Exposição A Máquina Lírica

Galeria Luísa Strina, curadoria de Pollyana Quintella, setembro de 2021.

Uma mulher nua de longos cabelos cheios que caminhava na madrugada como uma bruxa logo se tornou lenda folclórica no vilarejo de Olhos D´água em Goiás.

Este conto não se trata de um delírio coletivo de alguns poucos privilegiados que venham a ter flagrado a cena, ou de outros que tenham repetido vê-la para pertencerem à lenda. O delírio aqui é auto-referente e dá nome às quatro fotografias exibidas na exposição “ A Máquina Lírica” de curadoria de Pollyana Quintella apresentada na Galeria Luisa Strina a partir deste setembro de 2021.

Após um ano de isolamento social, eu, que vivo só, decido viver na casa das pessoas e cria a Série Residência. Antes de ir morar no pequeno vilarejo na casa de Lu, mãe de Jandira (ativista social, amiga de longa data, e uma das fundadoras da Rede NAMI)  faço quarentena no Núcleo de Artes do Centro Oeste (NACO).

Sozinha no espaço da residência, produzo uma nova série de Penumbras em um dia de ritual de Lua Cheia. Desdobramento de antigas séries como “Opressão (2009)”, a série Penumbra toma corpo na solitária quarentena de 2020 no ateliê, em experimentações de fotografias de longa exposição.

Penumbra é mais um dos conjuntos de obras que tratam sobre a afetividade da mulher negra, a partir de minhas próprias vivências com o racismo e machismo, sexualização do corpo negro, estigmas, e a realidade de dados do IBGE que mostram que tal prática estrutural lança mulheres negras na pobreza, liderando suas famílias, sem companheiros de longo prazo para ajudar a sustentar a casa (Mulher Negra: Afetividade e Solidão – Pacheco, Ana Cláudia Lemos – 2013).

Apesar de aparentar muitos privilégios hoje, sou de uma geração que teve que abdicar de construir uma família para construir uma carreira e ter o mínimo de qualidade de vida. Afinal, como uma mulher afastada do padrão europeu “para casar”, dificilmente manteria um companheiro para me ajudar com os filhos, e isso me impediria de seguir em minha profissão, me enterrando de vez na falta de privilégios e pobreza.

Ser uma mulher aos quarentas vivendo sozinha isolada durante uma pandemia, apesar dos confortos de poder me manter sem mais dificuldades, não é um privilégio pleno de vida. Assim como ser tachada de Bruxa em uma cidadezinha do interior, reafirma a urgência da necessidade de desestigmatizar corpos como meu. Penumbra é sobre isso, desconstruir seu olhar sexualizado adiante de uma mulher que sofre com a dor de se estar só, entre tantos outros pontos problemáticos que esse conjunto de fotografias escolhidas por Polly tem a pontuar.

A curadora Pollyana Quintella já fazia parte do conjunto de pessoas com que eu me identificava nos pontos de interesses a cerca da arte e visão de sociedade, além de uma ligação intuitiva sobre sua presença como pessoa no mundo. Alinhadas em todos os amplos sentidos que a vida pode ter para nós, foi fácil logo de primeira encontrarmos no conjunto “Culto Auto-Referente” a confluência entre nossos interesses de pesquisa.

Polly pensa para a exposição, a nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção (Leia o texto de Poli sobre a exposição). Tipo de deliro que venho atravessado em minhas residências nas casas das pessoas, tentando identificar objetos e situações como sinais e marcos, mas q por fim não passam de delírios de referências, sendo descritos na Wilkpédia como um tipo de fenômeno de um indivíduo que está experimentando coincidências e acreditando que elas têm um forte significado pessoal, uma noção de que tudo o que se percebe no mundo relaciona-se com o próprio destino.

É neste ponto que volto ao debate sobre afetividade e a busca a todo custo por pertencer a algo, e ser amada; onde a rejeição e solidão, me confunde em não conseguir distinguir se meus prejuízos são fruto do preconceito que me cerceia, ou meras situações pessoais.

