Exposição Enciclopédia Negra

Parte do projeto Enciclopédia Negra, com livro publicado pela editora Companhia das Letras e organizado por Lilia M. Schwarcz, Flávio Gomes e Jaime Lauriano, a exposição inaugurada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo destaca personalidades negras que não foram representadas pela história hegemônica do Brasil.

Black Encyclopedia Exhibition

Part of the Enciclopédia Negra project, with a book published by Companhia das Letras and organized by Lilia M. Schwarcz, Flávio Gomes and Jaime Lauriano, the exhibition inaugurated by the Pinacoteca de São Paulo highlights black personalities who were not represented by the hegemonic history of Brazil.


A Pinacoteca do Estado de São Paulo, uma das mais reconhecidas instituições de arte do Brasil, inaugurou no dia 1º de maio a exposição Enciclopédia Negra, derivada do livro homônimo organizado pelos pesquisadores Lilia M. Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes e pelo artista Jaime Lauriano. A curadoria da mostra foi organizada pela equipe do projeto Enciclopédia Negra e pela equipe da Pinacoteca de São Paulo.

O livro apresenta a biografia de mais de 500 personalidades negras que foram apagadas da história do Brasil, divididas em centenas de verbetes individuais e coletivos. A mostra então convida 36 artistas da cena contemporânea para dar cor, corpo e voz a essas biografias apagadas pela história.

A artista Panmela Castro (@panmelacastro), fundadora da Rede Nami (@redenami) e representada atualmente pela Galeria Luisa Strina, participa da exposição com 5 obras: Catarina Cassange (presente no livro), Lourença Correia, Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva, Felipa Maria Aranha e Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas.

“Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas”, acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca.
“Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas”, acrylic on canvas, 20 x 28 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca.

As histórias contadas através das pinturas de Panmela retratam escravizados que criaram um clube de leitura no pleno fervor da abolição, sobre mulheres capoeiristas, líderes quilombolas, revolucionárias e desafiantes das imposições binárias de gênero. Através desses questionamentos, a artista identifica nessas biografias vivências que fazem parte não só de sua trajetória, mas também de tantas outras que desafiam o racismo e o machismo cotidianamente no Brasil.

A exposição permanece na Pinacoteca até o dia 8 de novembro, com ingressos gratuitos, e após esse período todas as obras passam a integrar o acervo permanente da instituição. O livro Enciclopédia Negra pode ser encontrado no site da editora Companhia das Letras, que entrega para todo o Brasil.

“Mathias Henrique da Silva e Faustino Da Silva”, acrílico sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Mathias Henrique and Faustino Da Silva Paiva”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca
“Catarina Cassange”, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Catarina Cassange”, oil on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca

EN

The Pinacoteca de São Paulo, one of the most recognized art institutions in Brazil, inaugurated on May 1st the exhibition Enciclopédia Negra, derived from the homonymous book organized by Lilia M. Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes and Jaime Lauriano. The exhibition’s curatorship was organized by the Enciclopédia Negra project team and by the Pinacoteca de São Paulo team.

The book presents the biography of more than 500 black personalities that were erased from the history of Brazil, divided into hundreds of individual and collective entries. The exhibition then invites 36 artists from the brazilian contemporary art scene to give color, body and voice to these forgotten biographies.

The artist Panmela Castro (@panmelacastro), founder of Rede Nami (@redenami) and currently represented by Galeria Luisa Strina, participates in the exhibition with 5 works: Catarina Cassange (present in the book), Lourença Correia, Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva Paiva, Felipa Maria Aranha and Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas.

“Lourença Correia”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Lourença Correia”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca
“Felipa Maria Aranha”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Felipa Maria Aranha”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca

The stories told through Panmela’s paintings portray enslaved people who created a reading club in the full fervor of abolition, about capoeirista women, quilombola leaders, revolutionaries and challengers of the binary impositions of gender. Through these questions, the artist identifies in these biographies experiences that are part not only of her path, but also of many others that challenge racism and misogyny on a daily basis in Brazil.

The exhibition remains at the Pinacoteca until the 8th of November, with free tickets, and after this period all the works will be part of the permanent collection of the institution. The book Enciclopédia Negra can be found on the website of the Companhia das Letras publishing house, which it delivers throughout Brazil.

