#RetratosRelatos 047

Grito

A cada noticia ruim, um minuto de silêncio. Seria possível voltar a falar diante de todos os acontecimentos? 
A humanidade muda, castigada pela natureza somente a enxergar o fim de seus dias. Nada disso seria suficiente para mudar a maldade de tanta gente e assim a humanidade segue em romaria. 
Surdos para ouvir gritos inocentes. Afinal, não é amigo, conhecido, parente… Cegos para ver tanta violência e preconceito. Pra que defender todos, se não tenho nenhum direito?! 
Por cada injustiça, um minuto de silêncio seria até ironia.Num minuto o silêncio enlouquecido clamaria pelo grito do fim da covardia. 
Por que não gritar? Silenciar não me trás alento. É preciso gritar a todo momento que almas inocentes são vitimas de fuzilamento. 
Não nos peça um minuto de silêncio, pois respeitar a dor da perda é fazer justiça. É fazer com que um grito se escute e incentive outro gritopara que ninguém, perdido no silêncio, se esqueça.
Quando nos pedirem um minuto de silencio, é o momento de erguer a vozde cantar nossos cânticos mais antigos, nos recônditos da alma clamar a nossos índios, bater os pés no chão, gritar aos inimigos. 
Eles nos pedem um minuto de silêncio, nós pedimos um minuto de justiça. Enquanto houver silêncio sobre cada bala perdida, um tiro se escuta arrancando outra vida. 
Não farei nenhum minuto de silêncio, pois em luto direi nomes daqueles que em silêncio foram esquecidos, torturados, assassinados, oprimidos, humilhados, massacrados, sofrendo calado em exílio. 
Estamos cansados de calar. Enquanto o silêncio, para eles é respeitar, minha alma atordoada grita. Não é possível que diante de tanta monstruosidade, as pessoas encontram no silêncio o único meio de fazer justiça. 



Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

#RetratosRelatos 35 – Quarentena 1

Durante a quarentena recebi pelo email panmelacastro@yahoo.com relatos de mulheres enviados junto à uma selfie e nos quais retratei. Este trabalho em específico foi comissionado pelo Instituto Moreira Sales para o programa “IMS Convida”. A coleção das 3 obras produzidas para o programa pode ser conferida no site do instituto.

@panmelacastro

Sou XXXX XXXX, com som de i mesmo, estou com 27 anos e essa quarentena é o ápice do desafio que está sendo sobreviver diante do caos.

Recebi um diagnóstico de HIV no último pré natal da gestação de XXXX, meu gavião em tupi, há dois anos e três meses.
Estou só, experenciando a vida desde meus 12 anos e a família do pai dele não soube lidar muito bem com a notícia.
O diagnóstico é mais mental e social do que físico. De um dia para o outro, marquei uma cesárea eletiva e descobri que não poderia amamentar e teria que tomar dois medicamentos para sempre. Foi uma quebra de toda utopia que acreditava viver. O XXXX, pai de XXXX foi super grosseiro antes de eu entrar no pré natal e quando saí já sabia que não teria nenhum apoio emocional.
Entre depressão pós parto, tristeza, medo e solidão, vivi o maior dos amores que é ser mãe e a esperança de finalmente construir minha base e não ser mais só.
Então ninguém soube lidar com.nada, o machismo impregnou nossa relação, as tradições engessadas me sufocaram e a família dele ameaçava tirar meu filho de mim entre ameaças, humilhações e deboches. Ouvi que era só uma vagabunda que ele engravidou na rua, que ninguém iria querer uma magrela aidética, que se nem minha mãe me quis, quem iria querer? Ouvi isso e mais do homem que escolhi passar a vida, o homem que compartilhei o maior amor que o universo me dara.
Aconteceu tanta coisa, e eu cansada, magoada… até remédio de hiv ja jogaram na calçada para eu pegar. Ele procurava prostitutas, me agredia e depois fingia que nada havia acontecido. Já me empurrou e gritou logo em seguida para que eu parasse de me jogar. E eu tentava a todo custo me libertar desse padrão de achar que isso iria mudar, que ele estava doente, que não era maldoso assim.
Aluguei minha casa para morar com meu filho e segui.meus princípios até o fim. Acreditei que se fizesse minha parte e seguisse os ensinamentos do mestre Cristo, que ele iria se invadir por amor e me perdoar por qualquer que seja o motivo que me odeie.
E estou aqui, escrevendo esse e-mail, sem ver meu filho há 5 meses, perdi minha casa, perdi minha alegria, trabalho, perdi minha luz e estou de favor no quarto de um moço muito gentil que encontrei na vida. De favor, lutando para comer e me manter viva e superar essa fase. Abraçar meu filho e compartilhar essa vida com ele.
Quando conto isso, só recebo perguntas como o que fiz, que tipo de mãe perde o filho, mas afirmo que nossos direitos não são reconhecidos e estamos muito longe de uma igualdade justa. Existem pessoas que manipulam tudo e todos até obterem o resultado esperado e é quase impossível provar que elas fizeram o que fizeram.
Fui processada pelo ministério público por intransigência ao questionar meus direitos na creche da prefeitura e depois notei que tudo o que foi feito, foi lentamente estruturado por ele.
Demorei para aceitar a maldade da humanidade e demorei a aceitar que valemos o que temos, o que ofertamos materialmente importa e status ainda manda nesse sistema.
Estou com 48 kg, mas não desisto e sou extremamente grata de ter oportunidade de transformar toda essa arte em alegria, seja por momentos ou uma poesia ou quadro. A arte resgata minha alma toda vez que ela tenta fugir e sou.muito grata por ser quem sou.
Retomando à quarentena, não sei se saio entregando coisas de bicicleta, se corro riscos por ser soropositiva e nao estar me alimentando direito, se estou mesmo acolhida, se verei meu filho e se vou construir uma família um dia. Estou cansada de estar só sempre sendo atacada e julgada. Cansei. Espero que tudo isso valha de algo um dia. Sentir a dor de estar sem.meu filho e o desamor é muito, mas eu aguento.
Sei que a deusa vai permitir que eu veja e esteja por perto do meu passarinho e sei que ainda vou ajudar muitas mulheres.
Poderia escrever muito mais, mas sou grata por esse espaço de fala e tenho fé de que todas iremos retomar nosso lugar.
Assino Aveeva nos meus trabalhos para lembrar do sagrado e profano femininos e toda magia que nos foi negada.

Poema para o príncipe

Eu quero um príncipe que seja muito mais do que um pensamento morno sobre coisas as quais eu já sei.

Eu quero um príncipe desobediente que ponha em risco a senhora que sou em um tipo de surto desorganizado de minhas pequenas coisinhas.

Eu quero um príncipe que me deixe descobrir que a vida nunca foi o que me disseram viver.

Eu quero um príncipe que me dirija à um mundo de epifania e momentos de catarse que definitivamente mudem quem eu sou.

Um príncipe que mude meu juízo de valor.

O meu príncipe é amarelo como um sol que me faz girar ao redor e me sufoca as palavras, só restando a única que sei dizer: tão lindo. Sensacional.

Eis um poema triste de amor.

Cópula

A Bauhaus revolucionou o mundo destacando a beleza da essência dos materiais. O homem é isso: um ser bruto e belo e contemporâneo; enquanto nós mulheres estamos fadadas ao rococó atrasado. O binário feminino x masculino aparece nessa obra sob a forma de copulação.

“Performance Panmela Castro”

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Flores Dentadas

Há algum tempo vinha pesquisando mitos femininos ocidentais que propunham uma mulher perigosa e não confiável buscando o conhecimento da minha identidade enquanto mulher e a partir da minha leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, cheguei até a Vagina Dentada que envolve a castração do falo a partir do coito. A vulva é representada como uma flôr influenciada pelas pinturas de Georgia O’keefe.

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Porque Negro da China seria algo ruim?

Não sou youtuber nem minha ONG trabalha com campanhas online, nosso trabalho é presencial, corpo a corpo no dia a dia, de mulher pra mulher, de pessoa para pessoa. Não procuramos views para auto sustentar nosso trabalho. O que nos move é o depoimento de cada mulher que fala sobre a mudança que proporcionamos em suas vidas. Por isso a resposta ao vídeo do canal Etnia Brasileira, no qual sou exposta e em que o trabalho da Rede NAMI com o projeto AfroGrafiteiras é desqualificado, vem por escrito.

No canal a Youtuber falou sobre o programa Encontro Com Fátima Bernardes com o tema Dororidade.

Antes de tudo, é importante situar o meu lugar de fala, pois todo mundo tem seu lugar de fala. Sou considerada uma artista, de cunho político, muitas vezes chamada de ativista. Desde 2008 trabalho com a promoção do fim da violência contra a mulher, uma vez que fui vítima de violência doméstica. A minha arte é autobiográfica, podendo ser descrita como confessional, pois utilizo de minhas experiências para falar para o mundo sobre um tipo de prisão de gênero para contextualizar este tipo de violência. Em minha ONG Rede NAMI utilizamos o graffiti para oferecer oficinas para promover a Lei Maria da Penha e desde essa época, nosso público alvo ia além da mulher tendo trabalhado com centenas de meninos e rapazes, de maneira didática, com foco na prevenção, pois acreditamos na luta plural, conjunta, em todas as frentes.

Antes mesmo da aprovação da Lei do Feminicídio em 2015, já havia percebido que as políticas contra a violência contra a mulher não estavam dando conta da mulher negra e por isso, essas eram as que morriam mais. Por este motivo, estrategicamente, criei também em 2015 o programa AfroGrafiteiras – uma formação de 8 meses em arte urbana e feminismo negro – um projeto que além de falar da violência do machismo como fazíamos antes, se aprofundou em falar sobre racismo, tentando contribuir de forma efetiva com a reversão do quadro atual. De lá pra cá já passaram mais de 560 mulheres Afrobrasileiras, como as denominamos antes, mas esse termo caiu em desuso na Rede NAMI depois dos aprendizados do programa. A minha experiência no AfroGrafiteiras me fizeram definir a palavra negra para tratar todas as participantes, incluindo eu própria. Eu cresci como uma menina branca, em uma família branca, fui estimulada a me mimetizar toda a vida, alisando e pintando os cabelos de loiro. Me chamavam de moreninha e eu sempre acreditei não ser negra, até entender que chamar alguém de morena ou parda era uma maneira de embranquecer a pessoa e fazê-la mais socialmente aceita, estigmatizando ainda mais os negros de pele mais pigmentada. Eu comecei a me identificar com a fala das participantes do Afrografiteiras que colocavam sobre suas experiências com o racismo, e via que sofria racismo, e logo eu me identifiquei como negra também. Acredito que hoje seja mais adequado chamar alguém de negro do que de afrodescendente ou afrobrasileiro pois é mais uma nomenclatura política, de ação dos movimentos sociais na luta contra discriminação do que para designar a cor, é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo. Esse é um tema muito polémico. Com o tempo eu compreendi as questões sobre colorismo, que o fenótipo e a pigmentação da pele influi na dureza do racismo que se recebe. A leitura com que as pessoas fazem da aparência das outras e o quanto isso é o que verdadeiramente importa. Hoje pontuo a minha fala de um lugar como mulher negra privilegiada, por sofrer menos racismo do que uma mulher negra retinta e ser mais socialmente aceita. Neste ponto é sempre bom enfatizar que lugar de fala e representatividade são coisas diferentes, e eu posso sim falar a partir da minha condição, mas é importante que outras mulheres, muito mais desautorizadas a falarem do que eu, possam se colocar e representar outras em sua condição. E o meu trabalho na Rede NAMI trata justamente disso.

O Catraca Livre publicou uma matéria sobre grafiteiras negras e eu questionei o porquê que nesta lista não existiam mulheres de pigmentação mais escura. Foi quando tomei minha decisão final de colocar além da renda, o colorismo como critério principal para a seleção das candidatas ao programa AfroGrafiteiras. Ainda sim, é difícil que as mulheres retintas se inscrevam em maioria no programa, pois essas mulheres estão muito ocupadas tentando sobreviver. Todos os anos tento captar recursos para pagar a passagem e alimentação, além de tentar levar o programa para as áreas mais afastadas, facilitando assim o ingresso dessas mulheres. No projeto levamos em consideração a representatividade colocando professores e palestrantes negras, renovando a equipe da NAMI de forma a apenas contratar mulheres negras. Buscamos mulheres negras para nosso conselho. Seguimos.

O que me leva a seguir é ver que o trabalho é sério e está ajudando a mudar a situação racista da sociedade. Sinceramente minha carreira está muito bem fundamentada, e eu não precisaria gastar 50% do meu tempo com trabalho social, e muito menos focar na mulher negra. Não preciso me promover com o tema, afinal, não sou jovem como disse Fátima, e muito menos menina como colocado pela Youtube. Sou uma mulher chegando aos 40 anos com a carreira já estabelecida. Minha produção é internacionalmente reconhecida como feminista, mas não trata diretamente de etnia. Sim sou de classe média, mas nem sempre foi assim. Graças às oportunidades e investimentos que outras mulheres com este mesmo modo de pensar fizeram em mim, a maioria brancas, minha carreira de artista decolou me rendendo títulos como rainha do graffiti, Young Global Leaders do World Economic Forum e até como uma das 150 mulheres corajosas que estão mudando o mundo, segundo a revista americana Newsweek, além de outros.  Mais uma vez volto a colocar que isso se da pelo fato de eu ser mais socialmente aceita, mas ainda sim, não sou branca, e isso já foi algum passo adiante. Eu quero retribuir isso de alguma forma para que mais mulheres subvertam a posição que foram fadadas. Eu quero ir além, quero que essas mulheres sejam as menos privilegiadas. Eu sei que não posso falar por elas ou representa-las, mas posso usar minha influência para transferir poder para elas, é por isso que durante esses três anos do AfroGrafiteiras foram sempre elas que foram a cara do projeto, não eu. É por isso também que até então, nenhum dos meus trabalhos de arte falavam da questão de etnia. Minhas mulheres grafitadas são coloridas, com fenótipo similares ao meu até o momento que Vilma criou o conceito de dororidade. Eu já vinha trabalhando a Sororidade nos meus projetos de arte, e prontamente me identifiquei. Dororidade não é uma fala exclusiva da mulher negra, é uma fala de todas nós mulheres, que sofremos pelo racismo, mas que sofremos também pelo machismo. Então dororidade contempla todas nós, e dentro do meu lugar de fala, posso falar sobre dororidade pois tenho dor e esta dor me fortalece de forma política com outras. Como diz Vilma, dor é dor. O tema fala de mulheres, quando falamos de mulheres, é importante falar de todas, mesmo que de lugares de fala diferentes; e eu não posso falar de todas pintando apenas mulheres como eu. Ao me lembrar de quantas mulheres negras me pediram para representá-las na parede, pois até então se sentiam excluídas na minha arte, vi que essa era hora de dar minha contribuição mesmo sabendo que existem centenas de AfroGrafiteiras representando a mulher negra de várias formas. E essa representação não é pelo spray marrom ou preto de contorno, pois mesmo nas mulheres com fenótipos brancos, a cor de contorno em sua maioria sempre foi essa. Contorno é contorno, técnica é técnica. A representação nesta arte vem pela ideia, afinal a obra é aberta e cada um a vê e significa de acordo com suas experiências pessoais.