Esta é apenas uma introdução para muitos desdobramentos de minha produção, que apesar de pessoal, se torna política ao ter milhares de mulheres se identificando e se questionando sobre essas as mesmas sensações e percepções.

A exposição “ A Maquila Lírica” pode ser conferida até o final deste mês que abre a 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro mas eu canto, e conta com os artistas Anis Yaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli.

Ser fina é questão de Sobrevivência

Há artistas (ninguém específico pois isso acontece muito e em várias áreas) que veem vantagem em jogar umas roupas quaisquer, andar descabelada, fazer pose de bandida, tirar onda com umas gírias aí. Eu não vejo vantagem. Não vejo pq não sou branca.

Antes de sair de casa confiro se minha roupa está alinhada e se meu cabelo cheio não está chamando muita atenção. Treino meu vocabulário colocando todos os “s” no final. Evito gritar, falar alto e andar espalhafatosa nos lugares. Me lembro quando a moça me chamou de favelada pq eu gritava no metrô. Não tem problema ser favelada, o problema foi a forma pejorativa q ela me olhou. Se fossem só olhares estava tudo bem, mas eu já tomei coronhada na nuca, corri de um tanto de tiro e já fui espancada por horas mais de uma vez. É por isso BB, que a maturidade me ensinou a me esforçar pra parecer uma pessoa bem cuidada, falando bem e mostrando conhecimento sobre o que faço. Pois assim talvez me respeitem mais. Mesmo assim se der mole o povo pisa, trabalhar minha aparência é apenas uma tentativa de minimizar os danos. Assim evito que o outro me trate a partir do seu olhar racista e afasto a iminência da morte. Para aqueles q não tem certeza se voltarão para casa, qualquer oportunidade de passar batido já ajuda.

Só faz do esculhambo um persona quem tem privilégios o suficiente pra não ter medo de morrer. Falo de alguém que faça parte da branquitude e se coloque em situações que marginalizam pessoas negras mas que no caso delas, por não serem negras, tiram onda de cool e dão até dinheiro. Acho ofensivo e racista quem se apega a um personagem que é a história real de tantas minas e boys que são mortos por serem assim. Esta pessoa q não é preta, basta pentear o cabelo liso, colocar uma roupinha direitinha, para ficar com cara de princesa, mas ela faz de tudo para ficar com “cara de marginal”, pq esse kit na pele do branco é só uma tiração de onda e nada mais. Apropriação cultural é isso, levar vantagens em assuntos onde o outro é desmoralizado, agredido e morto.

O senhor João não foi o único. Todos os dias pessoas negras são mortas por serem negras. Aprende isso: só sai de casa sem medo de morrer quem tem os privilégios da branquitude.

Porque Negro da China seria algo ruim?

Não sou youtuber nem minha ONG trabalha com campanhas online, nosso trabalho é presencial, corpo a corpo no dia a dia, de mulher pra mulher, de pessoa para pessoa. Não procuramos views para auto sustentar nosso trabalho. O que nos move é o depoimento de cada mulher que fala sobre a mudança que proporcionamos em suas vidas. Por isso a resposta ao vídeo do canal Etnia Brasileira, no qual sou exposta e em que o trabalho da Rede NAMI com o projeto AfroGrafiteiras é desqualificado, vem por escrito.

No canal a Youtuber falou sobre o programa Encontro Com Fátima Bernardes com o tema Dororidade.

Antes de tudo, é importante situar o meu lugar de fala, pois todo mundo tem seu lugar de fala. Sou considerada uma artista, de cunho político, muitas vezes chamada de ativista. Desde 2008 trabalho com a promoção do fim da violência contra a mulher, uma vez que fui vítima de violência doméstica. A minha arte é autobiográfica, podendo ser descrita como confessional, pois utilizo de minhas experiências para falar para o mundo sobre um tipo de prisão de gênero para contextualizar este tipo de violência. Em minha ONG Rede NAMI utilizamos o graffiti para oferecer oficinas para promover a Lei Maria da Penha e desde essa época, nosso público alvo ia além da mulher tendo trabalhado com centenas de meninos e rapazes, de maneira didática, com foco na prevenção, pois acreditamos na luta plural, conjunta, em todas as frentes.

Antes mesmo da aprovação da Lei do Feminicídio em 2015, já havia percebido que as políticas contra a violência contra a mulher não estavam dando conta da mulher negra e por isso, essas eram as que morriam mais. Por este motivo, estrategicamente, criei também em 2015 o programa AfroGrafiteiras – uma formação de 8 meses em arte urbana e feminismo negro – um projeto que além de falar da violência do machismo como fazíamos antes, se aprofundou em falar sobre racismo, tentando contribuir de forma efetiva com a reversão do quadro atual. De lá pra cá já passaram mais de 560 mulheres Afrobrasileiras, como as denominamos antes, mas esse termo caiu em desuso na Rede NAMI depois dos aprendizados do programa. A minha experiência no AfroGrafiteiras me fizeram definir a palavra negra para tratar todas as participantes, incluindo eu própria. Eu cresci como uma menina branca, em uma família branca, fui estimulada a me mimetizar toda a vida, alisando e pintando os cabelos de loiro. Me chamavam de moreninha e eu sempre acreditei não ser negra, até entender que chamar alguém de morena ou parda era uma maneira de embranquecer a pessoa e fazê-la mais socialmente aceita, estigmatizando ainda mais os negros de pele mais pigmentada. Eu comecei a me identificar com a fala das participantes do Afrografiteiras que colocavam sobre suas experiências com o racismo, e via que sofria racismo, e logo eu me identifiquei como negra também. Acredito que hoje seja mais adequado chamar alguém de negro do que de afrodescendente ou afrobrasileiro pois é mais uma nomenclatura política, de ação dos movimentos sociais na luta contra discriminação do que para designar a cor, é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo. Esse é um tema muito polémico. Com o tempo eu compreendi as questões sobre colorismo, que o fenótipo e a pigmentação da pele influi na dureza do racismo que se recebe. A leitura com que as pessoas fazem da aparência das outras e o quanto isso é o que verdadeiramente importa. Hoje pontuo a minha fala de um lugar como mulher negra privilegiada, por sofrer menos racismo do que uma mulher negra retinta e ser mais socialmente aceita. Neste ponto é sempre bom enfatizar que lugar de fala e representatividade são coisas diferentes, e eu posso sim falar a partir da minha condição, mas é importante que outras mulheres, muito mais desautorizadas a falarem do que eu, possam se colocar e representar outras em sua condição. E o meu trabalho na Rede NAMI trata justamente disso.

O Catraca Livre publicou uma matéria sobre grafiteiras negras e eu questionei o porquê que nesta lista não existiam mulheres de pigmentação mais escura. Foi quando tomei minha decisão final de colocar além da renda, o colorismo como critério principal para a seleção das candidatas ao programa AfroGrafiteiras. Ainda sim, é difícil que as mulheres retintas se inscrevam em maioria no programa, pois essas mulheres estão muito ocupadas tentando sobreviver. Todos os anos tento captar recursos para pagar a passagem e alimentação, além de tentar levar o programa para as áreas mais afastadas, facilitando assim o ingresso dessas mulheres. No projeto levamos em consideração a representatividade colocando professores e palestrantes negras, renovando a equipe da NAMI de forma a apenas contratar mulheres negras. Buscamos mulheres negras para nosso conselho. Seguimos.

