janeiro, the city was full of slaves to gain, street market participants and also capoeiras. It is difficult to imagine scenarios where “quintandeira” women could also be capoeiristas. What is certain is that the city will daily set up various scenarios where music, food, work and culture will join experiences, producing new ones. At the time when the “experts” and “fearless” capoeirista women were arrested, Rio de Janeiro was already divided – territories with insignia colors and distinction – into two large groups (subdivided into “maltas”) of capoeira, trumpeted in verse, suspects of political uses in the electoral game and made famous in some novels: Nagoas and Guaiamuns. We don’t know much more about the women reported in 1878. Would they be part of some of the well-known packs: Três Cachos, Lady’s Chair, Sword, or the main one, Flor da Gente? Inquiries waiting for more research.

Black women in capoeira in the 19th century suggest thinking about experiences involving culture and gender that are much older than the current stage, in which capoeiristas and the practices of capoeira reach over 200 countries, including men, young people, women and children. For Bahia and the city of Salvador – places where capoeira and various masters gained distinction and prestige throughout the 20th century – here or there there is more evidence of women participating in capoeira as rhythmists, practitioners, learners and challengers of fights and combats.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Negragada Instituição. Os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994.

Retrato Retrato de Suka

Retrato Relato de Suka, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2021

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porque. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porque.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio a memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.


Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Retrato Relato de Ana Coutinho

Olá Panmela, boa noite 


Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.



Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.


Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. As vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.


Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

-Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita  e por me ler. Apesar do cansaço,  agora sinto afeto.

Retrato Relato de Ana Coutinho, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021.

Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Felipa Maria Aranha (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Felipa Maria Aranha (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Felipa Maria Aranha 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 x 02 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 x 01 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Felipa Maria Aranha, foi líder do quilombo de Mola ou Itapocu; localidade disposta nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, um braço do Rio Tocantins, onde agora existe o município de Cametá, no estado do Pará. 

Ela organizou um quilombo na segunda metade do século XVIII, constituído por mais de 300 escravizados e escravizadas fugidos, que se auto sustentaram por muitos anos sem que fossem ameaçados pelas forças legais. Acredita-se que seja proveniente da região da Costa da Mina, no Golfo da Guiné, onde hoje estão localizados os países Gana, Togo, Benin e Nigéria. Deve ter nascido entre os anos de 1720 a 1730, tendo sido capturada em algum momento a partir de 1740, nessa que foi uma das regiões mais importantes para o tráfico de almas empreendido pelos portugueses. Vendida como escravizada, ela foi levada para a localidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará (atual capital do estado do Pará). Em seguida, foi enviada para trabalhar numa plantação de cana-de-açúcar na comunidade de Cametá.

Não suportando os maus tratos, Maria Aranha fugiu junto com outros escravizados no ano de 1750, e na região do baixo Tocantins criara o quilombo do Mola – mais exatamente nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, no território de Cametá –, um espaço por ela liderado, que ostentava alto grau de organização política, social e militar, sendo um dos maiores modelos de resistência à escravidão que a historiografia já encontrou. Tanto que, quando começaram a sofrer com a repressão colonial, foi graças à liderança militar de Maria Aranha, que foram vitoriosos ao expulsar as forças portuguesas e as várias incursões de capitães do mato.

Dona de grande capacidade de articulação política, Maria Aranha estruturou uma entidade composta por cinco quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança e Porto Alegre), a então chamada Confederação do Itapocu. A entidade empreendeu severas derrotas às forças escravagistas, e, diferentemente do exemplo de Palmares, somente cessou sua luta contra as autoridades escravagistas quando Portugal ofereceu perdão político e declarou quilombolas súditos da coroa. 

Maria Aranha morreu em 1780, ainda liderando a Confederação do Itapocu. No início do século XIX, além da liderança de Felipa, nas proximidades do rio Trombetas, perto de Óbidos, ainda na Amazônia, formou-se um quilombo, chefiado pelo cafuzo Atanásio, que chegou a contar com mais de 2000 habitantes que, além de plantar mandioca e tabaco, vendiam produtos colhidos nas florestas da Guiana Holandesa. Tudo leva a crer que estes quilombolas eram respeitados pela vizinhança, sendo suas crianças batizadas nas igrejas vizinhas. Além do mais, em pesquisas recentes feitas na região do Baixo Tocantins e que usam da história oral, há uma desmistificação da suposta subalternidade das mulheres negras.

Hoje se conhecem muitas outras histórias de como, no próprio quilombo do Mola, houve o protagonismo de outras mulheres negras que deixaram muitas histórias para a memória dos seus descendentes. A negra Maria Luiza Piriá ou Piriçá, registrou sua passagem neste quilombo, organizando e liderando a Dança do Bambaê do Rosário e na administração da própria vida dos quilombolas que ali viviam. Juvita foi mais uma dessas mulheres que fizeram a sua própria história e de seus povoados. Ao sair do quilombo do Mola ou Itapocu, ela fundou o Povoado de Tomázia e liderou o mesmo por muitos anos. As negras Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina e outras que tomavam parte do quilombo do Paxibal se embrenharam nas matas e realizavam tarefas em geral consideradas masculinas como: caçar, trabalhar na construção das improvisadas barracas de moradia – os tapiris cobertos e emparedados com palhas, como ubim e sororoca. Também atuavam na plantação de roças, na coleta dos frutos do mato, na pesca, na fabricação de utensílios de barro, de redes de dormir e de roupas feitas com fibras de curuanã e palhas de palmeiras.

Como se pode notar, a resistência e o protagonismo da mulher negra são históricos e tem suas raízes fincadas na tradição e na cultura de suas ancestrais africanas através de artifícios, artimanhas, improvisações e muita astúcia. Elas reinventavam o seu cotidiano e a sua importância no mundo, conseguindo assim, melhores condições para si e para os seus. Casos como o do povoado de Tomásia, que se uniu à já mencionada Confederação do Itapocu e o exemplo do Quilombo de Pixabal, no município de Baião, formado pela liderança das negras Leonor, Virgilina, Francisca e Maximiana descrevem histórias de líderes negras, que não foram apenas esposas ou companheiras. Protagonizaram e lutaram por suas próprias sinas e destinos nesse território da liberdade precária e precarizada. Já o quilombo de Maria Aranha só recebeu reconhecimento legal das suas terras recentemente, em 2013.

EN

Felipa Maria Aranha, was leader of the quilombo of Mola or Itapocu; located at the headwaters of the Igarapé Itapocu, a branch of the Tocantins River, where the city  of Cametá now exists, in the state of Pará.

