Lourença Correia (Enciclopédia Negra)


Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Lourença Correia (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Lourença Correia 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Lourença Correia 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Lourença Correia era uma escravizada que morava na cidade do Rio de Janeiro e que trabalhava para o sargento-mor Antônio de Figueira e Almeida, de quem também era concubina. Devido a esta ligação, ela era diariamente castigada pela esposa de seu senhor, Isabel, que, ao mesmo tempo, insistia para que o marido promovesse o casamento da escravizada com algum negro da casa.

Em 1739, Lourença uniu-se ao negro Pedro Benguela, cativo do mesmo sargento. No entanto, e ao que tudo indica, continuou amante de seu senhor, e assim não se livrou das perseguições e castigos da esposa deste.

Não aguentando a pressão, Lourença fugiu para São João do Meriti (RJ), onde se casou com um escravizado chamado Amaro. Foi, porém, acusada de bigamia pelo Santo Ofício, e presa pela instituição em 1745.

Defendeu-se junto ao inquisidor com o argumento de que sua primeira união se dera unicamente pela vontade da esposa de seu senhor, mas não teve sucesso e foi condenada ao degredo em Angola, onde morreu.

EN

Lourença Correia was a slave who lived in the city of Rio de Janeiro and who worked for sergeant-major Antônio de Figueira e Almeida, of whom she was also a concubine. Due to this connection, she was punished daily by her master’s wife, Isabel, who, at the same time, insisted that her husband arrange a marriage of the enslaved woman to some black man in the house.

In 1739, Lourença married Pedro Benguela, a captive of the same sergeant. However, and by all appearances, she remained her master’s lover, and thus did not free herself from the persecutions and punishments of his wife.

Not withstanding the pressure, Lourença fled to São João do Meriti (RJ), where she married an enslaved named Amaro. She was, however, accused of bigamy by the Holy Office, and arrested by the institution in 1745.

She defended herself with the inquisitor arguing that her first union had taken place merely  by the will of her lord’s wife, but she was unsuccessful and was sentenced to an exile in Angola, where she died.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Catarina Cassange (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Catarina Cassange 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, óleo e carvão sobre tela, 120 x 90 x 08 cm, 2021. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, oil and charcoal on canvas, 48 x 36 x 03 in, 2021. Image: Edouard Fraipont

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

“Catarina Cassange 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

EN

In 1906 Machado de Assis published the short story “Pai Contra Mãe” published in his book “Relíquias da Casa Velha”. Eighteen years had passed since the end of slavery and he seemed to want to mock the trades and moral dilemmas that society had created and perhaps had not disappeared. No longer runaway slaves and their pursuers, but grieving mothers and fathers. In his literary drama – on a fictional date of 1850 – Cândido das Neves appeared, a very impoverished “white” man who was about to hand over his newborn son to the “Roda dos Expostos”. To obtain funds, he would invest in the capture of fugitive slaves, appealing to newspaper advertisements that abounded in the urban Rio press. She would try to capture Arminda, an enslaved woman born in Brazil, who had fled precisely because she was pregnant. Aside from novels and fiction, not a few enslaved black women chose to flee at the time of pregnancy, trying both to have a more peaceful birth and to prevent their offspring from continuing enslaved or even being separated by lordly sale. Six or more fugitive time could provide many black women with a strategy to free their children from captivity or even trigger their black community at the time of delivery and early in their children’s lives.

Catarina Cassange was one of those. Her strategies could be accompanied by several advertisements between 1838 and 1839. Its owner, Manoel da Rosa, announced in the Diário do Rio de Janeiro that she had escaped by being four months pregnant. Just like the advertisements of the time, his body and behavior would be described. The first announcement of her getaway was followed by at least three more announcements within four months. Even without being able to capture her, information about her whereabouts was obtained. Known as “preta ganha”, a saleswoman used to walk around Valongo beach and Rua do Livramento, where many Africans were concentrated. She could even have been seduced. A month after the first announcement, another notice would be published saying that Catarina – with the help of seducers – would be trying to follow to Minas Gerais. In one more advertisement it was said that she was spending the nights hiding in anchored boats and would already be in an advanced pregnancy. Catarina managed to stay a year as a refugee, only being captured at the end of 1839. She revealed that she had walked through many places in the city and in the Guanabara region. The one who had helped her the most was the freed Aleixo, an African Mina who had the trade of a barber. For a long time he hid Catarina in his house on Rua dos Ferradores. With the support of several bailers and provisional protections, Catarina would manage to have her son – named José – even being taken to the vicinity of the “quilombo de Laranjeiras”.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; SOARES, Carlos Eugênio Libano; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flávio dos Santos.  Cidades Negras: Africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista. São Paulo, Alameda, segunda edição, 2006

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas”, acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas”, acrylic on canvas, 20 x 28 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Verbete

Até praticamente a década de 1850 havia uma “capoeira escrava” com o perfil de africanos – destacadamente os africanos centro-ocidentais – e a população negra livre. No último quartel Oitocentista ele se prolifera com força e rapidez para vários centros urbanos, mobilizando a prática de pessoas livres, considerados brancos e mesmo letrados.  

Mulheres capoeiristas no século XIX? Quase cena surrealista, a edição do Jornal do Comércio de 26 de janeiro de 1878 noticiava que algumas “pretas” tinham sido presas por capoeiras. Na rua do Riachuelo acabaram capturadas três mulheres sob acusação de “peritas na capoeiragem”. Com o adjetivo de “destemidas” foram detidas as mulheres negras livres Isabel Maria da Conceição – conhecida vulgarmente como Nenê – Ana Clara Maria Andrade, juntamente com a escravizada Deolinda, pertencente ao Doutor Bandeira de Gouveia. Na ocasião da abordagem policial estavam todas em “renhida luta”, desafiando pedestres e depois as próprias autoridades. Identificada como prática – luta, ritual e dança – associada às grandes cidades atlânticas e à população negra, entre livres, africanos, escravizados e nascidos no Brasil – a capoeira e os “capoeiras” se proliferaram entre o final do século XVIII e ao longo do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Não se sabe com estas práticas se desenvolveram, repercutiram e alcançaram várias regiões brasileiras, junto aos setores livres e não-negros, como imigrantes no Rio de Janeiro, por exemplo.