Dentre as demais pautas daquele programa da Fátima Bernardes, dororidade foi tema destaque, e para isso nada mais natural do que chamar a criadora do conceito para falar. Lá estava Vilma Piedade. Eu produzi uma musica, um video clipe, um mural e um projeto social sobre o tema. Foi o quê eles, orientados por Vilma, acharam de mais autêntico para mostrar. Eu tenho plena noção do privilégio que tive em alcançar uma profissionalização do trabalho para conseguir estes produtos, e por isso ali eu era a pessoa talvez com mais visibilidade para falar sobre o assunto, tirando o lugar de uma mulher retinta que não teve o mesmo privilégio e não possuí o mesmo produto pra mostrar. Mas o meu trabalho junto ao de Vilma é justamente para que negros que “que mal sabem escrever e estão preocupados em ter o que comer”, segundo a Youtuber, possam um dia estar ali falando sobre suas criações e que eu possa me ocupar em falar de outros temas poéticos da vidas que não são tão urgentes. A produção do programa teve o cuidado de me perguntar se as meninas do VT que iriam falar sobre o AfroGrafiteiras, pudessem ser as de pele mais pigmentada, já que eram sempre as mais excluídas e que no programa haveria apenas Adriana. Podemos problematizar esta colocação, mas deve haver uma sensibilidade de que ali houve um cuidado, mesmo que por muitos considerado mínimo, com a representatividade.

Existe um conflito geracional em que as meninas novas que chegam agora não respeitam a história anterior que a fez com que estas pudessem ter acesso e voz antes impensáveis. Vilma Piedade fez parte dessa história, podemos debater, mas nunca desqualificar sua fala. Desqualifica-la é uma falta de respeito. Eu e Vilma temos um trabalho sério, e não é de hoje. Construímos uma sociedade em que uma jovem negra poder ter um canal de youtube e nos criticar de tão empoderada, e ter com isso milhares de views e uma carreira. As feministas brancas talvez não tenham pensado nas negras, mas quebraram as primeiras barreiras do gênero para que possamos discutir etnia, assim como homens negros quebraram as primeiras barreiras da raça para que hoje nós pudéssemos discutir sobre gênero. É um conjunto de lutas que geraram a interseccionalidade. Sem nós, e muitas outras pessoas mais, sejam estas pretas, mestiças ou brancas isso nunca seria possível.

E sobre o título, não é porque uma coisa é ruim que ela vem da China. Na China tem muita coisa boa, ta ai o ai weiwei pra provar. Não vamos combater um preconceito fortalecendo o outro.

Panmela Castro raça etnia pintura mulher negra
Primeira pintura minha em suporte convencional a retratar a temática de raça.

 

 

Buster’s Mal Heart

filmes_12098_buster2Dois dos meus filmes favoritos são Cisne Negro e Clube da Luta, ambos com seus auges na epifania do personagem principal ao descobrir que tudo o que se passa acontece sobre uma perspectiva pessoal. Poderia dizer invenção ou até esquizofrenia, mas é a partir de Buster’s Mal Heart que posso afirmar uma construção social da verdade, que qualifica outras formas de pensar como doença e ridiculariza ideias como conspiração e terrorismo mantendo o Mito da Caverna de Platão atual mais de 25 séculos depois de escrito.

Está aí pra provar, a história ocidental européia que desqualifica a fala de seres desautorizados a terem suas histórias evidenciadas a partir de seus pontos de vista. Mulheres, negros e pobres sempre flertaram com a loucura. Se vc se opõe a ideia vigente, é encarcerado no hospício, prisão ou perambula nas ruas sendo apontado como mendigo louco.

Como não ficar louco em um modelo capitalista fadado ao fracasso onde se produz mais do que se precisa e ainda sim nem todas as pessoas têm acesso? Onde o controle é arma organizando, separando e estigmatizando o povo como na criação dos gêneros, nomenclaturas para sexualidades, castas por classe social, e até mesmo seu crédulo. De forma a manter o poder dos indivíduos no topo das classificações.

A partir daqui teremos spoiler.

Nem todos se adaptam à forma como a sociedade está organizada. Reais anarquistas são os que não suportaram a escola, sofreram com seus trabalhos, desistiram de tudo, tornaram-se andarilhos, nunca se adaptando e vivendo à margem.  Para Buster foi difícil, nem o ensino médio ele completou. Tem muitos problemas no trabalho e precisa se drogar para aguentar. Pensa em trabalhar meio período e quem sabe, até parar. Fala que não quer isso pra sua filha, mas sua esposa traz ele pra realidade onde as pessoas simplesmente não tem dinheiro para não viverem como escravas da automatização capitalista trabalhando para produzir o que você vai comprar mas não precisa, mas precisando para amenizar a amargura de ter que trabalhar para produzir tudo isso que você tem que comprar. Onde manter o ciclo é mais importante em si do que o que vc realmente precisa consumir.

A família é estrutura de base deste vício. A família o faz endividar para mantê-la. A dívida o move para produção em troca do que pague a sua dívida e mantenha a família e a atual conjuntura social reprimindo o erotismo, os desejos, sonhos, caprichos, concentrando as pessoas no trabalho e mantendo todo mundo ocupado nesse ciclo desnecessário. Bust mata a família e elimina o problema.

A dor que Bust sofria não se resolveu com a morte da família. Bust manteve seu corpo livre, porém sua mente estava presa, não, ele não era o último homem livre da terra. O momento de epifania mostrou que por mais que criasse suas ideias conspiratórias em um cenário onde um outro teria cometido esse crime, Bust desiste ao sentir a dor de simplesmente existir.

Você acompanha uma história e cria seu entendimento. Cada um analisa de acordo com suas experiências. Desdobramentos dos fatos e pontos de vistas divergentes envolvem a democracia mundial e o que chamamos de fake news é a prova que diversos pontos de vistas dados por pessoas diferentes podem existir comitantemente. Afinal o que é a verdade?

Roots, Panmela Castro, 2008, 10’14

Até pouco tempo atrás o espaço público era restrito à homens. Ainda hoje posso falar dos perigos da cidade para o corpo feminino. Durante muito tempo eu quis ser um homem e pensava habitar a pele errada. Para ser aceita e respeitada por gangs de homens, eu tive que me masculinizar: andar como eles, vestir-me como eles e até falar como eles. O vídeo em questão mostra o período entre 2006 – 2008 e estas minhas raízes no graffiti ilegal.

Em um determinado momento, percebi que o quê eu almejava nunca foi ser um homem, mas sim possuir o poder que eles exibiam e eu como mulher, nunca alcançaria. Que por mais que praticasse a mimese, o fato de eu possuir um corpo feminino, denunciava quem eu era e o meu lugar na casta de poderes. Então logo após este período eu iniciei a série “Lady Grinning Soul” onde subvertendo o papel destinado a mim, troco minhas vestimentas masculinas por uma indumentária hiper feminina, colorida e com flores; e o meu gestual agressivo e cheio de regras masculinas por poses de menina.

Feminicídio

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres. Deixamos de ser cúmplices de nossos escravizadores.

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Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

Três dias com Raoni Azevedo

Um tanto quanto precipitada, seria uma escrita sobre algo que ainda não muito bem conheço. O frescor das primeiras impressões e novas emoções me movem então nesta primeira jornada sobre Raoni Azevedo.

Raoni Azevedo III
Foto retirada do instagram @raoniazevedo

Jovem artista carioca, atual residente da Rocinha e membro da Igreja do Reino da Arte, Raoni é aquela figura que de longe já chama atenção. Eu que tenho medo de gringo, de ser ignorada, mal tratada e subjugada, não me atreveria a chegar perto. Só que Raoni não é gringo e é justamente sobre isso que trata sua obra.

Um estrangeiro em seu próprio lugar. Em uma estrutura de sociedade onde há tantas urgências, como ainda se assumir  protagonista sendo um homem branco padrão?

Um filme sobre sí; uma fala sobre suas experiências, um trabalho autobiográfico onde ficção e realidade se confundem. Tudo isso daria margem à aquela velha alto estima que nunca entendemos como pode ser tão inflada nesses homens brancos. Mas nessa pesquisa o contrário acontece: Raoni bate em sua cabeça ampliada em forma de Pinhata com toda a força como se quisesse destruir quem é. Um botijão de gás preso à parede com fitas e fogo na borda anuncia uma auto-extinção.

Raoni Azevedo II
Primeira Comunhão de Raoni Azevedo e Eduardo de Barros na Inauguração do Templo da Igreja do Reino da Arte (ANoiva) na Rocinha em 25 de agosto.

Essa metáfora à destruição do seu ser, não é de forma alguma ódio de si; mas sim negação do papel que a nossa construção social o fez ocupar: o de opressor. Sua pesquisa é sobre ser um privilegiado em meio ao outro jogados à margem. Como valer sua existência e sua arte sem que esta sirva como ferramenta da manutenção dos privilégios do poder em vigor?

Hora seu trabalho pode aparecer em video, objeto, imagem, ação; mas a obra aqui, companheiros, é a ideia em si. A própria existência como artista cercado de um “outro” em que ele próprio anseia pela existência e promoção. A busca é por esta existência onde todo e qualquer tipo de poder possa ser distribuído de forma igualitária. É por um extremo esforço para manter sua soberania e autonomia de forma co existente à aquele que nunca as tiveram.