She organized a quilombo in the second half of the 18th century, made up of more than 300 enslaved fugitives, who supported themselves for many years without being threatened by legal forces. It is believed that she came from the Costa da Mina region in the Gulf of Guinea, where Ghana, Togo, Benin and Nigeria are now located. She must have been born between the years 1720 to 1730, having been captured at any moment  after 1740, in what was one of the most important regions for the trafficking of souls undertaken by the Portuguese. Sold as enslaved, she was taken to the locality of Santa Maria de Belém in Grão Pará (current capital of the state of Pará). She was then sent to work on a sugarcane plantation in the community of Cametá.

Unable to bear the mistreatment, Maria Aranha fled along with other enslaved people in 1750, and in the lower Tocantins region she had created the Mola quilombo – more precisely in the headwaters of the Igarapé Itapocu, in the territory of Cametá –, a space she led , which boasted a high degree of political, social and military organization, being one of the greatest models of resistance to slavery that historiography has ever found. When they began to suffer from colonial repression, it was thanks to the military leadership of Maria Aranha, that they were victorious in expelling the Portuguese forces and in the various incursions of the “capitães do mato”.

Owner of great political articulation capacity, Maria Aranha structured an entity composed of five quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança and Porto Alegre), the so-called Confederation of Itapocu. The entity undertook severe defeats to the slave forces, and, unlike the example of Palmares, only ceased its fight against the slave authorities when Portugal offered political pardon and declared some quilombolas as subjects of the crown.

Maria Aranha died in 1780, still leading the Confederation of Itapocu. In the beginning of the 19th century, in addition to Felipa’s leadership, in the vicinity of the Trombetas River, near Óbidos, still in the Amazon, a quilombo was formed, headed by the “cafuzo” Atanásio, which had more than 2000 inhabitants who, in addition to planting cassava and tobacco, they sold products harvested in the forests of Dutch Guiana. All suggest that these quilombolas were respected by the neighborhood, having their children being baptized in neighboring churches. Furthermore, in recent surveys carried out in the Lower Tocantins region that use oral history, there is a demystification of the supposed subordination of black women.

Today, many other stories are known of how, in the Mola quilombo itself, there was the prominence of other black women who left many stories for the memory of their descendants. The black woman Maria Luiza Piriá or Piriçá, recorded her passage in this quilombo, organizing and leading the Dance of Bambaê do Rosário and managing the lives of the quilombolas who lived there. Juvita was one of those women who made their own history and that of their villages. Upon leaving the Mola or Itapocu quilombo, she founded the Povoado de Tomázia and led it for many years. The black women Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina and others who took part of the Paxibal quilombo, penetrated into the woods and performed tasks generally considered masculine, such as hunting, working in the construction of improvised housing tents – the tapiris covered and walled with straw , such as ubim and sororoca. They also worked in the planting of fields, gathering wild fruits, fishing, making clay utensils, sleeping hammocks and clothing made from curuanã fibers and palm straw.

As can be seen, the resistance and protagonism of black women are historical and have their roots in the tradition and culture of their African ancestors through artifices, tricks, improvisations and a lot of cunning. They reinvented their daily lives and their importance in the world, thus achieving better conditions for themselves and their similar. Cases such as the town of Tomásia, which joined the already mentioned Confederation of Itapocu, and the example of Quilombo de Pixabal, in the city of Baião, formed by the leadership of black women Leonor, Virgilina, Francisca and Maximiana describe stories of black leaders who weren’t just wives or companions. They played a leading role and fought for their own fates and destinies in this territory of precarious freedom. The Maria Aranha quilombo only received legal recognition for its land recently, in 2013.

Felipa Maria Aranha e outras obras de Panmela Castro estão na exposição “Enciclopédia Negra”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a convite dos curadores Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz e Jaime Lauriano.
Felipa Maria Aranha and other works by Panmela Castro are in the exhibition “Enciclopédia Negra”, at the Pinacoteca do Estado de São Paulo, at the invitation of curators Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz and Jaime Lauriano.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: EdUSP, 2004. p. 47

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «Escravidão, Fuga e a Memória de quilombos na Região do Tocantins». Revistas Eletrônicas da PUC-SP. Consultado em 25 de março de 2016

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «História, Memória e Poder Feminino em Povoados Amazônicos» (PDF). Anais Eletrônicos – Encontro Nacional de História Oral – 2012. Consultado em 25 de março de 2016

#RetratoRelato 045

Achei o máximo essa sua iniciativa de saber a história de pessoas comuns.


Tenho 63 anos e trabalho é sempre né senti igual a qualquer adulto: a terceira idade para mim começa aos 80 anos. Meu marido e filhos(3) me colocaram em casa, trabalho por opção desde os 17 anos. Sempre solve que ser dona de casa não era para mim.


Estou com a sensação de que é domingo e amanhã é segunda feira. Já tem quase um mês Dei uma geral na casa: arrumei armários, dei uma geral nas plantas, na cozinha estou fazendo receitas diferentes
Gostei muito da Rita Lobo principalmente nos vídeos do “o que tem na geladeira “.


As netas só por vídeo ( uma tristeza)
Não poder conviver com elas entristece.
Adoro vitrines e mercados e não devo ir e não vou
Sinto me um siri na lata, mas vou sobreviver!
Tenho fé em Deus!
Saúde para você e que Deus ilumine seu caminho,


Isabel deSá


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

#RetratosRelatos 050

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso.Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu to era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.


Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 049

Meu maior desafio da quarentena, foi saber lidar com a inconsistência das emoções. Aulas EaD, eu tinha que me adaptar a esse desafio. Meu celular seria a minha única estrutura. Pesquisas, trabalhos, provas, aulas ao vivo, fóruns. Bateu um pânico. Na segunda semana, a internet caindo durante as aulas,  eu não conseguia carregar os meus trabalhos no portal da faculdade. Daí veios as incertezas: “Onde vou arrumar dinheiro pra pagar as minhas contas?”. 

As notícias a todos momento sobre mortes pelo mundo. Surtei, tive crises de ansiedade. Medos, insegurança. Respirei fundo! Muita meditação. Eu tinha que fazer o mínimo nessa loucura, me ofereci pra ajudar os vizinhos que estão em situação de vulnerabilidade. Um dia na semana pelo menos pra ir ao supermercado e farmácia e etc… Quebrei a quarentena por um bom motivo. Ganhei muita gratidão, e alívio por saber que aquelas pessoas estavam seguras.

Entramos em maio, eu tomei a decisão de trancar a minha matrícula, questão de sobrevivência, com o coração partido. Mas na mesma semana eu consegui a vaga na faculdade que eu tanto queria, vou permanecer com a minha bolsa, e terminar meu curso na faculdade na faculdade que eu desejava. Nunca tive tanto tempo pra aprender muito, em tão pouco tempo. Acredito que tudo isso veio para nos ensinar. Solidariedade. Empatia. Resiliência. Amor ao próximo.