No Rio de Janeiro, a cidade estava cheia de escravizados ao ganho, participantes do mercado de rua e também de capoeiras. Fica difícil imaginar cenários onde mulheres quitandeiras podiam ser também capoeiristas. O certo é que a cidade vai armar diariamente vários cenários onde música, alimentação, trabalho e cultura vão juntar experiências, produzindo outras. Na época em que as “peritas” e “destemidas” mulheres capoeiristas foram presas, o Rio de Janeiro já era dividido – territórios com cores de insígnias e distinção – em dois grandes grupos (subdivididos em maltas) de capoeira, alardeados em versos, suspeitos de usos políticos no jogo eleitoral e celebrizados em alguns romances: Nagoas e Guaiamuns. Não muito mais sabemos sobre as mulheres noticiadas em 1878. Fariam parte de algumas das conhecidas maltas: Três Cachos, Cadeira de Senhora, Espada, ou a principal, Flor da Gente? Indagações a espera de mais pesquisas. 

Mulheres negras na capoeira no século XIX sugerem pensar experiências envolvendo cultura e gênero bem mais antigas do que o estágio atual, no qual os capoeiristas e as práticas da capoeira alcançam mais de 200 países, entre homens, jovens, mulheres e crianças. Para a Bahia e a cidade de Salvador – locais onde a capoeira e vários mestres ganharam distinção e prestígio ao longo do século XX – aqui ou acolá há mais evidências de mulheres participando da capoeira como ritmistas, praticantes, aprendizes e desafiantes de lutas e combates.    

EN

Capoeirista women in the 19th century? Almost a surrealist scene, the January 26, 1878 edition of Jornal do Comércio reported that some “black women ” had been arrested for capoeira. In Rua do Riachuelo, three women were captured on charges of “experts in capoeiragem”. With the adjective “fearless”, free black women Isabel Maria da Conceição – commonly known as Nenê – Ana Clara Maria Andrade were arrested, along with the enslaved Deolinda, belonging to Dr. Bandeira de Gouveia. At the time of the police approach, they were all in a “hard fight”, defying pedestrians and then the authorities themselves. Identified as a practice – fight, ritual and dance – associated with large Atlantic cities and the black population, among free, African, enslaved and Brazilian-born people – capoeira and the “capoeiras” proliferated between the end of the 18th century and throughout the nineteenth century, especially in Rio de Janeiro, Salvador and Recife. It is not known how these practices developed, reverberated and reached various Brazilian regions, along with free and non-black sectors, such as immigrants in Rio de Janeiro, for example.

Until almost the 1850s, there was a “slave capoeira” with the profile of Africans – especially the Central-West Africans – and the free black population. In the last 19th century quarter, it proliferated with force and speed to various urban centers, mobilizing the practice of free people, considered white and even literate.

In Rio de Janeiro, the city was full of slaves to gain, street market participants and also capoeiras. It is difficult to imagine scenarios where “quintandeira” women could also be capoeiristas. What is certain is that the city will daily set up various scenarios where music, food, work and culture will join experiences, producing new ones. At the time when the “experts” and “fearless” capoeirista women were arrested, Rio de Janeiro was already divided – territories with insignia colors and distinction – into two large groups (subdivided into “maltas”) of capoeira, trumpeted in verse, suspects of political uses in the electoral game and made famous in some novels: Nagoas and Guaiamuns. We don’t know much more about the women reported in 1878. Would they be part of some of the well-known packs: Três Cachos, Lady’s Chair, Sword, or the main one, Flor da Gente? Inquiries waiting for more research.

Black women in capoeira in the 19th century suggest thinking about experiences involving culture and gender that are much older than the current stage, in which capoeiristas and the practices of capoeira reach over 200 countries, including men, young people, women and children. For Bahia and the city of Salvador – places where capoeira and various masters gained distinction and prestige throughout the 20th century – here or there there is more evidence of women participating in capoeira as rhythmists, practitioners, learners and challengers of fights and combats.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Negragada Instituição. Os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994.

Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva Paiva (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Mathias Henrique e Faustino Da Silva 01”, acrílico sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Mathias Henrique and Faustino Da Silva 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Verbete

Um clube de leitura organizado por e para escravizados? Em plena década da Abolição? Estas seriam as notícias vindas do interior de São Paulo. Os escravizados Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva assinariam uma carta – publicada em vários periódicos de Minas Gerais – na qual solicitavam contribuições, especialmente envio de exemplares para o clube de leitura que tinham.

Em 1882, tal notícia — quase transformada em pilhéria, posto que considerada provavelmente surrealista e ao mesmo tempo verossímil e ameaçadora – era publicada nos periódicos mineiros “O Baependyano” e “O Colombo” que mencionavam a existência de um clube de leitura criado por abolicionistas em Bragança Paulista, não muito distante de Itu. Os signatários da carta — Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva – não eram apenas escravizados letrados, mas respectivamente presidente e secretário desta iniciativa abolicionista. Bem antes já tinham surgido notícias de associações abolicionistas que estavam estabelecendo cursos noturnos de alfabetização para escravizados libertos e seus descendentes. Desde a década de 1870 em várias partes do Brasil foi comum notícias semelhantes, embora não conseguimos ainda medir o alcance destas várias iniciativas e o número de negros e negras envolvidos.

Em Bragança Paulista a coisa tinha começado através de abolicionistas — ligados ao jornal “O Guaripocaba”  — que tinham estabelecido escolas noturnas para pobres livres. Não muito esporadicamente, muitos libertos e filhos destes – além dos próprios escravizados – sempre procuravam por tais espaços e oportunidades. Alguns setores abolicionistas podiam mesmo estar interessados em fomentar leitura e alfabetização para escravizados.  Na organização do Clube Literário de escravos em Bragança havia turmas noturnas que contavam com o apoio de abolicionistas locais e professores voluntários. Daquele jornal – com sua face  positivista e participação maçônica local — setores brancos ajudariam na propaganda e na ampliação da iniciativa. O Clube de Bragança, fundado entre 1881 e 1882, funcionaria numa casa modesta no centro da cidade, chegando a ter cerca de 40 crianças. A novidade ficaria por conta da direção deste club, contando com escravizados à frente.

