Mulheres Negras Não Recebem Flores [Women of Color Don’t Get Flowers]

“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Jandira Queiroz – Residência (Jandira)”, óleo, acrílica e carvão sobre linho, 50 x 40 x 8 cm, 2021. Foto: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers – Jandira Queiroz – Residence (Jandira)”, oil, acrylic and charcoal on linen, 20 x 16 x 3,1 in, 2021. Image: Personal Archive
“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Carollina Lauriano”, óleo e carvão sobre linho, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers”, oil and charcoal on linen, 2021. Image: Personal Archive
“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Ademar Britto”, óleo, acrílica e carvão sobre tela, 70 x 50 x 8 cm, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers – Ademar Britto”, oil, acrylic and charcoal on linen, 24 x 18 x 3,1 in, 2021. Image: Personal Archive
“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Ademar Marinho”, óleo, acrílica, carvão sobre linho, 70 x 50 x 4 cm, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers – Ademar Marinho”, oil, acrylic and charcoal on linen, 19,6 x 27,5 x 1,5 in, 2021. Image: Personal Archive

Mulheres Negras Não Recebem Flores

De tempos em tempos analiso meus pensamentos e tento distinguir o que é problema social ou mera experiência pessoal. São muitos os exemplos que mostram que o racismo não é uma experiência vivida só por mim, mas também por várias das minhas manas. Essa é uma questão histórica.

Penso a partir de Lélia Gonzalez e seu conceito de Amefricanidade, e ainda posso dizer que sou uma brasileira miscigenada, descendente de pessoas negras trazidas da África, de indígenas donos das terras Pindorama e de um pouco de gente branca que aqui se instalou. Assim sendo, como a maioria das mulheres que compartilham dessas vivências, tenho minha ancestralidade apagada pelo colonialismo, sem saber quem são meus antepassados.

Na busca contínua de compreender onde me localizo no mundo, me via muitas vezes sozinha, sem saber onde me apoiar ou a quem recorrer. Minha experiência no mundo, enquanto uma mulher que não se enquadra no padrão da branquitude, foi marcada pela solidão e pelo medo da rejeição, não somente em contextos estruturais, mas também nas relações interpessoais.

Ana Claudia Lemos Pacheco já contextualizava esses sentimentos em sua tese sobre a solidão da mulher negra, que tem um conceito complexo e de muitas camadas, mas que resumo aqui como a ideia de que mulheres negras, pelo racismo e por estarem distantes do ideal de beleza (branco europeu), são preteridas por mulheres brancas e muitas vezes separadas entre o trabalho e o sexo. Por fim, com a dificuldade de estabelecer relações afetivas de longo prazo, acabam por liderar suas famílias sozinhas, sem um companheiro para dividir o sustento.

A rejeição e a dificuldade em lidar com a afetividade são sintomas que compõem a história da grande maioria das mulheridades negras brasileiras. De tanta carência histórica, o processo de pintar flores traduz minha busca incansável por afeto. Essa pesquisa fala sobre o que significa pertencimento para mim e para aquelas que, como eu, sentem a urgência de romper com os pactos coloniais. Assim surge a série antirracista “Mulheres Negras Não Recebem Flores”, criada por mim a partir de um texto da escritora Gabriela Moura que viralizou em 2019 na internet.

Durante a pandemia, me isolei com alguns amigos em suas casas e fiquei encantada com os arranjos de flores que as enfeitavam. A partir desse olhar, revisitei a memória e me lembrei de quando passei a vida inteira acreditando que eu não era digna de receber flores, de viver esse tipo de afeto.

Comecei então a fantasiar que essas flores, que já estavam em suas casas, eram na verdade para mim, por ocasião da minha visita. Passei a colecionar memórias dessas flores, criando pinturas e nomeando-as com o nome das pessoas que me “presenteavam”, cada uma única, com sua história e afeto, numa linha tênue entre ficção e realidade. Num tipo de delírio autorreferente, comecei a ver significado especial em flores que sequer eram para mim, até que me peguei pintando mesmo as de plástico.