Imagem de Capa: Livraria Baleia | Cover image: Livraria Baleia

Exposição A Máquina Lírica

Galeria Luísa Strina, curadoria de Pollyana Quintella, setembro de 2021.

Uma mulher nua de longos cabelos cheios que caminhava na madrugada como uma bruxa logo se tornou lenda folclórica no vilarejo de Olhos D´água em Goiás.

Este conto não se trata de um delírio coletivo de alguns poucos privilegiados que venham a ter flagrado a cena, ou de outros que tenham repetido vê-la para pertencerem à lenda. O delírio aqui é auto-referente e dá nome às quatro fotografias exibidas na exposição “ A Máquina Lírica” de curadoria de Pollyana Quintella apresentada na Galeria Luisa Strina a partir deste setembro de 2021.

Após um ano de isolamento social, eu, que vivo só, decido viver na casa das pessoas e cria a Série Residência. Antes de ir morar no pequeno vilarejo na casa de Lu, mãe de Jandira (ativista social, amiga de longa data, e uma das fundadoras da Rede NAMI)  faço quarentena no Núcleo de Artes do Centro Oeste (NACO).

Sozinha no espaço da residência, produzo uma nova série de Penumbras em um dia de ritual de Lua Cheia. Desdobramento de antigas séries como “Opressão (2009)”, a série Penumbra toma corpo na solitária quarentena de 2020 no ateliê, em experimentações de fotografias de longa exposição.

Penumbra é mais um dos conjuntos de obras que tratam sobre a afetividade da mulher negra, a partir de minhas próprias vivências com o racismo e machismo, sexualização do corpo negro, estigmas, e a realidade de dados do IBGE que mostram que tal prática estrutural lança mulheres negras na pobreza, liderando suas famílias, sem companheiros de longo prazo para ajudar a sustentar a casa (Mulher Negra: Afetividade e Solidão – Pacheco, Ana Cláudia Lemos – 2013).

Apesar de aparentar muitos privilégios hoje, sou de uma geração que teve que abdicar de construir uma família para construir uma carreira e ter o mínimo de qualidade de vida. Afinal, como uma mulher afastada do padrão europeu “para casar”, dificilmente manteria um companheiro para me ajudar com os filhos, e isso me impediria de seguir em minha profissão, me enterrando de vez na falta de privilégios e pobreza.

Ser uma mulher aos quarentas vivendo sozinha isolada durante uma pandemia, apesar dos confortos de poder me manter sem mais dificuldades, não é um privilégio pleno de vida. Assim como ser tachada de Bruxa em uma cidadezinha do interior, reafirma a urgência da necessidade de desestigmatizar corpos como meu. Penumbra é sobre isso, desconstruir seu olhar sexualizado adiante de uma mulher que sofre com a dor de se estar só, entre tantos outros pontos problemáticos que esse conjunto de fotografias escolhidas por Polly tem a pontuar.

A curadora Pollyana Quintella já fazia parte do conjunto de pessoas com que eu me identificava nos pontos de interesses a cerca da arte e visão de sociedade, além de uma ligação intuitiva sobre sua presença como pessoa no mundo. Alinhadas em todos os amplos sentidos que a vida pode ter para nós, foi fácil logo de primeira encontrarmos no conjunto “Culto Auto-Referente” a confluência entre nossos interesses de pesquisa.

Polly pensa para a exposição, a nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção (Leia o texto de Poli sobre a exposição). Tipo de deliro que venho atravessado em minhas residências nas casas das pessoas, tentando identificar objetos e situações como sinais e marcos, mas q por fim não passam de delírios de referências, sendo descritos na Wilkpédia como um tipo de fenômeno de um indivíduo que está experimentando coincidências e acreditando que elas têm um forte significado pessoal, uma noção de que tudo o que se percebe no mundo relaciona-se com o próprio destino.

É neste ponto que volto ao debate sobre afetividade e a busca a todo custo por pertencer a algo, e ser amada; onde a rejeição e solidão, me confunde em não conseguir distinguir se meus prejuízos são fruto do preconceito que me cerceia, ou meras situações pessoais.

Esta é apenas uma introdução para muitos desdobramentos de minha produção, que apesar de pessoal, se torna política ao ter milhares de mulheres se identificando e se questionando sobre essas as mesmas sensações e percepções.

A exposição “ A Maquila Lírica” pode ser conferida até o final deste mês que abre a 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro mas eu canto, e conta com os artistas Anis Yaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli.