Vamos Combinar de não nos ferir (Celebrando a ArtRio)

Falando sobre o RACISMO me despeço celebrando o sucesso q foi participar da ArtRio ao lado de minhas alunas, parceiras e equipe.

Ñ q racismo caiba na mesma sentença q celebração mas é q ontem estive muito feliz, e fui minada por uma irmã q me desqualificou.

Sei q todo dia gritamos um “Eu estudei” para a branquitude q nos boicota com seus “achismos”. Mas é q as vezes nem percebemos q estamos gritando com nós mesmas.

Talvez não sejamos tão irmãs, afinal, as experiências com o colorismo nos diferenciam.

Mas enfim, irmã não me diga q estudou para me desqualificar. Na casa dos 40, tenho um extenso currículo q minha simplicidade esconde.

Só de Rede NAMI são 10 anos trabalhando com as pautas decoloniais muito antes da maioria.

Se tivermos em uma feira, fomos destaque na mídia e viralizamos na internet com posts de Taís Araujo à Iza; Se vendemos 80% de nossas obras: Se artistas consagrados nos doaram obras sorrindo; Se estalei três obras de nossas artistas (alunas!), trans, negras para a coleção do MAR; Se colocamos em destaque uma menina com deficiência que agora sabe q é artista: tudo isso foi pq estudei.

E não só estudei artes, gênero e etnia, mas fui reconhecida pelo meu empreendedorismo em nomeações da ONU, Wold Economic Fórum e Folha de São Paulo. Eu estudei Business.

Ainda que eu acredite na sabedoria de quem não teve acesso à educação formal, tive q lançar o bacharelado e o mestrado em artes (UFRJ/UERJ) pra ter alguma legitimação. Me formei em Publicidade e Propaganda na mesma escola de Portinari (Liceu de Artes e ofícios fundado em 1856). Sou pós graduanda em diretos humanos, cidadania global e responsabilidade social com Angela Davis de professora e com quem já jantei ao lado em Princetown.

Não sei se vc sabe mas sou especialista em gestão de empresas de responsabilidade social e políticas afirmativas, entre outras coisas mais.

Amiga tb estou cansada de ter q falar meu currículo pras pessoas acreditarem q eu tenho algum valor. Eu te entendo. Então vamos combinar eu e vc, de não fazer isso entre nós mesmas.

Eu te amo. ❤️

Momento tão lindo de intimidade com o curador Paulo Herkenhoff defendendo o trabalho de minhas artistas e lançando-as na história na coleção do MAR.

📸 Foto de capa: Alunas, parceiras e equipe da Rede NAMI em nossa obra “Luz Negra” da artista Mônica Ventura a partir de frase de Juliana Borges.

Exposição Enciclopédia Negra

Parte do projeto Enciclopédia Negra, com livro publicado pela editora Companhia das Letras e organizado por Lilia M. Schwarcz, Flávio Gomes e Jaime Lauriano, a exposição inaugurada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo destaca personalidades negras que não foram representadas pela história hegemônica do Brasil.

Black Encyclopedia Exhibition

Part of the Enciclopédia Negra project, with a book published by Companhia das Letras and organized by Lilia M. Schwarcz, Flávio Gomes and Jaime Lauriano, the exhibition inaugurated by the Pinacoteca de São Paulo highlights black personalities who were not represented by the hegemonic history of Brazil.


A Pinacoteca do Estado de São Paulo, uma das mais reconhecidas instituições de arte do Brasil, inaugurou no dia 1º de maio a exposição Enciclopédia Negra, derivada do livro homônimo organizado pelos pesquisadores Lilia M. Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes e pelo artista Jaime Lauriano. A curadoria da mostra foi organizada pela equipe do projeto Enciclopédia Negra e pela equipe da Pinacoteca de São Paulo.

O livro apresenta a biografia de mais de 500 personalidades negras que foram apagadas da história do Brasil, divididas em centenas de verbetes individuais e coletivos. A mostra então convida 36 artistas da cena contemporânea para dar cor, corpo e voz a essas biografias apagadas pela história.

A artista Panmela Castro (@panmelacastro), fundadora da Rede Nami (@redenami) e representada atualmente pela Galeria Luisa Strina, participa da exposição com 5 obras: Catarina Cassange (presente no livro), Lourença Correia, Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva, Felipa Maria Aranha e Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas.

“Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas”, acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca.
“Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas”, acrylic on canvas, 20 x 28 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca.

As histórias contadas através das pinturas de Panmela retratam escravizados que criaram um clube de leitura no pleno fervor da abolição, sobre mulheres capoeiristas, líderes quilombolas, revolucionárias e desafiantes das imposições binárias de gênero. Através desses questionamentos, a artista identifica nessas biografias vivências que fazem parte não só de sua trajetória, mas também de tantas outras que desafiam o racismo e o machismo cotidianamente no Brasil.

A exposição permanece na Pinacoteca até o dia 8 de novembro, com ingressos gratuitos, e após esse período todas as obras passam a integrar o acervo permanente da instituição. O livro Enciclopédia Negra pode ser encontrado no site da editora Companhia das Letras, que entrega para todo o Brasil.

“Mathias Henrique da Silva e Faustino Da Silva”, acrílico sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Mathias Henrique and Faustino Da Silva Paiva”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca
“Catarina Cassange”, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Catarina Cassange”, oil on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca

EN

The Pinacoteca de São Paulo, one of the most recognized art institutions in Brazil, inaugurated on May 1st the exhibition Enciclopédia Negra, derived from the homonymous book organized by Lilia M. Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes and Jaime Lauriano. The exhibition’s curatorship was organized by the Enciclopédia Negra project team and by the Pinacoteca de São Paulo team.

The book presents the biography of more than 500 black personalities that were erased from the history of Brazil, divided into hundreds of individual and collective entries. The exhibition then invites 36 artists from the brazilian contemporary art scene to give color, body and voice to these forgotten biographies.

The artist Panmela Castro (@panmelacastro), founder of Rede Nami (@redenami) and currently represented by Galeria Luisa Strina, participates in the exhibition with 5 works: Catarina Cassange (present in the book), Lourença Correia, Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva Paiva, Felipa Maria Aranha and Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas.

“Lourença Correia”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Lourença Correia”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca
“Felipa Maria Aranha”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Acervo Pinacoteca
“Felipa Maria Aranha”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Acervo Pinacoteca

The stories told through Panmela’s paintings portray enslaved people who created a reading club in the full fervor of abolition, about capoeirista women, quilombola leaders, revolutionaries and challengers of the binary impositions of gender. Through these questions, the artist identifies in these biographies experiences that are part not only of her path, but also of many others that challenge racism and misogyny on a daily basis in Brazil.

The exhibition remains at the Pinacoteca until the 8th of November, with free tickets, and after this period all the works will be part of the permanent collection of the institution. The book Enciclopédia Negra can be found on the website of the Companhia das Letras publishing house, which it delivers throughout Brazil.

Imagem de Capa: Livraria Baleia | Cover image: Livraria Baleia

Lourença Correia (Enciclopédia Negra)


Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Lourença Correia (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Lourença Correia 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Lourença Correia 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Lourença Correia era uma escravizada que morava na cidade do Rio de Janeiro e que trabalhava para o sargento-mor Antônio de Figueira e Almeida, de quem também era concubina. Devido a esta ligação, ela era diariamente castigada pela esposa de seu senhor, Isabel, que, ao mesmo tempo, insistia para que o marido promovesse o casamento da escravizada com algum negro da casa.

Em 1739, Lourença uniu-se ao negro Pedro Benguela, cativo do mesmo sargento. No entanto, e ao que tudo indica, continuou amante de seu senhor, e assim não se livrou das perseguições e castigos da esposa deste.

Não aguentando a pressão, Lourença fugiu para São João do Meriti (RJ), onde se casou com um escravizado chamado Amaro. Foi, porém, acusada de bigamia pelo Santo Ofício, e presa pela instituição em 1745.

Defendeu-se junto ao inquisidor com o argumento de que sua primeira união se dera unicamente pela vontade da esposa de seu senhor, mas não teve sucesso e foi condenada ao degredo em Angola, onde morreu.