Quais as expectativas destes escravizados com tal Clube de Leitura? O que isso significava diante num contexto onde se acusavam abolicionistas e monarquistas de manipularem os escravizados nas campanhas abolicionista e republicana? Ensinar os escravizados a ler para que eles participassem dos debates era um dos recados republicanos ao noticiar tais iniciativas. Só que escravizados não precisavam exatamente de letramento para fazer avaliações políticas da atmosfera em que viviam. A carta do Clube de Leitura, enviada para as redações dos jornais e a assinatura de signatários escravos — portanto já alfabetizados suficientemente — sugerem pensar mediações e símbolos nos enfrentamentos e mobilização negra. A carta publicada nos jornais falava – num tom autoral dos próprios escravizados – que eles eram “aviltados por sua abjeta condição” estando “eliminados do seio da humanidade e equiparados aos mais ínfimos animais”, portanto eram a “mancha negra do nome brasileiro”. Embora “sem pátria e sem liberdade” considerados “párias errantes” e “renegados de uma civilização” avaliavam que o letramento era a única solução, qual seja “que a instrução é o único meio possível” sendo isso “o motivo da fundação do Clube Literário dos Escravos em Bragança”. Os escravizados estavam dispostos a investir em “inauditos esforços empregados nas horas de descanso” no presente para fugir das “misérias de uma vida” no futuro. Atualizando o debate que falava de manipulação política e desinteresse dos fazendeiros pelo destino dos ex-escravos garantiam:  a “instrução é um preventivo necessário para os males sociais, que podem resultar da emancipação”. Afirmavam mesmo que era a “educação” que tinha que preparar a “liberdade”.

EN

A reading club organized by and for the enslaved? In the middle of the Abolition decade? These would be the news coming from the countryside of the state of São Paulo. The enslaved Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva would sign a letter – published in several periodicals in Minas Gerais – in which they requested contributions, especially sending copies to their reading club.

In 1882, this news – almost turned into a joke, since it was probably considered surrealist and at the same time credible and threatening – was published in the Minas Gerais periodicals “O Baependiano” and “O Colombo” that mentioned the existence of a reading club created by abolitionists in Bragança Paulista , not far from Itu. The signatories of the letter – Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva – were not only enslaved scholars, but respectively president and secretary of this abolitionist initiative. Long before, there had already been news of abolitionist associations that were establishing night literacy classes for the enslaved, freed and their descendants. Since the 1870s in various parts of Brazil similar news has been common, although we have not yet been able to measure the reach of these various initiatives and the number of black men and women involved.

In Bragança Paulista, the thing had started with abolitionists – linked to the newspaper “O Guaripocaba” – who had established night schools for the free poor. Not very sporadically, many freedmen and their children – in addition to the enslaved themselves – always looked for such spaces and opportunities. Some abolitionist sectors might even be interested in promoting reading and literacy for the enslaved. In the organization of the Slaves’ Literary Club in Bragança, there were night groups that had the support of local abolitionists and volunteer teachers. From that newspaper – with its positivist face and local Masonic participation – white sectors would help in the propaganda and expansion of the initiative. The Club of Bragança, founded between 1881 and 1882, would operate in a modest house in the center of the city, having around 40 children. The novelty would be on account of the direction of this club, with enslaved people in front.

What are the expectations of these enslaved with such a Reading Club? What did this mean in a context where abolitionists and monarchists were accused of manipulating the enslaved in the abolitionist and republican campaigns? Teaching the enslaved to read so that they could participate in the debates was one of the republican messages when reporting such initiatives. But enslaved people didn’t exactly need literacy to make political assessments of the atmosphere in which they lived. The letter from the Reading Club, sent to the newsrooms of the newspapers and the signature of slave signatories – therefore already sufficiently literate – suggest thinking about mediations and symbols in the confrontations and black mobilization. The letter published in the newspapers spoke – in an authorial tone of the enslaved themselves – that they were “degraded by their abject condition” being “eliminated from the bosom of humanity and equated with the tiniest animals”, therefore they were the “black spot of the Brazilian name”. Although “without a homeland and without freedom” considered “wandering outcasts” and “renegades of a civilization” they assessed that literacy was the only solution, namely “that education is the only possible means” being this “the reason for the foundation of the Club Literary of Slaves in Bragança”. The enslaved were willing to invest in “unheard of efforts employed in hours of rest” in the present to escape the “miseries of a lifetime” in the future. Updating the debate that spoke of political manipulation and the lack of interest of farmers in the fate of ex-slaves, they guaranteed: “instruction is a necessary preventive for social ills that can result from emancipation”. They even claimed that it was “education” that had to prepare “freedom”.

Visitante observando obra de Panmela Castro na Exposição enciclopédia Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing the work of Panmela Castro at the Black Encyclopedia Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MACHADO, Maria Helena & GOMES, Flávio dos Santos. “Eles ficaram ’embatucados’: seus escravos sabiam ler. Abolicionistas, senhores e cativos no alvorecer da liberdade. In: Mac CORD, Marcelo; ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; GOMES, Flavio dos Santos. (Org.). Rascunhos Cativos. Educação, Escolas e Ensino no Brasil Escravista. 1ed.Rio de Janeiro: 7Letras, 2017, pp. 253-283.

SILVA, Jacinto da. No Tempo da Escravidão: experiências de senhores e escravos em Bragança Paulista (1871-1888). Dissertação de Mestrado, Departamento de História, PUC-SP, 2009

O Talibã e o conservadorismo nacionalista religioso brasileiro

Eu nasci em 81 e cresci vendo a guerra lá pros lados direito da Europa. Algo distante, de outro lugar, como só existisse na TV.

Quando hoje, 14 de agosto de 2021, eu vejo as notícias sobre o Afeganistão ao mesmo tempo que os vídeos esdrúxulos do recém preso ex deputado Roberto Jeffesson, em epifania, eu percebo que nosso país já está perdido, em guerrilha, com o povo iludido com promessas de prosperidade.

No final do século passado parte do povo Afeganistão foi armado por terceiros, construindo milícias que viviam parte do tráfico de ópio e deveriam lutar contra a ameaça comunista da União Soviética. Mais tarde, poucos mais de 40 estudantes revoltados com o caos, se uniram para acabar com a crise, iniciando com o Talibã. Um movimento de direita, ultraconservador, que pretendia governar a partir de uma mistura de suas crenças étnicas e uma leitura extrema do Alcorão, destruindo obras de arte e queimando livros.

Em seus vídeos Roberto Jeferson parece uma caricatura de filme da época da guerra fria, com convocatória ao armamento da população (como foi com no Afeganistão) para defesa e busca de objetivos próprios (rasgando a constituição); o q nós sabemos q em meu país Rio de Janeiro, só deu na guerra do tráfico nas favelas, e mais tarde, a criação da milícias até levá-las ao poder através do executivo. Isso tudo em nome de Deus.

Ora, ora, esse tipo de análise não é minha área de especialidade. Muito menos quero levantar teorias conspiratórias e disseminar FakeNews. Nem sou de falar sobre isso por aqui. É q não sou burra e sinto o fedor trazido pelo vento de uma história nada nova nesse nosso mundo dito civilizado. Erraram na previsão, afinal, Venezuela nem Cuba, o Brasil mas tá mais pra Afeganistão.

Retrato Retrato de Suka

Retrato Relato de Suka, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2021

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porque. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porque.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio a memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.


Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Retrato Relato de Ana Coutinho

Olá Panmela, boa noite 


Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.



Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.


Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. As vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.


Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

-Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita  e por me ler. Apesar do cansaço,  agora sinto afeto.

Retrato Relato de Ana Coutinho, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021.

Projeto #RetratosRelatos

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Felipa Maria Aranha (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Felipa Maria Aranha (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Felipa Maria Aranha 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 x 02 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 x 01 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Felipa Maria Aranha, foi líder do quilombo de Mola ou Itapocu; localidade disposta nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, um braço do Rio Tocantins, onde agora existe o município de Cametá, no estado do Pará. 

Ela organizou um quilombo na segunda metade do século XVIII, constituído por mais de 300 escravizados e escravizadas fugidos, que se auto sustentaram por muitos anos sem que fossem ameaçados pelas forças legais. Acredita-se que seja proveniente da região da Costa da Mina, no Golfo da Guiné, onde hoje estão localizados os países Gana, Togo, Benin e Nigéria. Deve ter nascido entre os anos de 1720 a 1730, tendo sido capturada em algum momento a partir de 1740, nessa que foi uma das regiões mais importantes para o tráfico de almas empreendido pelos portugueses. Vendida como escravizada, ela foi levada para a localidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará (atual capital do estado do Pará). Em seguida, foi enviada para trabalhar numa plantação de cana-de-açúcar na comunidade de Cametá.

Não suportando os maus tratos, Maria Aranha fugiu junto com outros escravizados no ano de 1750, e na região do baixo Tocantins criara o quilombo do Mola – mais exatamente nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, no território de Cametá –, um espaço por ela liderado, que ostentava alto grau de organização política, social e militar, sendo um dos maiores modelos de resistência à escravidão que a historiografia já encontrou. Tanto que, quando começaram a sofrer com a repressão colonial, foi graças à liderança militar de Maria Aranha, que foram vitoriosos ao expulsar as forças portuguesas e as várias incursões de capitães do mato.

Dona de grande capacidade de articulação política, Maria Aranha estruturou uma entidade composta por cinco quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança e Porto Alegre), a então chamada Confederação do Itapocu. A entidade empreendeu severas derrotas às forças escravagistas, e, diferentemente do exemplo de Palmares, somente cessou sua luta contra as autoridades escravagistas quando Portugal ofereceu perdão político e declarou quilombolas súditos da coroa. 

Maria Aranha morreu em 1780, ainda liderando a Confederação do Itapocu. No início do século XIX, além da liderança de Felipa, nas proximidades do rio Trombetas, perto de Óbidos, ainda na Amazônia, formou-se um quilombo, chefiado pelo cafuzo Atanásio, que chegou a contar com mais de 2000 habitantes que, além de plantar mandioca e tabaco, vendiam produtos colhidos nas florestas da Guiana Holandesa. Tudo leva a crer que estes quilombolas eram respeitados pela vizinhança, sendo suas crianças batizadas nas igrejas vizinhas. Além do mais, em pesquisas recentes feitas na região do Baixo Tocantins e que usam da história oral, há uma desmistificação da suposta subalternidade das mulheres negras.

Hoje se conhecem muitas outras histórias de como, no próprio quilombo do Mola, houve o protagonismo de outras mulheres negras que deixaram muitas histórias para a memória dos seus descendentes. A negra Maria Luiza Piriá ou Piriçá, registrou sua passagem neste quilombo, organizando e liderando a Dança do Bambaê do Rosário e na administração da própria vida dos quilombolas que ali viviam. Juvita foi mais uma dessas mulheres que fizeram a sua própria história e de seus povoados. Ao sair do quilombo do Mola ou Itapocu, ela fundou o Povoado de Tomázia e liderou o mesmo por muitos anos. As negras Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina e outras que tomavam parte do quilombo do Paxibal se embrenharam nas matas e realizavam tarefas em geral consideradas masculinas como: caçar, trabalhar na construção das improvisadas barracas de moradia – os tapiris cobertos e emparedados com palhas, como ubim e sororoca. Também atuavam na plantação de roças, na coleta dos frutos do mato, na pesca, na fabricação de utensílios de barro, de redes de dormir e de roupas feitas com fibras de curuanã e palhas de palmeiras.

Como se pode notar, a resistência e o protagonismo da mulher negra são históricos e tem suas raízes fincadas na tradição e na cultura de suas ancestrais africanas através de artifícios, artimanhas, improvisações e muita astúcia. Elas reinventavam o seu cotidiano e a sua importância no mundo, conseguindo assim, melhores condições para si e para os seus. Casos como o do povoado de Tomásia, que se uniu à já mencionada Confederação do Itapocu e o exemplo do Quilombo de Pixabal, no município de Baião, formado pela liderança das negras Leonor, Virgilina, Francisca e Maximiana descrevem histórias de líderes negras, que não foram apenas esposas ou companheiras. Protagonizaram e lutaram por suas próprias sinas e destinos nesse território da liberdade precária e precarizada. Já o quilombo de Maria Aranha só recebeu reconhecimento legal das suas terras recentemente, em 2013.

EN

Felipa Maria Aranha, was leader of the quilombo of Mola or Itapocu; located at the headwaters of the Igarapé Itapocu, a branch of the Tocantins River, where the city  of Cametá now exists, in the state of Pará.

She organized a quilombo in the second half of the 18th century, made up of more than 300 enslaved fugitives, who supported themselves for many years without being threatened by legal forces. It is believed that she came from the Costa da Mina region in the Gulf of Guinea, where Ghana, Togo, Benin and Nigeria are now located. She must have been born between the years 1720 to 1730, having been captured at any moment  after 1740, in what was one of the most important regions for the trafficking of souls undertaken by the Portuguese. Sold as enslaved, she was taken to the locality of Santa Maria de Belém in Grão Pará (current capital of the state of Pará). She was then sent to work on a sugarcane plantation in the community of Cametá.

Unable to bear the mistreatment, Maria Aranha fled along with other enslaved people in 1750, and in the lower Tocantins region she had created the Mola quilombo – more precisely in the headwaters of the Igarapé Itapocu, in the territory of Cametá –, a space she led , which boasted a high degree of political, social and military organization, being one of the greatest models of resistance to slavery that historiography has ever found. When they began to suffer from colonial repression, it was thanks to the military leadership of Maria Aranha, that they were victorious in expelling the Portuguese forces and in the various incursions of the “capitães do mato”.

Owner of great political articulation capacity, Maria Aranha structured an entity composed of five quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança and Porto Alegre), the so-called Confederation of Itapocu. The entity undertook severe defeats to the slave forces, and, unlike the example of Palmares, only ceased its fight against the slave authorities when Portugal offered political pardon and declared some quilombolas as subjects of the crown.

Maria Aranha died in 1780, still leading the Confederation of Itapocu. In the beginning of the 19th century, in addition to Felipa’s leadership, in the vicinity of the Trombetas River, near Óbidos, still in the Amazon, a quilombo was formed, headed by the “cafuzo” Atanásio, which had more than 2000 inhabitants who, in addition to planting cassava and tobacco, they sold products harvested in the forests of Dutch Guiana. All suggest that these quilombolas were respected by the neighborhood, having their children being baptized in neighboring churches. Furthermore, in recent surveys carried out in the Lower Tocantins region that use oral history, there is a demystification of the supposed subordination of black women.

Today, many other stories are known of how, in the Mola quilombo itself, there was the prominence of other black women who left many stories for the memory of their descendants. The black woman Maria Luiza Piriá or Piriçá, recorded her passage in this quilombo, organizing and leading the Dance of Bambaê do Rosário and managing the lives of the quilombolas who lived there. Juvita was one of those women who made their own history and that of their villages. Upon leaving the Mola or Itapocu quilombo, she founded the Povoado de Tomázia and led it for many years. The black women Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina and others who took part of the Paxibal quilombo, penetrated into the woods and performed tasks generally considered masculine, such as hunting, working in the construction of improvised housing tents – the tapiris covered and walled with straw , such as ubim and sororoca. They also worked in the planting of fields, gathering wild fruits, fishing, making clay utensils, sleeping hammocks and clothing made from curuanã fibers and palm straw.

As can be seen, the resistance and protagonism of black women are historical and have their roots in the tradition and culture of their African ancestors through artifices, tricks, improvisations and a lot of cunning. They reinvented their daily lives and their importance in the world, thus achieving better conditions for themselves and their similar. Cases such as the town of Tomásia, which joined the already mentioned Confederation of Itapocu, and the example of Quilombo de Pixabal, in the city of Baião, formed by the leadership of black women Leonor, Virgilina, Francisca and Maximiana describe stories of black leaders who weren’t just wives or companions. They played a leading role and fought for their own fates and destinies in this territory of precarious freedom. The Maria Aranha quilombo only received legal recognition for its land recently, in 2013.

Felipa Maria Aranha e outras obras de Panmela Castro estão na exposição “Enciclopédia Negra”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a convite dos curadores Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz e Jaime Lauriano.
Felipa Maria Aranha and other works by Panmela Castro are in the exhibition “Enciclopédia Negra”, at the Pinacoteca do Estado de São Paulo, at the invitation of curators Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz and Jaime Lauriano.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: EdUSP, 2004. p. 47

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «Escravidão, Fuga e a Memória de quilombos na Região do Tocantins». Revistas Eletrônicas da PUC-SP. Consultado em 25 de março de 2016

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «História, Memória e Poder Feminino em Povoados Amazônicos» (PDF). Anais Eletrônicos – Encontro Nacional de História Oral – 2012. Consultado em 25 de março de 2016

#RetratoRelato 045

Achei o máximo essa sua iniciativa de saber a história de pessoas comuns.


Tenho 63 anos e trabalho é sempre né senti igual a qualquer adulto: a terceira idade para mim começa aos 80 anos. Meu marido e filhos(3) me colocaram em casa, trabalho por opção desde os 17 anos. Sempre solve que ser dona de casa não era para mim.


Estou com a sensação de que é domingo e amanhã é segunda feira. Já tem quase um mês Dei uma geral na casa: arrumei armários, dei uma geral nas plantas, na cozinha estou fazendo receitas diferentes
Gostei muito da Rita Lobo principalmente nos vídeos do “o que tem na geladeira “.


As netas só por vídeo ( uma tristeza)
Não poder conviver com elas entristece.
Adoro vitrines e mercados e não devo ir e não vou
Sinto me um siri na lata, mas vou sobreviver!
Tenho fé em Deus!
Saúde para você e que Deus ilumine seu caminho,


Isabel deSá


Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 050

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso.Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu to era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.


Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 049

Meu maior desafio da quarentena, foi saber lidar com a inconsistência das emoções. Aulas EaD, eu tinha que me adaptar a esse desafio. Meu celular seria a minha única estrutura. Pesquisas, trabalhos, provas, aulas ao vivo, fóruns. Bateu um pânico. Na segunda semana, a internet caindo durante as aulas,  eu não conseguia carregar os meus trabalhos no portal da faculdade. Daí veios as incertezas: “Onde vou arrumar dinheiro pra pagar as minhas contas?”. 

As notícias a todos momento sobre mortes pelo mundo. Surtei, tive crises de ansiedade. Medos, insegurança. Respirei fundo! Muita meditação. Eu tinha que fazer o mínimo nessa loucura, me ofereci pra ajudar os vizinhos que estão em situação de vulnerabilidade. Um dia na semana pelo menos pra ir ao supermercado e farmácia e etc… Quebrei a quarentena por um bom motivo. Ganhei muita gratidão, e alívio por saber que aquelas pessoas estavam seguras.

Entramos em maio, eu tomei a decisão de trancar a minha matrícula, questão de sobrevivência, com o coração partido. Mas na mesma semana eu consegui a vaga na faculdade que eu tanto queria, vou permanecer com a minha bolsa, e terminar meu curso na faculdade na faculdade que eu desejava. Nunca tive tanto tempo pra aprender muito, em tão pouco tempo. Acredito que tudo isso veio para nos ensinar. Solidariedade. Empatia. Resiliência. Amor ao próximo.

O valor do abraço, de estar perto das pessoas que a gente ama. O valor da liberdade.

#RetratosRelatos 049, Spray e óleo a base d’agua sobre tela, 70 x 50 cm, 2020.

Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 047

Grito

A cada noticia ruim, um minuto de silêncio. Seria possível voltar a falar diante de todos os acontecimentos? 
A humanidade muda, castigada pela natureza somente a enxergar o fim de seus dias. Nada disso seria suficiente para mudar a maldade de tanta gente e assim a humanidade segue em romaria. 
Surdos para ouvir gritos inocentes. Afinal, não é amigo, conhecido, parente… Cegos para ver tanta violência e preconceito. Pra que defender todos, se não tenho nenhum direito?! 
Por cada injustiça, um minuto de silêncio seria até ironia.Num minuto o silêncio enlouquecido clamaria pelo grito do fim da covardia. 
Por que não gritar? Silenciar não me trás alento. É preciso gritar a todo momento que almas inocentes são vitimas de fuzilamento. 
Não nos peça um minuto de silêncio, pois respeitar a dor da perda é fazer justiça. É fazer com que um grito se escute e incentive outro gritopara que ninguém, perdido no silêncio, se esqueça.
Quando nos pedirem um minuto de silencio, é o momento de erguer a vozde cantar nossos cânticos mais antigos, nos recônditos da alma clamar a nossos índios, bater os pés no chão, gritar aos inimigos. 
Eles nos pedem um minuto de silêncio, nós pedimos um minuto de justiça. Enquanto houver silêncio sobre cada bala perdida, um tiro se escuta arrancando outra vida. 
Não farei nenhum minuto de silêncio, pois em luto direi nomes daqueles que em silêncio foram esquecidos, torturados, assassinados, oprimidos, humilhados, massacrados, sofrendo calado em exílio. 
Estamos cansados de calar. Enquanto o silêncio, para eles é respeitar, minha alma atordoada grita. Não é possível que diante de tanta monstruosidade, as pessoas encontram no silêncio o único meio de fazer justiça. 



Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 017

Oi Pamela! Primeiro quero dizer que adoro você, seu trabalho, sua história. Você é uma mulher da porra! Meu nome é XXXX, tenho 55anos, um filho de 28anos e uma filha de 20. Sempre fui a ovelha estragada da família! Tenho 2 irmãs mais novas e minha mãe sempre me hostilizou ao ponto de eu pegar uma mochila É viajar de carona da Bahia a Porto Alegre. Entrei pro Hare Krishna, porque curtia yoga, natureza e lá ninguém enchia o saco pra arrumar um namorado, eu sempre fui muito tímida! Mas percebi que entrar de cabeça em religiões é furada, rola muita hipocrisia e grana. Entrei com 17 anos e sai com 23. Fui trabalhar na sorveteria com meu pai, que sempre foi um paizão.  Conheci meu primeiro marido, muitas brigas porque ele era super ciumento, eu não podia virar o rosto no carro que ele fazia drama. Mas eu estava cansada de brigar com minha mãe e irmãs e fui morar com a família dele. Me tratavam bem, mas eu não podia me posicionar politicamente, sempre fui esquerdista e meu sogro era muito ignorante, tudo pobre de direita metido à besta.

Eu trabalhava como auxiliar de escritório, meu marido de repositor no Carrefour e fim de semana a gente entregava pizza. Ah! Nasci, cresci no Capão Redondo!! Bairro mais sinistro de SP! A gente financiou um apartamento no INOCOOP de Campo Limpo e casamos no civil.  Eu queria muito ser mãe e engravidei logo. Pronto! O homem mudou, me chamava de vaca,  dizia que parecia um balão, me empurrava, teve uma vez que eu estava sentada no banco do carona é ele ficou jogando o carro contra um ônibus falando que se quisesse matava eu e minha barriga. Meu filho nasceu e ele nem ligou,  ia a festas, me deixava sózinha, tive que usar fraldas de pano,  ele não comprava nada pro bebê.  Quando o bebê ficava doente, ele fechava a porta do quarto e gritava pra não fazer barulho. Era um pai horrível! Teve algumas separações, eu acreditava, ele melhorava, mas o inferno voltava. Nesse tempo eu estava desempregada é ele também perdeu o emprego. Eu comecei a deixar meu filho com a minha mãe e ajudava ele vendendo frutas e legumes na rua. Ele alugou um ponto comercial e começou a montar uma pequena agropecuária. Tirei carta de motorista e a situação começou a melhorar. Óbvio que eu não queria engravidar novamente, ele era totalmente ausente como pai. Quando meu filho estava com 7 anos a gente vivia de aparência. Eu não o amava, mas se eu falasse em separação ele dizia que eu ia passar fome, etc. Eu cedia. Acabou que engravidei sem querer. Foi horrível,  eu só chorava e ele ficou feliz num dia E no outro voltou dizendo que ia embora e que eu me virasse! O fdp tinha uma amante  e ela, ao saber da minha gravidez, encostou ele na parede e ele ficou com ela. Tive uma gravidez terrível,  meus vizinhos me davam cesta básica e os pais dele traziam o gás e pagavam as contas.

Na época se vendia telefone, eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor horrível Meu pai, que estava morando no interior de SP, me convidou pra morar com ele e minha mãe. Na época se vendia linha telefônica,  eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor dos inferno.  Ele nem foi ver a neném.  Coloquei o nome de Vitória e meu instinto maternal passou por cima de toda rejeição e me apaixonei por aquela menina. No interior, meu pai me ajudou muito,  me deixava usar o carro é pediu pra que eu voltasse a estudar. O pai dos meus filhos nunca pagou pensão. Como era comerciante, tirou tudo que estava no nome dele, fez declaração de pobreza, chegou a se vestir de mendigo numas das várias audiências. Fiz um supletivo. Entrei na faculdade, fiz pedagogia, pra pagar a faculdade consegui estágio num projeto que ficava com crianças carentes ou de risco e consegui terminar a faculdade. Meu pai foi o pai da minha filha. Cuidava, tinha um amor maior que tudo, meu filho guardou os traumas,  até hoje ele tem baixa autoestima, mas minha filha nunca sentiu falta do que não teve.  Fiquei 1 anos desempregada e minha mãe com cara feia. Aproveitei pra fazer todos concursos e estudava muito. Passei em 2 concursos e comecei a lecionar numa cidade perto do meu pai. Consegui juntar um $ e comprei uma casinha,minha casa, minha vida, comecei a namorar só depois.

Depois de uns 4 anos lecionando comecei com sintomas de depressão. Só chorava, ñ comia, tinha taquicardia e ficava com as mãos pingando suor frio quando entrava numa sala de aula. Passei nos psiquiatras do SUS, fluoxetina, diazepan, sertralina. Mas eu comecei a beber, tinha que beber o tempo todo. Brigava muito com o namorado e meus filhos crescendo e eu não conseguia lidar. Meu filho passou em direito na UEM, em Maringá e eu não tinha como ajudar muito financeiramente e ele não trabalhava ao mesmo tempo minha filha com 12 anos já transava e usava maconha. Eu não conseguia me impor, sempre fui boazinha, mas eu não sabia lidar com aquela realidade. Acabei casando com o namorado, mas bebia o tempo todo, meu segundo marido me levou num psiquiatra fudido,caro pra cacete, mas ele me deu o diagnóstico de Transtorno Bipolar Esquisoafetivo e como eu não conseguia parar de beber como uma dependente química fui internada num hospício.  Nossa! Chamava IPT Instituto de Psiquiatria de Tupã,  era um inferno, eu vi gente esfregando cocô na cara, era tudo fedido, a noite só se ouvia gritos, fiquei 2 dias num quarto com mulheres menstruadas, mijadas e cagadas amarradas na cama. Eu chorava muito e pedia pra falar com meu marido,  mas me disseram que visita só depois de um mês. As roupas eram marcadas e tinha uns doidos que dava medo. Rodei a baiana, falei que quando saísse ia denunciar, me seguravam e aplicavam injeção, mas nem fazia efeito, mesmo grogue eu ficava gritando até eles me mudarem de pavilhão. Fiquei numa ala menos fedida, num quarto com mais 2 e era menos monstruoso. Me acalme e acho que todas injeções fizeram efeito e eu sei que dormi 3 noites e 2 dias seguidos. Não tinha tomado banho ainda, acordei, tomei banho e esperei a hora de comer. Chamaram meu marido e deixaram eu me encontrar com ele por 4 minutos! Só deu tempo de eu pular no pescoço dele e implorar pra ele me tirar dali. Ele chorou e disse pra mim ficar calma. Ele procurou a irmã rica dele e pagou pra me transferir na ala particular.  Fiquei 3 meses.

Na ala particular era tudo melhor, tinha um quarto e banheiro só pra mim, enfermeira grudada, aulas de artesanato e não tinha louco de pedra, algumas figuras dependentes de drogas e uns que a família internada por serem idosos ou inválidos.  Sai da clínica, mas não parei de beber, meu marido não aguentou e foi embora. Descobri que meu filho ficava fumando maconha na República tinha abandonado a faculdade. Minha filha continuou a vida louca dela é eu bebia e comecei a roubar vodka nos mercados e estava sempre de licença,  com a internação os médicos conseguiram me readaptar e eu não precisava mais dar aula. Trabalhei na biblioteca, transava com quem queria. Fui pega roubando e rolou um processo. Comecei a ter surtos psicóticos, ouvia vozes, tinha medo de morrer,  achava que a polícia vinha me prender toda hora,tinha medo de tudo, pedia pra minha filha ñ me abandonar, ela tina que me dar banho e eu me arranjava, uma hora vi minha filha chorando dizendo que não sabia mais o que fazer comigo. Tentei suicídio,  tomei 3 cartelas de lítio, minha filha e o namorado dela me levaram no pronto Socorro e fizeram uma lavagem. A cidade é pequena,  eu tinha vergonha de sair na rua, ficava andando de um lado pra outro falando sózinha. Até que não aguentei e liguei pro meu marido pedindo socorro.

Ele estava no MG e pediu 3 dias pra esperar. Quando ele veio, me levou num psiquiatra, mudou meus remédios e eu pedi pra ele ficar .Ele está comigo até hoje, parei de beber, fui absolvida, nunca mais tive um surto tão forte, às vezes tenho umas recaídas, mas não deixo de tomar meus remédios e ir no médico.  Aprendi que a mente controla tudo. Cuido da minha alimentação, me tornei vegana, chorei muito quando o Bolsonaro foi eleito, escutava aqueles rojões e nunca vou entender como esse povo pode festejar a eleição de um fascista. Briguei com muita gente por causa disso. Estou pra me mudar de cidade com meu marido, que esteve comigo nos piores momentos e não desistiu. Meus filhos moram na capital, meu filho se formou em História na USP e minha filha se juntou com um bolsominio. Minha mãe diz pra mim que ñ me quer na casa dela e minhas irmãs não tenho contato. Tô num momento de mudança! Vou vender tudo ou doar e meu sonho é conseguir comprar um terreno na praia e construir uma casa de madeira,  ter uma horta, aprender surfar e conhecer gente legal. É isso!!!! Ufa!!!!!