O que me leva a seguir é ver que o trabalho é sério e está ajudando a mudar a situação racista da sociedade. Sinceramente minha carreira está muito bem fundamentada, e eu não precisaria gastar 50% do meu tempo com trabalho social, e muito menos focar na mulher negra. Não preciso me promover com o tema, afinal, não sou jovem como disse Fátima, e muito menos menina como colocado pela Youtube. Sou uma mulher chegando aos 40 anos com a carreira já estabelecida. Minha produção é internacionalmente reconhecida como feminista, mas não trata diretamente de etnia. Sim sou de classe média, mas nem sempre foi assim. Graças às oportunidades e investimentos que outras mulheres com este mesmo modo de pensar fizeram em mim, a maioria brancas, minha carreira de artista decolou me rendendo títulos como rainha do graffiti, Young Global Leaders do World Economic Forum e até como uma das 150 mulheres corajosas que estão mudando o mundo, segundo a revista americana Newsweek, além de outros.  Mais uma vez volto a colocar que isso se da pelo fato de eu ser mais socialmente aceita, mas ainda sim, não sou branca, e isso já foi algum passo adiante. Eu quero retribuir isso de alguma forma para que mais mulheres subvertam a posição que foram fadadas. Eu quero ir além, quero que essas mulheres sejam as menos privilegiadas. Eu sei que não posso falar por elas ou representa-las, mas posso usar minha influência para transferir poder para elas, é por isso que durante esses três anos do AfroGrafiteiras foram sempre elas que foram a cara do projeto, não eu. É por isso também que até então, nenhum dos meus trabalhos de arte falavam da questão de etnia. Minhas mulheres grafitadas são coloridas, com fenótipo similares ao meu até o momento que Vilma criou o conceito de dororidade. Eu já vinha trabalhando a Sororidade nos meus projetos de arte, e prontamente me identifiquei. Dororidade não é uma fala exclusiva da mulher negra, é uma fala de todas nós mulheres, que sofremos pelo racismo, mas que sofremos também pelo machismo. Então dororidade contempla todas nós, e dentro do meu lugar de fala, posso falar sobre dororidade pois tenho dor e esta dor me fortalece de forma política com outras. Como diz Vilma, dor é dor. O tema fala de mulheres, quando falamos de mulheres, é importante falar de todas, mesmo que de lugares de fala diferentes; e eu não posso falar de todas pintando apenas mulheres como eu. Ao me lembrar de quantas mulheres negras me pediram para representá-las na parede, pois até então se sentiam excluídas na minha arte, vi que essa era hora de dar minha contribuição mesmo sabendo que existem centenas de AfroGrafiteiras representando a mulher negra de várias formas. E essa representação não é pelo spray marrom ou preto de contorno, pois mesmo nas mulheres com fenótipos brancos, a cor de contorno em sua maioria sempre foi essa. Contorno é contorno, técnica é técnica. A representação nesta arte vem pela ideia, afinal a obra é aberta e cada um a vê e significa de acordo com suas experiências pessoais.

Dentre as demais pautas daquele programa da Fátima Bernardes, dororidade foi tema destaque, e para isso nada mais natural do que chamar a criadora do conceito para falar. Lá estava Vilma Piedade. Eu produzi uma musica, um video clipe, um mural e um projeto social sobre o tema. Foi o quê eles, orientados por Vilma, acharam de mais autêntico para mostrar. Eu tenho plena noção do privilégio que tive em alcançar uma profissionalização do trabalho para conseguir estes produtos, e por isso ali eu era a pessoa talvez com mais visibilidade para falar sobre o assunto, tirando o lugar de uma mulher retinta que não teve o mesmo privilégio e não possuí o mesmo produto pra mostrar. Mas o meu trabalho junto ao de Vilma é justamente para que negros que “que mal sabem escrever e estão preocupados em ter o que comer”, segundo a Youtuber, possam um dia estar ali falando sobre suas criações e que eu possa me ocupar em falar de outros temas poéticos da vidas que não são tão urgentes. A produção do programa teve o cuidado de me perguntar se as meninas do VT que iriam falar sobre o AfroGrafiteiras, pudessem ser as de pele mais pigmentada, já que eram sempre as mais excluídas e que no programa haveria apenas Adriana. Podemos problematizar esta colocação, mas deve haver uma sensibilidade de que ali houve um cuidado, mesmo que por muitos considerado mínimo, com a representatividade.

Existe um conflito geracional em que as meninas novas que chegam agora não respeitam a história anterior que a fez com que estas pudessem ter acesso e voz antes impensáveis. Vilma Piedade fez parte dessa história, podemos debater, mas nunca desqualificar sua fala. Desqualifica-la é uma falta de respeito. Eu e Vilma temos um trabalho sério, e não é de hoje. Construímos uma sociedade em que uma jovem negra poder ter um canal de youtube e nos criticar de tão empoderada, e ter com isso milhares de views e uma carreira. As feministas brancas talvez não tenham pensado nas negras, mas quebraram as primeiras barreiras do gênero para que possamos discutir etnia, assim como homens negros quebraram as primeiras barreiras da raça para que hoje nós pudéssemos discutir sobre gênero. É um conjunto de lutas que geraram a interseccionalidade. Sem nós, e muitas outras pessoas mais, sejam estas pretas, mestiças ou brancas isso nunca seria possível.

E sobre o título, não é porque uma coisa é ruim que ela vem da China. Na China tem muita coisa boa, ta ai o ai weiwei pra provar. Não vamos combater um preconceito fortalecendo o outro.

Panmela Castro raça etnia pintura mulher negra
Primeira pintura minha em suporte convencional a retratar a temática de raça.

 

 

Buster’s Mal Heart

filmes_12098_buster2Dois dos meus filmes favoritos são Cisne Negro e Clube da Luta, ambos com seus auges na epifania do personagem principal ao descobrir que tudo o que se passa acontece sobre uma perspectiva pessoal. Poderia dizer invenção ou até esquizofrenia, mas é a partir de Buster’s Mal Heart que posso afirmar uma construção social da verdade, que qualifica outras formas de pensar como doença e ridiculariza ideias como conspiração e terrorismo mantendo o Mito da Caverna de Platão atual mais de 25 séculos depois de escrito.

Está aí pra provar, a história ocidental européia que desqualifica a fala de seres desautorizados a terem suas histórias evidenciadas a partir de seus pontos de vista. Mulheres, negros e pobres sempre flertaram com a loucura. Se vc se opõe a ideia vigente, é encarcerado no hospício, prisão ou perambula nas ruas sendo apontado como mendigo louco.

Como não ficar louco em um modelo capitalista fadado ao fracasso onde se produz mais do que se precisa e ainda sim nem todas as pessoas têm acesso? Onde o controle é arma organizando, separando e estigmatizando o povo como na criação dos gêneros, nomenclaturas para sexualidades, castas por classe social, e até mesmo seu crédulo. De forma a manter o poder dos indivíduos no topo das classificações.

A partir daqui teremos spoiler.

Nem todos se adaptam à forma como a sociedade está organizada. Reais anarquistas são os que não suportaram a escola, sofreram com seus trabalhos, desistiram de tudo, tornaram-se andarilhos, nunca se adaptando e vivendo à margem.  Para Buster foi difícil, nem o ensino médio ele completou. Tem muitos problemas no trabalho e precisa se drogar para aguentar. Pensa em trabalhar meio período e quem sabe, até parar. Fala que não quer isso pra sua filha, mas sua esposa traz ele pra realidade onde as pessoas simplesmente não tem dinheiro para não viverem como escravas da automatização capitalista trabalhando para produzir o que você vai comprar mas não precisa, mas precisando para amenizar a amargura de ter que trabalhar para produzir tudo isso que você tem que comprar. Onde manter o ciclo é mais importante em si do que o que vc realmente precisa consumir.

A família é estrutura de base deste vício. A família o faz endividar para mantê-la. A dívida o move para produção em troca do que pague a sua dívida e mantenha a família e a atual conjuntura social reprimindo o erotismo, os desejos, sonhos, caprichos, concentrando as pessoas no trabalho e mantendo todo mundo ocupado nesse ciclo desnecessário. Bust mata a família e elimina o problema.

A dor que Bust sofria não se resolveu com a morte da família. Bust manteve seu corpo livre, porém sua mente estava presa, não, ele não era o último homem livre da terra. O momento de epifania mostrou que por mais que criasse suas ideias conspiratórias em um cenário onde um outro teria cometido esse crime, Bust desiste ao sentir a dor de simplesmente existir.

Você acompanha uma história e cria seu entendimento. Cada um analisa de acordo com suas experiências. Desdobramentos dos fatos e pontos de vistas divergentes envolvem a democracia mundial e o que chamamos de fake news é a prova que diversos pontos de vistas dados por pessoas diferentes podem existir comitantemente. Afinal o que é a verdade?

Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Porquê Emicida me Deixa Triste

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Uma vez eu falei assim para a Lívia Cruz: “- Para que tá feio amiga.” Ela me esculhambou. Eu não fiz nada.

Eu não fiz nada porquê já fiz muito. Já xinguei, fui homofóbica, racista, falei mal e até bati nos outros. Mas chegando à casa dos 40, a gente vê  que a gente muda e muda o mundo. E eu, escolhi mudar buscando formas mais assertivas.

Quando eu vejo o Emicida usar seu poder para desqualificar essas meninas, eu fico triste. Eu vi a molecada do rap chegar ao poder. Acreditei que eles iam transformar a sociedade. O quê em parte é verdade. Mas em uma análise nem tão profunda, identifico falas contra a luta de classes e o racismo, mas apenas um corpo-instrumento quando pensamos na manutenção do Patriarcado, afinal são homens e essa conjuntura os favorece.

A Flora é foda. Artista completa … personalidade difícil. Criou uma metáfora linda com Preta de Quebrada, mas cismou que não era só música, que era vida. A auto identificação racial pode ser válida no Brasil. Temos que entender a construção da identidade do sujeito, mas o sujeito também tem que entender, que o colorismo, a maneira como o outro te lê, é o que vai fazer que você seja desqualificado, inferiorizado e marginalizado, sujeito ao preconceito, exclusão, jogado ao campo do não privilégio. E a leitura que fazemos de Flora é, que ela é branca. Privilegiada. Mas o Emicida também fez Trepadeira, uma música que além de incitar a violência contra a mulher, a deprecia pela sua livre sexualidade e ainda direciona para as pretas: Afinal a nega é a trepadeira. O Emicida assentou a mulher negra naquele velho estereótipo hipersexualizado. Isso me lembrou quando Livia e Sweet também fetichizaram os homens negros, e Emicida, criticou. Criticou e se casou com uma branca abandonando a ex companheira porque, ao meu ver, não importa ali dar moral à mulher negra (aquela hipersexualizada que serve pra cama mas não pra sociedade), embarcar no jogo do Patriarcado exibindo como status uma mulher bem padrão, como um prêmio, um objeto que vc adquire, o faz pertencer ao poder.

Porquê mulher negra não faz história, afinal foi isso que ele disse no post apagado no perfil da Nega Rê. Na época ele não fez aquele típico jogo de batalha (Link da batalha), ele à hostilizou em um nível alto de misoginia, falando do (e pegando no) cabelo (Tópico tão delicado para as negras), chamando de feia e ao final, afirmando a mulher negra merecedora de seu papel como diarista, aquela que pertence à senzala. Mesmo de etnia similares, o Emicida enquanto homem terá dificuldades de entender  os processos que param as mulheres em suas carreiras e ele vai achar que venceu por talento, porquê é um iluminado divino, porquê tinha que ser.  O Emicida não vai levar em consideração que as ultimas falas que ele usou pra desqualificar essas meninas, para acentuar e promover seus erros, são discursos (Veja Eva e Pandora) feitos desde que o mundo é mundo para colocar as mulheres em seus lugares: submissas como escadas para que os homens alcancem o sucesso.

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Porém foi-se o tempo em que todas nós éramos escravas coniventes com nossos senhores. Hoje a gente questiona, debate. E, não venha me dizer que somos agressivas, loucas e descontroladas, pois diante de tanta violência que passamos em todos os processos de nossa vida, estas são reações. Malcom X pegou em armas, Mather Luther king optou pelo diálogo. Nós feministas, temos sim também muitas formas de pensar e lutar. Apesar de canalizar minhas energias para o pacifismo, não julgo essas mulheres que pegam em armas.

Se eu tivesse a oportunidade de falar algo com o Emicida, eu diria para ele deixar com nois. Deixa que a gente se entende, se mistura, se conversa e se educa. Briga também se tiver que brigar. Mas deixa a gente. Não precisamos de mais um homem, seja ele branco ou negro, nos criticando, dizendo se estamos certas ou erradas e nos dizendo mais uma vez como devemos ser.

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