EN

Lourença Correia was a slave who lived in the city of Rio de Janeiro and who worked for sergeant-major Antônio de Figueira e Almeida, of whom she was also a concubine. Due to this connection, she was punished daily by her master’s wife, Isabel, who, at the same time, insisted that her husband arrange a marriage of the enslaved woman to some black man in the house.

In 1739, Lourença married Pedro Benguela, a captive of the same sergeant. However, and by all appearances, she remained her master’s lover, and thus did not free herself from the persecutions and punishments of his wife.

Not withstanding the pressure, Lourença fled to São João do Meriti (RJ), where she married an enslaved named Amaro. She was, however, accused of bigamy by the Holy Office, and arrested by the institution in 1745.

She defended herself with the inquisitor arguing that her first union had taken place merely  by the will of her lord’s wife, but she was unsuccessful and was sentenced to an exile in Angola, where she died.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

Catarina Cassange (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Catarina Cassange (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Catarina Cassange 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, óleo e carvão sobre tela, 120 x 90 x 08 cm, 2021. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 07”, oil and charcoal on canvas, 48 x 36 x 03 in, 2021. Image: Edouard Fraipont

Catarina Cassange, 1838, Rio de Janeiro

Em 1906 Machado de Assis publicaria o conto “Pai Contra Mãe” editado em seu livro Relíquias da Casa Velha. Já havia passado dezoito anos do fim da escravidão e ele parecia querer ironizar os ofícios e dilemas morais que aquela sociedade tinha criado e talvez não tivesse desaparecido. Não mais escravos fugidos e seus perseguidores, mas mães e pais aflitos. No seu drama literário – numa data fictícia de 1850 – surgiria Cândido das Neves, homem “branco” muito empobrecido que estava prestes a entregar seu filho recém nascido à “Roda dos Expostos”. Para conseguir recursos investiria na captura de escravos fugitivos, apelando para os anúncios de jornais que abundavam na imprensa carioca urbana. Tentaria capturar Arminda, escravizada nascida no Brasil, que tinha fugido exatamente por estar grávida. Afora romances e ficção não poucas mulheres negras escravizadas optaram por fugir no momento da gravidez, tentando tanto ter um parto mais tranquilo como impedir que a sua prole continuasse escravizada ou mesmo fosse separada por venda senhorial. Seis ou mais tempo de fugida poderia proporcionar a muitas mulheres negras uma estratégia para livrar seus filhos do cativeiro ou mesmo acionar a sua comunidade negra na hora do parto e nos momento iniciais da vida de seus filhos.

Catarina Cassange foi uma dessas. Suas estratégias puderam ser acompanhadas por vários anúncios entre 1838 e 1839. Seu proprietário, Manoel da Rosa, anunciou no Diário do Rio de Janeiro que ela tinha escapado estando grávida de quatro meses. Tal qual os anúncios da época seria descrito seu corpo e comportamento. O primeiro anúncio da sua escapada foi seguido por pelo menos mais três anúncios num espaço de quatro meses. Mesmo sem conseguir capturá-la,  conseguiam-se informações sobre o seu paradeiro. Conhecida como preta ao ganho, uma vendedora costumava circular pela praia do Valongo e pela Rua do Livramento, onde se concentravam muitos africanos. Poderia inclusive ter sido seduzida. Um mês depois do primeiro anúncio, seria publicado outro anúncio dizendo que Catarina – com ajuda de sedutores – estaria tentando seguir até Minas Gerais. Em mais um anúncio foi dito que ela estava passando as noites escondida em barcos ancorados e já estaria em adiantada gravidez. Catarina conseguiu ficar um ano refugiada, só sendo capturada no final de 1839. Revelou que tinha andado por muitos lugares da cidade e do recôncavo da Guanabara. Quem mais tinha a ajudado foi o liberto Aleixo, um africano Mina que tinha o ofício de barbeiro. Durante um bom período ele escondeu Catarina em sua casa na Rua dos Ferradores. Com apoio de vários acoitadores e proteções provisórias, Catarina conseguiria ter o seu filho – de nome José – sendo inclusive levada para as proximidades do “quilombo de Laranjeiras”.