Com o tempo, comecei a receber muitas flores, das mais diversas cores e tamanhos. Fui agraciada pelos presentes desses amigos que, num simples gesto de me enviar um buquê, conseguiram transformar o medo que eu sentia pela rejeição, criando em mim uma memória em que não cabe mais a solidão, mas sim a riqueza do afeto. São os meus amigos que me lembram que eu não só sou digna de receber flores, mas também de ser amada.


“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Maybel Sulamita”, óleo e carvão sobre tela, 70 x 50 x 8, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers – Maybel Sulamita”, oil and charcoal on linen, 24 x 18 x 3,1 in, 2021. Image: Personal Archive
“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Carolina Pedrosa”, óleo e carvão sobre linho, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers”, oil and charcoal on linen, 2021. Image: Personal Archive
“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Daniela”, óleo e carvão sobre linho, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers – Daniela”, oil and charcoal on linen, 2021. Image: Personal Archive
“Mulheres Negras Não Recebem Flores – Lula Buarque de Hollanda”, óleo, acrílica e carvão sobre linho, 2021. Imagem: Arquivo Pessoal
“Women of Color Don’t Get Flowers – Lula Buarque de Hollanda”, oil, acrylic and charcoal on linen, 2021. Image: Personal Archive

EN

Women Of Color Don’t Get Flowers

From time to time I analyze my thoughts and try to distinguish what is a social problem or a mere personal experience. There are many examples that show that racism is not an experience lived only by me, but also by several of my sisters. This is a historical question.

I think from Lélia Gonzalez and her concept of Amefricanity, and I can still say that I am a mixed Brazilian, descendant of black people brought from Africa, indigenous owners of Pindorama lands and a few white people who settled here. Therefore, like most women who share these experiences, I have my ancestry erased by colonialism, without knowing who my ancestors are.

In the ongoing quest to understand where I am in the world, I often found myself alone, not knowing where to lean on or who to turn to. My experience in the world, as a woman who does not fit the whiteness pattern, was marked by loneliness and fear of rejection, not only in structural contexts, but also in interpersonal relations.

Ana Claudia Lemos Pacheco already contextualized these feelings in her thesis on the loneliness of women of color, which has a complex and multilayered concept, but which I summarize here as the idea that women of color, because of racism and because they are far from the ideal of beauty (European white), are passed over by white women and are often separated between work and sex. Finally, with the difficulty of establishing long-term affective relationships, they end up leading their families alone, without a partner to share the support.

Rejection and difficulty in dealing with affectivity are symptoms that make up the history of most Brazilian women of color. With so much historical need, the process of painting flowers reflects my tireless search for affection. This research talks about what belonging means for me and for those who, like me, feel the urge to break with colonial pacts. This is how begins the anti-racist series “Women of Color Don’t Get Flowers”, created by me and inspired by the text of the writer Gabriela Moura that went viral in 2019 on the internet.

During the pandemic, I isolated myself with some friends in their homes and was enchanted by the flower arrangements that adorned their houses. From that look, I revisited the memory and remembered when I spent my whole life believing that I was not worthy of receiving flowers, of experiencing this kind of affection.

I then began to fantasize that these flowers, which were already in their homes, were actually for me at the time of my visit. I started to collect memories of these flowers, creating paintings and naming them after the people who “gifted” me, each one unique, with their history and affection, in a fine line between fiction and reality. In a kind of self-referential delirium, I began to see special meaning in flowers that weren’t for me, until I found myself painting even the plastic ones.

Over time, I started to receive many flowers, of the most different colors and sizes. I was graced by the gifts of these friends who, in a simple gesture of sending me a bouquet, managed to transform the fear I felt for rejection, creating in me a memory in which loneliness no longer fits, but the richness of affection. It’s my friends who remind me that I’m not only worthy to receive flowers, but also to be loved.

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