Como homem branco, Raoni não precisava falar disso. É o negro, o trans (etc.) e o feminino (etc.) que precisam fazer um tipo de arte sobre ser esta pessoa no mundo para ter qualquer tipo de atenção de um mercado/sistema ingrato. Falar sobre clichê, estereótipo e tabu é necessidade, mas também é regra para nós pessoas de cor e não normativas. Raoni poderia assumir seu privilégio em criar qualquer tipo de arte sobre qualquer coisa e ser visto, ouvido e aplaudido, mas não, o seu comprometimento é político, e é por este outro. Raoni puxa a luta de classes, gênero e raça de dentro de seu lugar de fala e é isto o que faz de seu trabalho relevante enquanto homem, hétero e cis.

OBS: É importante citar esta crítica dentro da perspectiva do grupo em que eu e Raoni co-existimos atualmente, entre favela, rua, artes, não normativos e militantes. Nunca devemos nos esquecer, que fora de nossa bolha, estas preocupações ainda deixam a desejar. Para as pessoas de fora, principalmente na política e economia, a grande parte do pensamento coletivo ainda é aquele velho antigo onde não existe vergonha em ser um branco no poder.

PK: Um Filme de Amor

Como grande fã de filmes de ficção ciêntifica, vasculhei no Netflix algo de legal para ver, escolhendo de forma aleatória e sortuda PK. Em seus textos online, pensa-se como uma crítica ao Hinduísmo, mas eu o vejo como um filme de amor daqueles que nos acabamos de chorar ao final.

PK toca lá no fundo da nossa estrutura social, onde a guerra e o ódio é efeito colateral dessa nossa forma de se organizar, onde instituições como a igreja fortalecem esse “engano”. PK fala de amor e sinceridade, que em nossa civilização são duas palavras difíceis de se andar junto, e sua mentira ao final, é o que sentencia a questão.

 

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Carta à Malala

Querida Malala,

No Brasil, passamos agora por um período de retrocessos. O projeto de lei que tenta instituir a chamada “Escola sem Partido” tem sido muito debatido e impulsionado por setores extremamente conservadores da sociedade representados no congresso. A proposta, se aprovada, vai limitar (e punir!) professoras e professores que falarem sobre gênero em sala de aula, entre outros.

Além de criar uma cultura do medo e diminuir a reflexão crítica, a “Escola Sem Partido” inibe o desenvolvimento de uma sociedade onde homens e mulheres são iguais tanto no que diz respeito ao controle como ao uso de seus bens e serviços.

Na Nami, durante as oficinas do projeto “Graffiti Pelo Fim da Violência Contra a Mulher” que é realizado em escolas para alunos entre 14 e 19 anos, além de falarmos sobre os tipos de violência doméstica e promovermos a Lei Maria da Penha, criamos um momento para pensarmos a desconstrução do gênero no sentido de alargarmos as bordas do que é definido sobre como é ser uma mulher e como é ser um homem. Eu, como uma sobrevivente da violência doméstica, entendo que a violência contra a mulher acontece justamente quando o outro não aceita saímos do padrão pré estabelecido sobre como deve ser uma mulher e por isso estimulamos esta reflexão nas oficinas. Para que entenda melhor, posso usar minha própria história como exemplo: quando fui espancada por meu companheiro e mantida em cárcere privado por uma semana, ele alegava que eu não era uma boa dona de casa. Na época ele estava desempregado e eu além de trabalhar ainda estudava, passando o dia todo fora. Ainda assim, ele acreditava que todas as tarefas de casa, incluindo as refeições, deveriam ser feitas exclusivamente por mim, pois este era meu papel como esposa. Ainda hoje, muitos meninos não são estimulados a realizarem as tarefas de casa, alegando-se que este não é trabalho para homens. Então, quando eu falo em afrouxar as barreiras do que é ser mulher e do que é ser homem, eu falo justamente em quebrar essas definições pré concebidas.

Este trabalho está diretamente ligado à educação. Aqui no Brasil, as meninas assim como os meninos podem frequentar escolas. No entanto, a educação ainda não é uma ferramenta de mudança do padrão de relacionamento entre homens e mulheres porque não existe perspectiva de gênero na educação. Eu mesma fui privilegiada por poder cursar uma boa escola e ingressar em uma das melhores universidades do país, mas desconhecia meus direitos enquanto mulher e sequer era capaz de identificar uma violência, passando anos naquele relacionamento abusivo. Precisamos de uma educação que ensine que meninos e meninas devem ter os mesmos direitos, se respeitar e resolverem conflitos sem uso da violência. Mas o legislativo acha que fazer isso é ruim, e persegue a discussão sobre gênero na escola.

Centre Pompidou

De volta à Paris, eu e Artha visitamos o Centre Pompidou que possuí uma coleção de arte Moderna e Contemporânea incrível. Além de ver os clássicos como Duchamp e Kandinsky, ainda conferimos a exposição pontual do César que compõe assemblages com ferro, cria esculturas com carros amaçados e outras peças mais convencionais.