“Catarina Cassange 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 03”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Catarina Cassange 04”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

EN

In 1906 Machado de Assis published the short story “Pai Contra Mãe” published in his book “Relíquias da Casa Velha”. Eighteen years had passed since the end of slavery and he seemed to want to mock the trades and moral dilemmas that society had created and perhaps had not disappeared. No longer runaway slaves and their pursuers, but grieving mothers and fathers. In his literary drama – on a fictional date of 1850 – Cândido das Neves appeared, a very impoverished “white” man who was about to hand over his newborn son to the “Roda dos Expostos”. To obtain funds, he would invest in the capture of fugitive slaves, appealing to newspaper advertisements that abounded in the urban Rio press. She would try to capture Arminda, an enslaved woman born in Brazil, who had fled precisely because she was pregnant. Aside from novels and fiction, not a few enslaved black women chose to flee at the time of pregnancy, trying both to have a more peaceful birth and to prevent their offspring from continuing enslaved or even being separated by lordly sale. Six or more fugitive time could provide many black women with a strategy to free their children from captivity or even trigger their black community at the time of delivery and early in their children’s lives.

Catarina Cassange was one of those. Her strategies could be accompanied by several advertisements between 1838 and 1839. Its owner, Manoel da Rosa, announced in the Diário do Rio de Janeiro that she had escaped by being four months pregnant. Just like the advertisements of the time, his body and behavior would be described. The first announcement of her getaway was followed by at least three more announcements within four months. Even without being able to capture her, information about her whereabouts was obtained. Known as “preta ganha”, a saleswoman used to walk around Valongo beach and Rua do Livramento, where many Africans were concentrated. She could even have been seduced. A month after the first announcement, another notice would be published saying that Catarina – with the help of seducers – would be trying to follow to Minas Gerais. In one more advertisement it was said that she was spending the nights hiding in anchored boats and would already be in an advanced pregnancy. Catarina managed to stay a year as a refugee, only being captured at the end of 1839. She revealed that she had walked through many places in the city and in the Guanabara region. The one who had helped her the most was the freed Aleixo, an African Mina who had the trade of a barber. For a long time he hid Catarina in his house on Rua dos Ferradores. With the support of several bailers and provisional protections, Catarina would manage to have her son – named José – even being taken to the vicinity of the “quilombo de Laranjeiras”.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; SOARES, Carlos Eugênio Libano; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flávio dos Santos.  Cidades Negras: Africanos, crioulos e espaços urbanos no Brasil Escravista. São Paulo, Alameda, segunda edição, 2006

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Ana, Deolinda e Isabel, capoeiristas”, acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Ana, Deolinda and Isabel, capoeiristas”, acrylic on canvas, 20 x 28 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Verbete

Até praticamente a década de 1850 havia uma “capoeira escrava” com o perfil de africanos – destacadamente os africanos centro-ocidentais – e a população negra livre. No último quartel Oitocentista ele se prolifera com força e rapidez para vários centros urbanos, mobilizando a prática de pessoas livres, considerados brancos e mesmo letrados.  

Mulheres capoeiristas no século XIX? Quase cena surrealista, a edição do Jornal do Comércio de 26 de janeiro de 1878 noticiava que algumas “pretas” tinham sido presas por capoeiras. Na rua do Riachuelo acabaram capturadas três mulheres sob acusação de “peritas na capoeiragem”. Com o adjetivo de “destemidas” foram detidas as mulheres negras livres Isabel Maria da Conceição – conhecida vulgarmente como Nenê – Ana Clara Maria Andrade, juntamente com a escravizada Deolinda, pertencente ao Doutor Bandeira de Gouveia. Na ocasião da abordagem policial estavam todas em “renhida luta”, desafiando pedestres e depois as próprias autoridades. Identificada como prática – luta, ritual e dança – associada às grandes cidades atlânticas e à população negra, entre livres, africanos, escravizados e nascidos no Brasil – a capoeira e os “capoeiras” se proliferaram entre o final do século XVIII e ao longo do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Não se sabe com estas práticas se desenvolveram, repercutiram e alcançaram várias regiões brasileiras, junto aos setores livres e não-negros, como imigrantes no Rio de Janeiro, por exemplo.