O valor do abraço, de estar perto das pessoas que a gente ama. O valor da liberdade.

#RetratosRelatos 049, Spray e óleo a base d’agua sobre tela, 70 x 50 cm, 2020.

Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 047

Grito

A cada noticia ruim, um minuto de silêncio. Seria possível voltar a falar diante de todos os acontecimentos? 
A humanidade muda, castigada pela natureza somente a enxergar o fim de seus dias. Nada disso seria suficiente para mudar a maldade de tanta gente e assim a humanidade segue em romaria. 
Surdos para ouvir gritos inocentes. Afinal, não é amigo, conhecido, parente… Cegos para ver tanta violência e preconceito. Pra que defender todos, se não tenho nenhum direito?! 
Por cada injustiça, um minuto de silêncio seria até ironia.Num minuto o silêncio enlouquecido clamaria pelo grito do fim da covardia. 
Por que não gritar? Silenciar não me trás alento. É preciso gritar a todo momento que almas inocentes são vitimas de fuzilamento. 
Não nos peça um minuto de silêncio, pois respeitar a dor da perda é fazer justiça. É fazer com que um grito se escute e incentive outro gritopara que ninguém, perdido no silêncio, se esqueça.
Quando nos pedirem um minuto de silencio, é o momento de erguer a vozde cantar nossos cânticos mais antigos, nos recônditos da alma clamar a nossos índios, bater os pés no chão, gritar aos inimigos. 
Eles nos pedem um minuto de silêncio, nós pedimos um minuto de justiça. Enquanto houver silêncio sobre cada bala perdida, um tiro se escuta arrancando outra vida. 
Não farei nenhum minuto de silêncio, pois em luto direi nomes daqueles que em silêncio foram esquecidos, torturados, assassinados, oprimidos, humilhados, massacrados, sofrendo calado em exílio. 
Estamos cansados de calar. Enquanto o silêncio, para eles é respeitar, minha alma atordoada grita. Não é possível que diante de tanta monstruosidade, as pessoas encontram no silêncio o único meio de fazer justiça. 



Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 017

Oi Pamela! Primeiro quero dizer que adoro você, seu trabalho, sua história. Você é uma mulher da porra! Meu nome é XXXX, tenho 55anos, um filho de 28anos e uma filha de 20. Sempre fui a ovelha estragada da família! Tenho 2 irmãs mais novas e minha mãe sempre me hostilizou ao ponto de eu pegar uma mochila É viajar de carona da Bahia a Porto Alegre. Entrei pro Hare Krishna, porque curtia yoga, natureza e lá ninguém enchia o saco pra arrumar um namorado, eu sempre fui muito tímida! Mas percebi que entrar de cabeça em religiões é furada, rola muita hipocrisia e grana. Entrei com 17 anos e sai com 23. Fui trabalhar na sorveteria com meu pai, que sempre foi um paizão.  Conheci meu primeiro marido, muitas brigas porque ele era super ciumento, eu não podia virar o rosto no carro que ele fazia drama. Mas eu estava cansada de brigar com minha mãe e irmãs e fui morar com a família dele. Me tratavam bem, mas eu não podia me posicionar politicamente, sempre fui esquerdista e meu sogro era muito ignorante, tudo pobre de direita metido à besta.

Eu trabalhava como auxiliar de escritório, meu marido de repositor no Carrefour e fim de semana a gente entregava pizza. Ah! Nasci, cresci no Capão Redondo!! Bairro mais sinistro de SP! A gente financiou um apartamento no INOCOOP de Campo Limpo e casamos no civil.  Eu queria muito ser mãe e engravidei logo. Pronto! O homem mudou, me chamava de vaca,  dizia que parecia um balão, me empurrava, teve uma vez que eu estava sentada no banco do carona é ele ficou jogando o carro contra um ônibus falando que se quisesse matava eu e minha barriga. Meu filho nasceu e ele nem ligou,  ia a festas, me deixava sózinha, tive que usar fraldas de pano,  ele não comprava nada pro bebê.  Quando o bebê ficava doente, ele fechava a porta do quarto e gritava pra não fazer barulho. Era um pai horrível! Teve algumas separações, eu acreditava, ele melhorava, mas o inferno voltava. Nesse tempo eu estava desempregada é ele também perdeu o emprego. Eu comecei a deixar meu filho com a minha mãe e ajudava ele vendendo frutas e legumes na rua. Ele alugou um ponto comercial e começou a montar uma pequena agropecuária. Tirei carta de motorista e a situação começou a melhorar. Óbvio que eu não queria engravidar novamente, ele era totalmente ausente como pai. Quando meu filho estava com 7 anos a gente vivia de aparência. Eu não o amava, mas se eu falasse em separação ele dizia que eu ia passar fome, etc. Eu cedia. Acabou que engravidei sem querer. Foi horrível,  eu só chorava e ele ficou feliz num dia E no outro voltou dizendo que ia embora e que eu me virasse! O fdp tinha uma amante  e ela, ao saber da minha gravidez, encostou ele na parede e ele ficou com ela. Tive uma gravidez terrível,  meus vizinhos me davam cesta básica e os pais dele traziam o gás e pagavam as contas.

Na época se vendia telefone, eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor horrível Meu pai, que estava morando no interior de SP, me convidou pra morar com ele e minha mãe. Na época se vendia linha telefônica,  eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor dos inferno.  Ele nem foi ver a neném.  Coloquei o nome de Vitória e meu instinto maternal passou por cima de toda rejeição e me apaixonei por aquela menina. No interior, meu pai me ajudou muito,  me deixava usar o carro é pediu pra que eu voltasse a estudar. O pai dos meus filhos nunca pagou pensão. Como era comerciante, tirou tudo que estava no nome dele, fez declaração de pobreza, chegou a se vestir de mendigo numas das várias audiências. Fiz um supletivo. Entrei na faculdade, fiz pedagogia, pra pagar a faculdade consegui estágio num projeto que ficava com crianças carentes ou de risco e consegui terminar a faculdade. Meu pai foi o pai da minha filha. Cuidava, tinha um amor maior que tudo, meu filho guardou os traumas,  até hoje ele tem baixa autoestima, mas minha filha nunca sentiu falta do que não teve.  Fiquei 1 anos desempregada e minha mãe com cara feia. Aproveitei pra fazer todos concursos e estudava muito. Passei em 2 concursos e comecei a lecionar numa cidade perto do meu pai. Consegui juntar um $ e comprei uma casinha,minha casa, minha vida, comecei a namorar só depois.