Pessoalmente quero destacar o trabalho de arte conceitual “As três cadeiras” que no passado me influenciou à produzir o meu primeiro trabalho onde a ideia era mais importante do que a imagem. Era um cartão com mais de 400 pontos no Rio onde eu grafitei e no qual eu declarava a cidade uma grande área expositiva: era a minha galeria.

A cadeira de Joseph kosuth

A Fonte de Duchamp

Kandinsky

César

César

César

César

Pirâmide de Teotihuacan

Sabe aquela sensação de missão cumprida? Sim, foi o que eu senti depois da vista às pirâmides do Sol e da Lua no México: sensação de missão cumprida. Afinal, uma das coisas que temos que fazer na vida é visitar uma pirâmide, seja ela no Egito, no Peru ou no México!

O que eu entendi do passeio é que elas eram construídas em etapas; quando terminava um ciclo, a galera vinha e criava mas um andar e assim por diante e no topo, faziam sacrifícios com humanos de acreditando que iriam alcançar a graça solicitada. Ali era um lugar de morte e fé.

Apesar da sensação de felicidade na visita a este local monumental, me senti culpada pelo fato de ali ser um lugar de morte e a gente não tá nem aí.

O Congresso Futurista

Outro dia minha mãe me perguntou sobre a relevância das artes visuais para nossa vida. Sempre que penso nisso me lembro da Bauhaus e Mondrian e o porquê a madeira aparente em uma mesa simples subverteu a lógica rococó no design. Bom ela não entenderia já que adora uma penteadeira em estilo Luiz XV. Hoje depois de ver “O Congresso Futurista” me veio o exemplo do manifesto surrealista e como Dali e Brake deixaram como herança a possibilidade de termos um filme psicodélico como este.

Confesso que me entediei em um certo ponto: animações nunca foram o meu forte e apesar de ficção cientifica ser meu gênero favorito, um filme tão desconexo com a realidade não me atrai. Foi quando puxei o fundamento da “A Obra Aberta” de Umberto Eco e a partir de então tudo passou a fazer sentindo e eu acabei me emocionando em uma cachoeira de lágrimas.

A ideia de obra aberta passa pelo contexto que a arte não deve se auto-explicar, mas oferecer conteúdo para que o público use de suas próprias experiências para interpretar a obra e completar as lacunas criadas por ela. É a mesma ideia da droga inventada no filme onde tudo o que se cria vem dos desejos do individuo.

Pessoalmente essa ideia foi um tapa na minha cara pois o filme foi baixado de uma pasta pessoal de um rapaz que conheci. Um rapaz de beleza extraordinária que me fez criar a ideia de que possuía uma sensibilidade e inteligência nada ordinária. É como aquela droga do filme que vc passa a ver as coisas como vc quer que sejam, e a partir desta consciência eu desconstruí essa minha criação e enxerguei fora da caverna os detalhes daquela silhueta obscura. Isso é sobre a beleza da potência de nossas criações, e na minha percepção da obra, a protagonista cria ao final sua fuga: revive naquele novo mundo a vida com o filho perdido, e então, chego a conclusão de que nada temos a temer das ilusões, pois o amor sempre faz sentido.

Legalize Já!

Quando eu estava no primeiro ano do antigo segundo grau eu queria ser o Glauco. O Glauco era um rapaz negro, mais velho, bastante popular no colégio. O que me fascinava no Glauco era o poder e a liberdade que ele carregava, por isso, eu queria ser como o Glauco. O Glauco escutava Planet Hemp e por isso, a banda pra mim se tornou sinônimo de avanço.

Eu sabia que o Planet Hemp cantava sobre maconha, e maconha era algo que meus pais não gostavam, logo meus pais não queriam minha emancipação. Queriam que eu continuasse a ser a trouxa, aparelhada que sofria bullying, assim, eu continuaria dependente deles pelo resto da minha vida.

Depois de ver o filme “Legalize Já!” Na pre estreia no Odeon durante o Festival do Rio na última semana, eu entendi que a maconha ali nunca foi o foco, o foco sempre foi a liberdade: ideias que nos tornam seres plenos e completos. 

Quando se repreende a maconha, não estamos reprimindo a droga em si, estamos reprimindo nosso poder de decisão e controle sobre nossas vidas, uma metáfora para pequenas coisas que acontecem em nosso cotidiano e que nos sufocam.

Eu não sou mais aquela menina do ensino médio, e não, não fumo maconha, mas caminho em busca da minha liberdade e de exercer uma vida plena sem que ninguém possa decidir por mim.

Bokeh: metáfora para o filme ou para a vida?

Se vc não gosta de cenas longas sem diálogos: não veja. Se você não gosta de diálogos longos que não explicam nada: não veja. 

Esse não é um filme com mais uma possibilidade apocalíptica. É um filme que pauta a vida sem o sentido diário construído por nossa sociedade. É um bokeh, um borrão fotográfico sem importância e que pode ser descartado, e ainda sim é belo. 