No Rio de Janeiro, a cidade estava cheia de escravizados ao ganho, participantes do mercado de rua e também de capoeiras. Fica difícil imaginar cenários onde mulheres quitandeiras podiam ser também capoeiristas. O certo é que a cidade vai armar diariamente vários cenários onde música, alimentação, trabalho e cultura vão juntar experiências, produzindo outras. Na época em que as “peritas” e “destemidas” mulheres capoeiristas foram presas, o Rio de Janeiro já era dividido – territórios com cores de insígnias e distinção – em dois grandes grupos (subdivididos em maltas) de capoeira, alardeados em versos, suspeitos de usos políticos no jogo eleitoral e celebrizados em alguns romances: Nagoas e Guaiamuns. Não muito mais sabemos sobre as mulheres noticiadas em 1878. Fariam parte de algumas das conhecidas maltas: Três Cachos, Cadeira de Senhora, Espada, ou a principal, Flor da Gente? Indagações a espera de mais pesquisas. 

Mulheres negras na capoeira no século XIX sugerem pensar experiências envolvendo cultura e gênero bem mais antigas do que o estágio atual, no qual os capoeiristas e as práticas da capoeira alcançam mais de 200 países, entre homens, jovens, mulheres e crianças. Para a Bahia e a cidade de Salvador – locais onde a capoeira e vários mestres ganharam distinção e prestígio ao longo do século XX – aqui ou acolá há mais evidências de mulheres participando da capoeira como ritmistas, praticantes, aprendizes e desafiantes de lutas e combates.    

EN

Capoeirista women in the 19th century? Almost a surrealist scene, the January 26, 1878 edition of Jornal do Comércio reported that some “black women ” had been arrested for capoeira. In Rua do Riachuelo, three women were captured on charges of “experts in capoeiragem”. With the adjective “fearless”, free black women Isabel Maria da Conceição – commonly known as Nenê – Ana Clara Maria Andrade were arrested, along with the enslaved Deolinda, belonging to Dr. Bandeira de Gouveia. At the time of the police approach, they were all in a “hard fight”, defying pedestrians and then the authorities themselves. Identified as a practice – fight, ritual and dance – associated with large Atlantic cities and the black population, among free, African, enslaved and Brazilian-born people – capoeira and the “capoeiras” proliferated between the end of the 18th century and throughout the nineteenth century, especially in Rio de Janeiro, Salvador and Recife. It is not known how these practices developed, reverberated and reached various Brazilian regions, along with free and non-black sectors, such as immigrants in Rio de Janeiro, for example.

Until almost the 1850s, there was a “slave capoeira” with the profile of Africans – especially the Central-West Africans – and the free black population. In the last 19th century quarter, it proliferated with force and speed to various urban centers, mobilizing the practice of free people, considered white and even literate.

In Rio de Janeiro, the city was full of slaves to gain, street market participants and also capoeiras. It is difficult to imagine scenarios where “quintandeira” women could also be capoeiristas. What is certain is that the city will daily set up various scenarios where music, food, work and culture will join experiences, producing new ones. At the time when the “experts” and “fearless” capoeirista women were arrested, Rio de Janeiro was already divided – territories with insignia colors and distinction – into two large groups (subdivided into “maltas”) of capoeira, trumpeted in verse, suspects of political uses in the electoral game and made famous in some novels: Nagoas and Guaiamuns. We don’t know much more about the women reported in 1878. Would they be part of some of the well-known packs: Três Cachos, Lady’s Chair, Sword, or the main one, Flor da Gente? Inquiries waiting for more research.

Black women in capoeira in the 19th century suggest thinking about experiences involving culture and gender that are much older than the current stage, in which capoeiristas and the practices of capoeira reach over 200 countries, including men, young people, women and children. For Bahia and the city of Salvador – places where capoeira and various masters gained distinction and prestige throughout the 20th century – here or there there is more evidence of women participating in capoeira as rhythmists, practitioners, learners and challengers of fights and combats.