Depois de uns 4 anos lecionando comecei com sintomas de depressão. Só chorava, ñ comia, tinha taquicardia e ficava com as mãos pingando suor frio quando entrava numa sala de aula. Passei nos psiquiatras do SUS, fluoxetina, diazepan, sertralina. Mas eu comecei a beber, tinha que beber o tempo todo. Brigava muito com o namorado e meus filhos crescendo e eu não conseguia lidar. Meu filho passou em direito na UEM, em Maringá e eu não tinha como ajudar muito financeiramente e ele não trabalhava ao mesmo tempo minha filha com 12 anos já transava e usava maconha. Eu não conseguia me impor, sempre fui boazinha, mas eu não sabia lidar com aquela realidade. Acabei casando com o namorado, mas bebia o tempo todo, meu segundo marido me levou num psiquiatra fudido,caro pra cacete, mas ele me deu o diagnóstico de Transtorno Bipolar Esquisoafetivo e como eu não conseguia parar de beber como uma dependente química fui internada num hospício.  Nossa! Chamava IPT Instituto de Psiquiatria de Tupã,  era um inferno, eu vi gente esfregando cocô na cara, era tudo fedido, a noite só se ouvia gritos, fiquei 2 dias num quarto com mulheres menstruadas, mijadas e cagadas amarradas na cama. Eu chorava muito e pedia pra falar com meu marido,  mas me disseram que visita só depois de um mês. As roupas eram marcadas e tinha uns doidos que dava medo. Rodei a baiana, falei que quando saísse ia denunciar, me seguravam e aplicavam injeção, mas nem fazia efeito, mesmo grogue eu ficava gritando até eles me mudarem de pavilhão. Fiquei numa ala menos fedida, num quarto com mais 2 e era menos monstruoso. Me acalme e acho que todas injeções fizeram efeito e eu sei que dormi 3 noites e 2 dias seguidos. Não tinha tomado banho ainda, acordei, tomei banho e esperei a hora de comer. Chamaram meu marido e deixaram eu me encontrar com ele por 4 minutos! Só deu tempo de eu pular no pescoço dele e implorar pra ele me tirar dali. Ele chorou e disse pra mim ficar calma. Ele procurou a irmã rica dele e pagou pra me transferir na ala particular.  Fiquei 3 meses.

Na ala particular era tudo melhor, tinha um quarto e banheiro só pra mim, enfermeira grudada, aulas de artesanato e não tinha louco de pedra, algumas figuras dependentes de drogas e uns que a família internada por serem idosos ou inválidos.  Sai da clínica, mas não parei de beber, meu marido não aguentou e foi embora. Descobri que meu filho ficava fumando maconha na República tinha abandonado a faculdade. Minha filha continuou a vida louca dela é eu bebia e comecei a roubar vodka nos mercados e estava sempre de licença,  com a internação os médicos conseguiram me readaptar e eu não precisava mais dar aula. Trabalhei na biblioteca, transava com quem queria. Fui pega roubando e rolou um processo. Comecei a ter surtos psicóticos, ouvia vozes, tinha medo de morrer,  achava que a polícia vinha me prender toda hora,tinha medo de tudo, pedia pra minha filha ñ me abandonar, ela tina que me dar banho e eu me arranjava, uma hora vi minha filha chorando dizendo que não sabia mais o que fazer comigo. Tentei suicídio,  tomei 3 cartelas de lítio, minha filha e o namorado dela me levaram no pronto Socorro e fizeram uma lavagem. A cidade é pequena,  eu tinha vergonha de sair na rua, ficava andando de um lado pra outro falando sózinha. Até que não aguentei e liguei pro meu marido pedindo socorro.

Ele estava no MG e pediu 3 dias pra esperar. Quando ele veio, me levou num psiquiatra, mudou meus remédios e eu pedi pra ele ficar .Ele está comigo até hoje, parei de beber, fui absolvida, nunca mais tive um surto tão forte, às vezes tenho umas recaídas, mas não deixo de tomar meus remédios e ir no médico.  Aprendi que a mente controla tudo. Cuido da minha alimentação, me tornei vegana, chorei muito quando o Bolsonaro foi eleito, escutava aqueles rojões e nunca vou entender como esse povo pode festejar a eleição de um fascista. Briguei com muita gente por causa disso. Estou pra me mudar de cidade com meu marido, que esteve comigo nos piores momentos e não desistiu. Meus filhos moram na capital, meu filho se formou em História na USP e minha filha se juntou com um bolsominio. Minha mãe diz pra mim que ñ me quer na casa dela e minhas irmãs não tenho contato. Tô num momento de mudança! Vou vender tudo ou doar e meu sonho é conseguir comprar um terreno na praia e construir uma casa de madeira,  ter uma horta, aprender surfar e conhecer gente legal. É isso!!!! Ufa!!!!!


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Esta obra faz parte da Exposição #RetratosRelatos que abriu em 07 de março de 2020 no Museu da República no Rio de Janeiro.

Muitas formas de se falar sobre racismo

Os dados mostram que o número de mulheres negras chefes de família são altos. Elas têm que trabalhar para sustentar suas casas e cuidar de seus filhos sem ajuda de um companheiro, aumentando desta forma, a pobreza e as dificuldades de se viver. Essas mulheres têm dificuldades de se firmarem em relacionamentos amorosos pois estão longe do padrão de uma “mulher considerada para se casar”. São preteridas pelas brancas.

“Branca para casar, mulata pra fuder, negra pra trabalhar”, intitula a pesquisa de Ana Cláudia Lemos Pacheco sobre a solidão da mulher negra, que também é o objeto de pesquisa desta minha série de fotografias de longa e dupla exposição. Penumbra é autobiográfica e fala sobre racismo. Ao apresentá-la ao público, recebi elogios pela ‘série sensual”. Esta série não é sensual, é o registro das noites de solidão durante a quarentena de 2020. O que a torna sensual é o olhar racista que hipersexualiza o corpo de mulheres miscigenadas como eu. É uma série que mostra que a solidão também pode ser o desdobramento de um problema social. 

As fotografias tratam da solidão como luxo. Luxo de só se sentir só, enquanto outras passam fome e outras dificuldades para manter a família durante esse período. Mas há de saber que não ter filhos é compulsório na tentativa de uma vida minimamente decente, que de outra forma, como corpo hipersexualizado, só serviria pra cama, pro lazer, para uma noite ou como amante, abandonada e sem apoio. A vida está digna, mas celibato é compulsório e a solidão também.

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Many ways to talk about racism.

The numbers of women of color heads of households are high. They have to work to support their homes and care for their children without the help of a partner, thereby increasing poverty and difficulties in living. These women find it difficult to establish themselves in romantic relationships because they are far from the standard of a “woman considered to be married”. They are passed over by white woman.

“White to marry, mixed to fuck, black to work”, says Ana Cláudia Lemos Pacheco’s research on the loneliness of black women, which is also the object of research in this series of long and double exposure photographs. Penumbra is autobiographical and talks about racism. When presenting it to the public, I received praise for the ‘sensual series “. This series is not sensual, it is the record of lonely nights during the quarantine of 2020. What makes it sensual is the racist look that hypersexualizes the body of miscegenated women like I. It is a series that shows that loneliness can also be the result of a social problem.

The photographs deal with loneliness as a luxury. The luxury of feeling alone, while others go hungry and have other difficulties in maintaining their family during this period. But is important to know that not having children is compulsory in the attempt of a minimally decent life, which otherwise, as a hypersexualized body, would only serve for bed, for leisure, for one night or as a concubine, abandoned and without support. Life is dignified, but celibacy is compulsory and so is loneliness.

#RetratosRelatos 35 – Quarentena 1

Durante a quarentena recebi pelo email panmelacastro@yahoo.com relatos de mulheres enviados junto à uma selfie e nos quais retratei. Este trabalho em específico foi comissionado pelo Instituto Moreira Sales para o programa “IMS Convida”. A coleção das 3 obras produzidas para o programa pode ser conferida no site do instituto.

@panmelacastro

Sou XXXX XXXX, com som de i mesmo, estou com 27 anos e essa quarentena é o ápice do desafio que está sendo sobreviver diante do caos.

Recebi um diagnóstico de HIV no último pré natal da gestação de XXXX, meu gavião em tupi, há dois anos e três meses.
Estou só, experenciando a vida desde meus 12 anos e a família do pai dele não soube lidar muito bem com a notícia.
O diagnóstico é mais mental e social do que físico. De um dia para o outro, marquei uma cesárea eletiva e descobri que não poderia amamentar e teria que tomar dois medicamentos para sempre. Foi uma quebra de toda utopia que acreditava viver. O XXXX, pai de XXXX foi super grosseiro antes de eu entrar no pré natal e quando saí já sabia que não teria nenhum apoio emocional.
Entre depressão pós parto, tristeza, medo e solidão, vivi o maior dos amores que é ser mãe e a esperança de finalmente construir minha base e não ser mais só.
Então ninguém soube lidar com.nada, o machismo impregnou nossa relação, as tradições engessadas me sufocaram e a família dele ameaçava tirar meu filho de mim entre ameaças, humilhações e deboches. Ouvi que era só uma vagabunda que ele engravidou na rua, que ninguém iria querer uma magrela aidética, que se nem minha mãe me quis, quem iria querer? Ouvi isso e mais do homem que escolhi passar a vida, o homem que compartilhei o maior amor que o universo me dara.
Aconteceu tanta coisa, e eu cansada, magoada… até remédio de hiv ja jogaram na calçada para eu pegar. Ele procurava prostitutas, me agredia e depois fingia que nada havia acontecido. Já me empurrou e gritou logo em seguida para que eu parasse de me jogar. E eu tentava a todo custo me libertar desse padrão de achar que isso iria mudar, que ele estava doente, que não era maldoso assim.
Aluguei minha casa para morar com meu filho e segui.meus princípios até o fim. Acreditei que se fizesse minha parte e seguisse os ensinamentos do mestre Cristo, que ele iria se invadir por amor e me perdoar por qualquer que seja o motivo que me odeie.
E estou aqui, escrevendo esse e-mail, sem ver meu filho há 5 meses, perdi minha casa, perdi minha alegria, trabalho, perdi minha luz e estou de favor no quarto de um moço muito gentil que encontrei na vida. De favor, lutando para comer e me manter viva e superar essa fase. Abraçar meu filho e compartilhar essa vida com ele.
Quando conto isso, só recebo perguntas como o que fiz, que tipo de mãe perde o filho, mas afirmo que nossos direitos não são reconhecidos e estamos muito longe de uma igualdade justa. Existem pessoas que manipulam tudo e todos até obterem o resultado esperado e é quase impossível provar que elas fizeram o que fizeram.
Fui processada pelo ministério público por intransigência ao questionar meus direitos na creche da prefeitura e depois notei que tudo o que foi feito, foi lentamente estruturado por ele.
Demorei para aceitar a maldade da humanidade e demorei a aceitar que valemos o que temos, o que ofertamos materialmente importa e status ainda manda nesse sistema.
Estou com 48 kg, mas não desisto e sou extremamente grata de ter oportunidade de transformar toda essa arte em alegria, seja por momentos ou uma poesia ou quadro. A arte resgata minha alma toda vez que ela tenta fugir e sou.muito grata por ser quem sou.
Retomando à quarentena, não sei se saio entregando coisas de bicicleta, se corro riscos por ser soropositiva e nao estar me alimentando direito, se estou mesmo acolhida, se verei meu filho e se vou construir uma família um dia. Estou cansada de estar só sempre sendo atacada e julgada. Cansei. Espero que tudo isso valha de algo um dia. Sentir a dor de estar sem.meu filho e o desamor é muito, mas eu aguento.
Sei que a deusa vai permitir que eu veja e esteja por perto do meu passarinho e sei que ainda vou ajudar muitas mulheres.
Poderia escrever muito mais, mas sou grata por esse espaço de fala e tenho fé de que todas iremos retomar nosso lugar.
Assino Aveeva nos meus trabalhos para lembrar do sagrado e profano femininos e toda magia que nos foi negada.

Um Beijo na Loucura

Eu me sinto perseguida. Sinto como se quisessem o que eu tenho, viver a vida que levo, criar as coisas que crio e até mesmo ser quem eu sou. Vivo na iminência da traição. Talvez se você é esse outro que me persegue, vai estar rindo com as mão cheias, pronto para se utilizar dessa confissão para mais uma vez me apontar como louca. Gritará alto que eu deveria me tratar, e eu em um tom maior te adiantarei que: – sim, BB, eu me trato. Tomo antidepressivos e antipsicóticos além de ir a psicanalista 2 vezes por semana. Mas a verdade é que remédio nenhum irá mudar o que sinto pois não sou eu quem está doente, é o mundo. Se você vive bem em um planeta onde cerca de 820 milhões de pessoas não tem acesso suficiente a alimentos, onde a cada 6 horas uma mulher é vítima de feminicídio e 750 milhões de jovens e adultos ainda são analfabetos, tem algo errado com você, não comigo. Te digo certamente que você está sorrindo pra loucura, pois só ela explica seres humanos viverem em privilégios sem serem atormentados pela situação destes outros excluídos. 

Nos ensinam que nossa história é progressista, mas a história foi e ainda está sendo escrita por ditos vencedores, então duvide. A sociedade é decadente, criada a partir da nossa exploração, escravidão e extermínio, à favor de poucos. O conflito é parte do ser humano. Lutam por seus desejos, movidos pela inveja e isso, é apropriado a favor da organização de nossa atual sociedade, onde poucos tem mais. e muitos, menos; e onde quem tem menos quer ter mais, mesmo que para isso, existam um outro que nadará na miséria. Não julguem esta minoria, apenas querem se salvar. As pessoas foram acostumadas a viver com o outro que morre de fome, e dor ao lado, sem fazerem nada; se isso não é loucura, me digam o que realmente é. 

Quando eu digo que me sinto perseguida por pessoas que querem tomar meus privilégios, falo sobre viver em uma sociedade onde a competição é a força motriz. Não é sobre ser ruim, é sobre ter medo de que me tirem o pouco que minhas ancestrais conseguiram pra mim. É sobre ter medo de voltar à marginalidade, submissão, opressão e violência. Loucura é viver num mundo onde muita gente sequer vai saber sobre o que estou falando, mesmo muitas passando por isso todos os dias. Vítimas da alienação que nosso povo passa e continuará passando, se caso nada for feito para derrubar o patriarcado. O patriarcado é a base do capitalismo e uma das fraqueza da democracia. Se você quer mudar o mundo, tem que tirá-lo de vigor. E, se depois de tudo dito, ainda sim você insistir em me chamar de louca, eu deixarei. Já existiu Eva, houveram bruxas queimadas, como agora há as vadias. Ser o que sou sempre foi estigmatizado pela história e se ser consciente desta minha condição me leva ao que chamam de loucura, eu beijarei então este meu título.  

 

Pedido de Socorro

Esse texto foi escrito em caracter de registro e proteção. Também é um texto explicativo, pois estou passando por uma situação bastante humilhante por parte de um homem próximo que alegava meu bem querer. Estou tendo que deixar de frequentar lugares e me isolar socialmente. Hoje esse homem me persegue contando histórias sobre mim de forma que me prejudicam na minha carreira e colocando em cheque minha lucidez e idoneidade. Primeiramente peço que não passem para frente essas histórias e quem tiver presenciado esses comentários e estiver disposta a testemunhar em um boletim de ocorrência por difamação, eu desde já agradeço.

Por séculos mulheres quando se impunham eram chamadas de histérica, neuróticas, treteiras. Na história iam da bruxaria até a loucura, deixando os hospitais psiquiátricos para seguir vendo seu juízo questionado tantas vezes até hoje, em pleno século XXI.

Essas palavras são frequentemente utilizadas para desqualificar reações emocionais legítimas de mulheres como raiva, medo, “desobediência”, reações que são socialmente indesejáveis em mulheres, que devem ser submissas, calmas e pacíficas.

Existe uma tese de 88 sobre “Complexo de Cassandra”: o sofrimento das mulheres que, desmerecidas em seus sentimentos e atos simplesmente por serem mulheres, e consequentemente percebidas como “irracionais” e “histéricas”, não encontram apoio e são desacreditadas quando contam acontecimentos reais pelos quais passaram, ou sintomas que de fato sentem.

É curioso perceber, também, que as mesmas emoções, quando demonstradas por homens, são percebidas de outra forma. Afinal raiva, falar alto, agressividade, imposição física, etc. – são consideradas formas “razoáveis” de se reagir enquanto homem.

Amigas, eu uma mulher que trabalho todos os dias com estas questões, ainda passo todos estes mesmo dias por esta desqualificação das minhas percepções e sentimentos por homens que se dizem contemporâneos e progressistas. Sendo eu, humilhada e perseguida ( a fim de me por no meu lugar) por aqueles que antes diziam me amar, mas que a partir do momento que questiono sua posição, se voltam contra mim de forma extremamente cruel e malígna.

Não sou eu q sou treteira, nem minhas amigas são “pessoas difíceis”, é que a gente ainda vive em um mundo misógino e não aceitamos mais passar por isso.

Pode me mandar pra terapia, pro psiquiatra, pra fogueira ou pro hospício, mais ainda sim, minhas imagens estarão por aí, como um símbolo que nós mulheres iremos resistir.

SuperVia, Panmela Castro, 2010, 2’56”

Até pouco tempo atrás o espaço público era restrito à homens. Ainda hoje posso falar dos perigos da cidade para o corpo feminino. Durante muito tempo eu quiser ser um homem e pensava habitar a pele errada. Para ser aceita e respeitada por gangs de homens, eu tive que me masculinizar: andar como eles, vestir-me como eles e até falar como eles. Em um determinado momento, percebi que o quê eu almejava nunca foi ser um homem, mas sim possuir o poder que eles exibiam e eu como mulher, nunca alcançaria. Que por mais que praticasse a mimese, o fato de eu possuir um corpo feminino, denunciava quem eu era e o meu lugar na casta de poderes.

Subvertendo o papel destinado a mim, troquei minhas vestimentas masculinas por uma indumentária hiper feminina, colorida e com flores; o meu gestual agressivo e cheio de regras masculinas por poses de menina, e assim, coloquei-me em ações masculinas de intervenção ilegal.

O resultado é a série de fotos e vídeos “Lady Grinning Soul” (Dama da Alma Sorridente), inspirada na música de David Bowie.

Feminicídio

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres. Deixamos de ser cúmplices de nossos escravizadores.

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Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Porquê Emicida me Deixa Triste

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Uma vez eu falei assim para a Lívia Cruz: “- Para que tá feio amiga.” Ela me esculhambou. Eu não fiz nada.

Eu não fiz nada porquê já fiz muito. Já xinguei, fui homofóbica, racista, falei mal e até bati nos outros. Mas chegando à casa dos 40, a gente vê  que a gente muda e muda o mundo. E eu, escolhi mudar buscando formas mais assertivas.

Quando eu vejo o Emicida usar seu poder para desqualificar essas meninas, eu fico triste. Eu vi a molecada do rap chegar ao poder. Acreditei que eles iam transformar a sociedade. O quê em parte é verdade. Mas em uma análise nem tão profunda, identifico falas contra a luta de classes e o racismo, mas apenas um corpo-instrumento quando pensamos na manutenção do Patriarcado, afinal são homens e essa conjuntura os favorece.

A Flora é foda. Artista completa … personalidade difícil. Criou uma metáfora linda com Preta de Quebrada, mas cismou que não era só música, que era vida. A auto identificação racial pode ser válida no Brasil. Temos que entender a construção da identidade do sujeito, mas o sujeito também tem que entender, que o colorismo, a maneira como o outro te lê, é o que vai fazer que você seja desqualificado, inferiorizado e marginalizado, sujeito ao preconceito, exclusão, jogado ao campo do não privilégio. E a leitura que fazemos de Flora é, que ela é branca. Privilegiada. Mas o Emicida também fez Trepadeira, uma música que além de incitar a violência contra a mulher, a deprecia pela sua livre sexualidade e ainda direciona para as pretas: Afinal a nega é a trepadeira. O Emicida assentou a mulher negra naquele velho estereótipo hipersexualizado. Isso me lembrou quando Livia e Sweet também fetichizaram os homens negros, e Emicida, criticou. Criticou e se casou com uma branca abandonando a ex companheira porque, ao meu ver, não importa ali dar moral à mulher negra (aquela hipersexualizada que serve pra cama mas não pra sociedade), embarcar no jogo do Patriarcado exibindo como status uma mulher bem padrão, como um prêmio, um objeto que vc adquire, o faz pertencer ao poder.

Porquê mulher negra não faz história, afinal foi isso que ele disse no post apagado no perfil da Nega Rê. Na época ele não fez aquele típico jogo de batalha (Link da batalha), ele à hostilizou em um nível alto de misoginia, falando do (e pegando no) cabelo (Tópico tão delicado para as negras), chamando de feia e ao final, afirmando a mulher negra merecedora de seu papel como diarista, aquela que pertence à senzala. Mesmo de etnia similares, o Emicida enquanto homem terá dificuldades de entender  os processos que param as mulheres em suas carreiras e ele vai achar que venceu por talento, porquê é um iluminado divino, porquê tinha que ser.  O Emicida não vai levar em consideração que as ultimas falas que ele usou pra desqualificar essas meninas, para acentuar e promover seus erros, são discursos (Veja Eva e Pandora) feitos desde que o mundo é mundo para colocar as mulheres em seus lugares: submissas como escadas para que os homens alcancem o sucesso.

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Porém foi-se o tempo em que todas nós éramos escravas coniventes com nossos senhores. Hoje a gente questiona, debate. E, não venha me dizer que somos agressivas, loucas e descontroladas, pois diante de tanta violência que passamos em todos os processos de nossa vida, estas são reações. Malcom X pegou em armas, Mather Luther king optou pelo diálogo. Nós feministas, temos sim também muitas formas de pensar e lutar. Apesar de canalizar minhas energias para o pacifismo, não julgo essas mulheres que pegam em armas.

Se eu tivesse a oportunidade de falar algo com o Emicida, eu diria para ele deixar com nois. Deixa que a gente se entende, se mistura, se conversa e se educa. Briga também se tiver que brigar. Mas deixa a gente. Não precisamos de mais um homem, seja ele branco ou negro, nos criticando, dizendo se estamos certas ou erradas e nos dizendo mais uma vez como devemos ser.

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4 Trabalhos de Arte que Falam sobre Aborto

Your Body is a Battleground

Bárbara Kruger, 1989.

Os cartazes da artista, ativista feminista Bárbara kruger são bem conhecidos no mundo da arte. Um dos mais exibidos é justo esse criado para uma campanha pela pro-choise nos EUA.

Guerrilla Girls Demand A Return To Traditional Values On Abortion

Guerrilla Girls, 1992.

Estamos acostumados a ver em Museus diversos cartazes do grupo nova-iorquino que critica a falta de protagonismo das mulheres no mundo das artes, além de críticas ao patriarcado e ao machismo. Nas lojinhas de muitos desses museus, podemos comprar este trabalho que mostra que elas também lutam pelo direito ao aborto.

O Aborto

Paula Rego

Paula Rego produziu em 1998 uma série de dez quadros à pastel falando sobre suas próprias experiências quando a proposta de legalização foi derrotada em um primeiro referendo.

Possibilidades

Claudia Paim, 2011.

Realizada no Festival Performance Art Brasil no MAM – RJ, a artista brasileira tratou da ideia glorificada da maternidade.

Carta à Malala

Querida Malala,

No Brasil, passamos agora por um período de retrocessos. O projeto de lei que tenta instituir a chamada “Escola sem Partido” tem sido muito debatido e impulsionado por setores extremamente conservadores da sociedade representados no congresso. A proposta, se aprovada, vai limitar (e punir!) professoras e professores que falarem sobre gênero em sala de aula, entre outros.

Além de criar uma cultura do medo e diminuir a reflexão crítica, a “Escola Sem Partido” inibe o desenvolvimento de uma sociedade onde homens e mulheres são iguais tanto no que diz respeito ao controle como ao uso de seus bens e serviços.

Na Nami, durante as oficinas do projeto “Graffiti Pelo Fim da Violência Contra a Mulher” que é realizado em escolas para alunos entre 14 e 19 anos, além de falarmos sobre os tipos de violência doméstica e promovermos a Lei Maria da Penha, criamos um momento para pensarmos a desconstrução do gênero no sentido de alargarmos as bordas do que é definido sobre como é ser uma mulher e como é ser um homem. Eu, como uma sobrevivente da violência doméstica, entendo que a violência contra a mulher acontece justamente quando o outro não aceita saímos do padrão pré estabelecido sobre como deve ser uma mulher e por isso estimulamos esta reflexão nas oficinas. Para que entenda melhor, posso usar minha própria história como exemplo: quando fui espancada por meu companheiro e mantida em cárcere privado por uma semana, ele alegava que eu não era uma boa dona de casa. Na época ele estava desempregado e eu além de trabalhar ainda estudava, passando o dia todo fora. Ainda assim, ele acreditava que todas as tarefas de casa, incluindo as refeições, deveriam ser feitas exclusivamente por mim, pois este era meu papel como esposa. Ainda hoje, muitos meninos não são estimulados a realizarem as tarefas de casa, alegando-se que este não é trabalho para homens. Então, quando eu falo em afrouxar as barreiras do que é ser mulher e do que é ser homem, eu falo justamente em quebrar essas definições pré concebidas.

Este trabalho está diretamente ligado à educação. Aqui no Brasil, as meninas assim como os meninos podem frequentar escolas. No entanto, a educação ainda não é uma ferramenta de mudança do padrão de relacionamento entre homens e mulheres porque não existe perspectiva de gênero na educação. Eu mesma fui privilegiada por poder cursar uma boa escola e ingressar em uma das melhores universidades do país, mas desconhecia meus direitos enquanto mulher e sequer era capaz de identificar uma violência, passando anos naquele relacionamento abusivo. Precisamos de uma educação que ensine que meninos e meninas devem ter os mesmos direitos, se respeitar e resolverem conflitos sem uso da violência. Mas o legislativo acha que fazer isso é ruim, e persegue a discussão sobre gênero na escola.

Eu Não Sou Um Homem Fácil

Muitos podem julgar que o filme promove que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a nossa. Sádica, não diria tratar-se disso, mas sim criar uma ironia na inversão dos papéis para se fazer pensar a mulher enquanto ser oprimido. Colocando o homem no papel da mulher, o filme faz-se sentir na pele o que vivemos em nosso dia a dia.

Ainda penso que a roteirista e diretora Eleonore Pourriat pegou muito leve ao colocar a inversão como um delírio do protagonista ao bater a cabeça em um poste de aço, porque assim, em todo o tempo você tem a sensação de que aquilo ali é algo ocasional e que a qualquer momento voltaria ao normal; o que realmente acontece quando a Alexandra se depara com o mundo normal, me incomodando pelo fato de parecer punida por seus atos quando ainda tinha algum poder: até em um filme aparentemente feminista, a mulher se da mal no final.

Se fosse eu a escrever este filme, tornaria-ló invertido desde o início e ainda fecharia com a mulher esculhambando o macho no final, como acontece em nosso mundo real onde saímos sempre no prejuízo.

Mas só pra fechar esta reflexão, vale dizer que o ideal de uma sociedade matriarcal é uma sociedade igualitária, onde justo pela mulher ter poder, poderia organiza-lá de forma justa e compreensiva.

Santo Amaro Era Skatista

Acabei de ver o documentário do Ademar Luquinhas na Globo News e fora o depoimento de sua mãe, não houve em nenhum momento qualquer tipo de participação ou fala de mulheres. Não houve porque não há. Porque mulher ali não é parceira, é um objeto descartável como um skate que quebra e já não serve mais. Esse fato só mostra a segregação, machismo e até misoginia que esse movimento trás. E quando falo de movimento não falo apenas de skate e Ademafia, falo de um problema estrutural de nossa sociedade: o patriarcado. O sonho deles era construir uma pista de skate, o meu é construir uma cena onde mulheres possam participar e até ser protagonistas das histórias do mundo lado a lado de importância com os homens.

Vagina Dentada (Filme)

Sempre que escuto o sobrenome O’keeffe me lembro das flores da pintora norte-americana que remetem a suaves e delicadas vaginas. Quando era adolescente, eu costumava fugir das aulas do Liceu de Artes e Ofícios para ir o Museu de Belas Artes, e em uma dessas visitas eu conheci a obra de Georgia O’keeffe. Esta experiência iria influenciar minha produção definitivamente: eu comecei a experimentar a pintura de flores como vaginas e vice versa, até que cheguei na vagina dentada, referência da leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

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Pesquisando imagens no google para vagina dentada, cheguei ao cartaz desse filme de Mitchell Lichtenstein, filho do artista da Pop art Roy Lichtenstein, em que por coincidência ou não,  tem como protagonista uma garota chamada Dawn O’keeffe.

O filme de tão ruim, chega a ser bom. Justamente pelo texto e a direção do Lichtenstein, que enquanto homem, apresenta ao mundo o temor diante de nós mulheres; e o que torna o filme bastante caricato.

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De maneira bastante sutil, a primeira cena do filme já mostra o que está por vir e é o único motivo que não faz você desistir de ve-lo até o final, pois apesar de chato na construção da personagem, vc fica apreensiva aguardando a hora dos pintos começarem a voar. Então o filme entra em uma sequencia que a principio te enoja com todo o sangue esguichando de órgãos genitais masculinos, mas que muda repentinamente para um prazer sádico de quem aprecia veem homens violadores finalmente levando o que eles merecem.

Não se trata de um filme feminista, mas de um filme sobre mulheres criado sob a perspectiva masculina. Cenas como quando a mocinha finalmente consegue transar com um rapaz sem que decepasse seu falo, denunciam isso. Algo sobre um velho fetiche masculino em que até a mais difícil e desencaminhada das mulheres, pudesse ser seduzida, dominada, amansada e transformada em uma verdadeira mulher por um herói. Como já não bastasse esse velho conto de fadas masculino, o rapaz que consegue transar com a protagonista (há essa altura já a chamamos de mocinha), o faz drogando-a como se não tivéssemos passado os últimos dez anos visibilizando que ato sexual com mulher dopada / bêbada / desmaiada é estupro. Ou seja, mesmo quando a relação no filme parece consentida, é no final estupro também.

Encontrei essa matéria na Vice que fala um pouco da dificuldade com filmes como este e aqui vocês podem assisti-lo com legenda no youtube.

Museo Frida Kahlo

Frida é um exemplo da misoginia nas artes. Apesar de ter se tornado uma artista muito mais relevante do que seu companheiro Diego Rivera, Frida teve uma de suas obras adquirida para o acervo do MoMa quase meio século depois da primeira aquisição de Rivera.

Ainda sim, sua arte e história se tornou um grande frenesi no imaginário popular e podemos confirmar este amor na visita à casa que nasceu e morreu na Cidade do México: a casa azul.

A construção em estilo francês demostrava o desejo de sua família – de classe média – pela sofisticação, porém com o casamento com Diego Rivera e a exaltação de seus ideias revolucionários, acoplaram a casa, cores e itens que remetiam as origens indígenas do país, assim como foi com a própria vestimenta de Frida.

A casa azul que hoje é o Museo Frida Kahlo tem fila para entrar, pouco tempo do horário que abrem as portas, uma multidão de gente espalha-se pelos cômodos e jardim, curiosos para ver e saber mais desta mulher que retratou sua vida em pinturas muitas vezes chamadas de surrealistas.

Uma experiência encantadora e única que aconselho para todos os visitantes da cidade amantes das artes.

Garota Sombria Caminha Pela Noite

Em uma leitura feminista do Garota Sombria Caminha Pela Noite, posso dizer que trata-se de uma cidade onde o mal está solto pela madrugada, mais rola essa garota que com sua capa preta anda de skate como testemunha de ações violentas no qual ela não possui medo e age como justiceira quando prega seus dentes sugando o sangue de bandidos e marginais. Apesar de assassina, encontra um rapaz que não a teme e a aceita como ela é: forte e empoderada. 
Nesta trama me incomoda um pouco o final onde seu amante sugere fugir, e de forma submissa ela vai, sem falar ou perguntar muito, como se ali houvesse algum tipo de salvação. 

Garganta Apertada

Eu não tô de olho roxo nem levei gosada no pescoço, mas estou sofrendo com o machismo velado daqueles que se acham os reis do rolê. Um tipo de exclusão social fortalecida pela vergonha e ataques à auto estima e que a maioria de nós não sabe como proceder.
Eu tenho certeza que se cada uma de nós olhar para seu dia a dia vai ver que a misoginia está aí presente, sendo executará por muitos que se dizem revoltados com as histórias de violência contra a mulher que circulam na mídia e redes, mas que em atitudes que passam muito mais desapercebidas, ferem nossos direitos básicos de ser respeitadas e felizes.
Vc tem uma história pra me contar? Eu tenho algo pra falar que tá aqui agarrado na garganta, fazendo força pra ser vomitado à qualquer momento.