Essa seria a vida sem nossos princípios e nossos objetivos. Um papel em branco que pode ser jogado fora ou usado para construir uma nova história em tentativas melhores que a nossa. Mas ainda sim, o homem é bobo.

O homem desse filme disponível no Netflix vê uma oportunidade de lucro em proveito próprio, mesmo que esse não venha através do dinheiro que agora não tem mais importância, mas através de uma vida fácil e despreocupada. Enquanto isso a mulher está preocupada com um motivo de existência que transcendesse o mero gozo pessoal e que trouxesse a vida um sentido.

O homem é incapaz de aceitar seus questionamentos, com uma irresponsabilidade emocional com sua parceira, leva-a ao seu fim. O seu gozo torna-se seu próprio castigo.

🤔

Refém da Paixão: belo ou medonho?

Eu vi um filme que achei muito bonito. Era a história de um fugitivo que se abriga na casa de uma mulher e seu filho, e que no decorrer da trama acaba por conquistando-os e torna-se parte da família. Em cinco dias…

Refém da Paixão, filme do diretor Jason Reitman que também dirigiu Juno e Garota Infernal, é mais um filme que nos engana com um amor romântico que na verdade beira o sadomasoquismo repleto de abuso onde a mulher é sempre a vítima. Isso não o faz menos belo como obra cinematográfica, mas me assusta ao pensar sobre como mulheres reais vivenciam esses relacionamentos abusivos em nome do amor.

Que amor é esse que um homem que vc nunca viu, cheio de sangue e autoridade te obriga com chantagens psicológicas a levá-lo pra casa. E que quando você alcança a informação de que é um fugitivo perigoso, ele a força a acoberta-lo? Pode parecer que a protagonista o faz por vontade própria, mas percebi nos diálogos um ar constante de medo e desconfiança como se no momento que ela o recusasse, ele simplesmente a esfaquearia sem dó.

Um embuste que o roteiro tenta mostrar como injustiçado, mas que na minha opinião, não passa de mais um machista neurótico preocupado com a paternidade do filho que criava e que em um momento de agressividade mata “sem querer” a mulher. Bom, se ele não tivesse agido daquela forma a mulher não havia caído e morrido, e sabe Deus lá mais o quê ele fez para enlouquecer sua esposa a ponto dela assassinar seu filho.

Porquê o diretor quer reforçar esse clichê da esposa infiel, da mãe louca e assassina, enquanto o homem se posiciona como vítima? Veja bem em junho: Mãe louca abortadora (leia-se assassina); e em Mulher infernal: puta assassina (substituindo a esposa infiel). Parece que o diretor tem mesmo essa ideia de que nós mulheres somos desorientadas, perigosas e não confiáveis, como foi Eva, Medusa e aquela outra lá da caixa de Pandora. Valores que antes eram passados pelos mitos e contos, e que hoje fazem parte de filmes para “nos colocar em nossos lugares”.

Às vezes eu acho q estou com pensamentos psicóticos porque faço esse tipo de leitura das coisas que vejo, mas sempre chego à conclusão que é justo isso q eles querem: que adoecermos como insanas para continuarmos precisando sermos cuidadas e tê-los decidindo sobre nossos corpos e vida como o que acontece nos espaços repletos de homens ( e na maioria brancos) onde as leis são criadas.

Um cara como o do filme – que é um estranho que obriga a personagem a aceitá-lo em casa – põe a mão em suas costas; o q vc faz? Dá um pulo? Prende a respiração? Vomita? Não, vc encosta a sua cabeça no seu ombro. Desacreditei.  

Só sei que chega uma hora do filme que a personagem já tá transando com o fugitivo e já quer se fugitiva com ele e não bastasse, envolve o filho nessa doidera toda. Quando o garoto atende a porta e conta um monte de mentira pro vizinho, ela não se preocupa com o fato do garoto estar aprendendo a cometer crimes com seu novo “padrasto”. Pela primeira vez no filme eu vejo aquela mulher reagir, mas mais uma vez ela nos surpreende levantando valores que confundem ainda mais nossa mente.

Não é porquê uma mulher não está apanhando ou não está amarrada que não é vítima. A gente passa todos os dias por um tipo de violência que não percebemos na vida real e o filme vem reforçando e normatizando isso. É um tipo de domínio psicológico que o homem exerce sobre a personagem que muitos não perceberão que ela está em posição submissa, que está sendo controlada, enganada. Parece que é ela que quer, e muitos vão dizer assim, tanto quantos questionam mulheres estupradas se elas realmente não consentiram.

As mulheres são cúmplices dos seus escravizadores há milénios e nem sequer se identificam nesta posição. É justo por esse poder psicológico das normas e convenções sociais que faz com que um filme que poderia ser aterrorizante possa ser considerado belo. Quando uma obra possui esse tom ironia e é aberta o suficiente para nos gerar essas dúvidas, é uma obra boa, que posso interpretar de acordo com minhas vivências, o que me incomoda aqui, é a repetição desses personagens femininos dentro de padrões repetitivos onde a mulher aparece sempre de forma pejorativa.