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Esta obra faz parte da Exposição #RetratosRelatos que abriu em 07 de março de 2020 no Museu da República no Rio de Janeiro.

#RetratosRelatos 35 – Quarentena 1

Durante a quarentena recebi pelo email panmelacastro@yahoo.com relatos de mulheres enviados junto à uma selfie e nos quais retratei. Este trabalho em específico foi comissionado pelo Instituto Moreira Sales para o programa “IMS Convida”. A coleção das 3 obras produzidas para o programa pode ser conferida no site do instituto.

@panmelacastro

Sou XXXX XXXX, com som de i mesmo, estou com 27 anos e essa quarentena é o ápice do desafio que está sendo sobreviver diante do caos.

Recebi um diagnóstico de HIV no último pré natal da gestação de XXXX, meu gavião em tupi, há dois anos e três meses.
Estou só, experenciando a vida desde meus 12 anos e a família do pai dele não soube lidar muito bem com a notícia.
O diagnóstico é mais mental e social do que físico. De um dia para o outro, marquei uma cesárea eletiva e descobri que não poderia amamentar e teria que tomar dois medicamentos para sempre. Foi uma quebra de toda utopia que acreditava viver. O XXXX, pai de XXXX foi super grosseiro antes de eu entrar no pré natal e quando saí já sabia que não teria nenhum apoio emocional.
Entre depressão pós parto, tristeza, medo e solidão, vivi o maior dos amores que é ser mãe e a esperança de finalmente construir minha base e não ser mais só.
Então ninguém soube lidar com.nada, o machismo impregnou nossa relação, as tradições engessadas me sufocaram e a família dele ameaçava tirar meu filho de mim entre ameaças, humilhações e deboches. Ouvi que era só uma vagabunda que ele engravidou na rua, que ninguém iria querer uma magrela aidética, que se nem minha mãe me quis, quem iria querer? Ouvi isso e mais do homem que escolhi passar a vida, o homem que compartilhei o maior amor que o universo me dara.
Aconteceu tanta coisa, e eu cansada, magoada… até remédio de hiv ja jogaram na calçada para eu pegar. Ele procurava prostitutas, me agredia e depois fingia que nada havia acontecido. Já me empurrou e gritou logo em seguida para que eu parasse de me jogar. E eu tentava a todo custo me libertar desse padrão de achar que isso iria mudar, que ele estava doente, que não era maldoso assim.
Aluguei minha casa para morar com meu filho e segui.meus princípios até o fim. Acreditei que se fizesse minha parte e seguisse os ensinamentos do mestre Cristo, que ele iria se invadir por amor e me perdoar por qualquer que seja o motivo que me odeie.
E estou aqui, escrevendo esse e-mail, sem ver meu filho há 5 meses, perdi minha casa, perdi minha alegria, trabalho, perdi minha luz e estou de favor no quarto de um moço muito gentil que encontrei na vida. De favor, lutando para comer e me manter viva e superar essa fase. Abraçar meu filho e compartilhar essa vida com ele.
Quando conto isso, só recebo perguntas como o que fiz, que tipo de mãe perde o filho, mas afirmo que nossos direitos não são reconhecidos e estamos muito longe de uma igualdade justa. Existem pessoas que manipulam tudo e todos até obterem o resultado esperado e é quase impossível provar que elas fizeram o que fizeram.
Fui processada pelo ministério público por intransigência ao questionar meus direitos na creche da prefeitura e depois notei que tudo o que foi feito, foi lentamente estruturado por ele.
Demorei para aceitar a maldade da humanidade e demorei a aceitar que valemos o que temos, o que ofertamos materialmente importa e status ainda manda nesse sistema.
Estou com 48 kg, mas não desisto e sou extremamente grata de ter oportunidade de transformar toda essa arte em alegria, seja por momentos ou uma poesia ou quadro. A arte resgata minha alma toda vez que ela tenta fugir e sou.muito grata por ser quem sou.
Retomando à quarentena, não sei se saio entregando coisas de bicicleta, se corro riscos por ser soropositiva e nao estar me alimentando direito, se estou mesmo acolhida, se verei meu filho e se vou construir uma família um dia. Estou cansada de estar só sempre sendo atacada e julgada. Cansei. Espero que tudo isso valha de algo um dia. Sentir a dor de estar sem.meu filho e o desamor é muito, mas eu aguento.
Sei que a deusa vai permitir que eu veja e esteja por perto do meu passarinho e sei que ainda vou ajudar muitas mulheres.
Poderia escrever muito mais, mas sou grata por esse espaço de fala e tenho fé de que todas iremos retomar nosso lugar.
Assino Aveeva nos meus trabalhos para lembrar do sagrado e profano femininos e toda magia que nos foi negada.

Poema para o príncipe

Eu quero um príncipe que seja muito mais do que um pensamento morno sobre coisas as quais eu já sei.

Eu quero um príncipe desobediente que ponha em risco a senhora que sou em um tipo de surto desorganizado de minhas pequenas coisinhas.

Eu quero um príncipe que me deixe descobrir que a vida nunca foi o que me disseram viver.

Eu quero um príncipe que me dirija à um mundo de epifania e momentos de catarse que definitivamente mudem quem eu sou.

Um príncipe que mude meu juízo de valor.

O meu príncipe é amarelo como um sol que me faz girar ao redor e me sufoca as palavras, só restando a única que sei dizer: tão lindo. Sensacional.

Eis um poema triste de amor.

Marielle

Quando eu fui perseguida pelo o meu ex companheiro, o meu caso era difícil; e todos a quem procurei ajuda, mesmo órgãos especializados em violência contra a mulher, apesar de entenderem que eu vivia uma situação de violência, diziam não poder me ajudar. Marielle foi quem, naquele momento, me ouviu e me guiou no caminho para buscar meus direitos. Hoje o processo segue e todas as vezes que alguém me falar que não vai dar em nada, eu vou lembrar de Marielle segurando a minha mão.

Esta obra é uma singela homenagem à perda que é não ter Mari nesta jornada que é ser mulher em um mundo machista, misógino, patriarcal. Um choro de sangue meu e de muitas outras mulheres que perderam alguém que lutava por elas. #mariellepresente