Visitante observando obras de Panmela Castro na Exposição Pinacoteca Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing works by Panmela Castro at the Pinacoteca Negra Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A Negragada Instituição. Os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994.

Exposição A Máquina Lírica

Galeria Luísa Strina, curadoria de Pollyana Quintella, setembro de 2021.

Uma mulher nua de longos cabelos cheios que caminhava na madrugada como uma bruxa logo se tornou lenda folclórica no vilarejo de Olhos D´água em Goiás.

Este conto não se trata de um delírio coletivo de alguns poucos privilegiados que venham a ter flagrado a cena, ou de outros que tenham repetido vê-la para pertencerem à lenda. O delírio aqui é auto-referente e dá nome às quatro fotografias exibidas na exposição “ A Máquina Lírica” de curadoria de Pollyana Quintella apresentada na Galeria Luisa Strina a partir deste setembro de 2021.

Após um ano de isolamento social, eu, que vivo só, decido viver na casa das pessoas e cria a Série Residência. Antes de ir morar no pequeno vilarejo na casa de Lu, mãe de Jandira (ativista social, amiga de longa data, e uma das fundadoras da Rede NAMI)  faço quarentena no Núcleo de Artes do Centro Oeste (NACO).

Sozinha no espaço da residência, produzo uma nova série de Penumbras em um dia de ritual de Lua Cheia. Desdobramento de antigas séries como “Opressão (2009)”, a série Penumbra toma corpo na solitária quarentena de 2020 no ateliê, em experimentações de fotografias de longa exposição.

Penumbra é mais um dos conjuntos de obras que tratam sobre a afetividade da mulher negra, a partir de minhas próprias vivências com o racismo e machismo, sexualização do corpo negro, estigmas, e a realidade de dados do IBGE que mostram que tal prática estrutural lança mulheres negras na pobreza, liderando suas famílias, sem companheiros de longo prazo para ajudar a sustentar a casa (Mulher Negra: Afetividade e Solidão – Pacheco, Ana Cláudia Lemos – 2013).

Apesar de aparentar muitos privilégios hoje, sou de uma geração que teve que abdicar de construir uma família para construir uma carreira e ter o mínimo de qualidade de vida. Afinal, como uma mulher afastada do padrão europeu “para casar”, dificilmente manteria um companheiro para me ajudar com os filhos, e isso me impediria de seguir em minha profissão, me enterrando de vez na falta de privilégios e pobreza.

Ser uma mulher aos quarentas vivendo sozinha isolada durante uma pandemia, apesar dos confortos de poder me manter sem mais dificuldades, não é um privilégio pleno de vida. Assim como ser tachada de Bruxa em uma cidadezinha do interior, reafirma a urgência da necessidade de desestigmatizar corpos como meu. Penumbra é sobre isso, desconstruir seu olhar sexualizado adiante de uma mulher que sofre com a dor de se estar só, entre tantos outros pontos problemáticos que esse conjunto de fotografias escolhidas por Polly tem a pontuar.

A curadora Pollyana Quintella já fazia parte do conjunto de pessoas com que eu me identificava nos pontos de interesses a cerca da arte e visão de sociedade, além de uma ligação intuitiva sobre sua presença como pessoa no mundo. Alinhadas em todos os amplos sentidos que a vida pode ter para nós, foi fácil logo de primeira encontrarmos no conjunto “Culto Auto-Referente” a confluência entre nossos interesses de pesquisa.

Polly pensa para a exposição, a nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção (Leia o texto de Poli sobre a exposição). Tipo de deliro que venho atravessado em minhas residências nas casas das pessoas, tentando identificar objetos e situações como sinais e marcos, mas q por fim não passam de delírios de referências, sendo descritos na Wilkpédia como um tipo de fenômeno de um indivíduo que está experimentando coincidências e acreditando que elas têm um forte significado pessoal, uma noção de que tudo o que se percebe no mundo relaciona-se com o próprio destino.

É neste ponto que volto ao debate sobre afetividade e a busca a todo custo por pertencer a algo, e ser amada; onde a rejeição e solidão, me confunde em não conseguir distinguir se meus prejuízos são fruto do preconceito que me cerceia, ou meras situações pessoais.

Esta é apenas uma introdução para muitos desdobramentos de minha produção, que apesar de pessoal, se torna política ao ter milhares de mulheres se identificando e se questionando sobre essas as mesmas sensações e percepções.

A exposição “ A Maquila Lírica” pode ser conferida até o final deste mês que abre a 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro mas eu canto, e conta com os artistas Anis Yaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli.

Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva Paiva (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva Paiva (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Mathias Henrique e Faustino Da Silva 01”, acrílico sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Mathias Henrique and Faustino Da Silva 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Verbete

Um clube de leitura organizado por e para escravizados? Em plena década da Abolição? Estas seriam as notícias vindas do interior de São Paulo. Os escravizados Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva assinariam uma carta – publicada em vários periódicos de Minas Gerais – na qual solicitavam contribuições, especialmente envio de exemplares para o clube de leitura que tinham.

Em 1882, tal notícia — quase transformada em pilhéria, posto que considerada provavelmente surrealista e ao mesmo tempo verossímil e ameaçadora – era publicada nos periódicos mineiros “O Baependyano” e “O Colombo” que mencionavam a existência de um clube de leitura criado por abolicionistas em Bragança Paulista, não muito distante de Itu. Os signatários da carta — Mathias Henrique da Silva e Faustino da Silva – não eram apenas escravizados letrados, mas respectivamente presidente e secretário desta iniciativa abolicionista. Bem antes já tinham surgido notícias de associações abolicionistas que estavam estabelecendo cursos noturnos de alfabetização para escravizados libertos e seus descendentes. Desde a década de 1870 em várias partes do Brasil foi comum notícias semelhantes, embora não conseguimos ainda medir o alcance destas várias iniciativas e o número de negros e negras envolvidos.

Em Bragança Paulista a coisa tinha começado através de abolicionistas — ligados ao jornal “O Guaripocaba”  — que tinham estabelecido escolas noturnas para pobres livres. Não muito esporadicamente, muitos libertos e filhos destes – além dos próprios escravizados – sempre procuravam por tais espaços e oportunidades. Alguns setores abolicionistas podiam mesmo estar interessados em fomentar leitura e alfabetização para escravizados.  Na organização do Clube Literário de escravos em Bragança havia turmas noturnas que contavam com o apoio de abolicionistas locais e professores voluntários. Daquele jornal – com sua face  positivista e participação maçônica local — setores brancos ajudariam na propaganda e na ampliação da iniciativa. O Clube de Bragança, fundado entre 1881 e 1882, funcionaria numa casa modesta no centro da cidade, chegando a ter cerca de 40 crianças. A novidade ficaria por conta da direção deste club, contando com escravizados à frente.

Quais as expectativas destes escravizados com tal Clube de Leitura? O que isso significava diante num contexto onde se acusavam abolicionistas e monarquistas de manipularem os escravizados nas campanhas abolicionista e republicana? Ensinar os escravizados a ler para que eles participassem dos debates era um dos recados republicanos ao noticiar tais iniciativas. Só que escravizados não precisavam exatamente de letramento para fazer avaliações políticas da atmosfera em que viviam. A carta do Clube de Leitura, enviada para as redações dos jornais e a assinatura de signatários escravos — portanto já alfabetizados suficientemente — sugerem pensar mediações e símbolos nos enfrentamentos e mobilização negra. A carta publicada nos jornais falava – num tom autoral dos próprios escravizados – que eles eram “aviltados por sua abjeta condição” estando “eliminados do seio da humanidade e equiparados aos mais ínfimos animais”, portanto eram a “mancha negra do nome brasileiro”. Embora “sem pátria e sem liberdade” considerados “párias errantes” e “renegados de uma civilização” avaliavam que o letramento era a única solução, qual seja “que a instrução é o único meio possível” sendo isso “o motivo da fundação do Clube Literário dos Escravos em Bragança”. Os escravizados estavam dispostos a investir em “inauditos esforços empregados nas horas de descanso” no presente para fugir das “misérias de uma vida” no futuro. Atualizando o debate que falava de manipulação política e desinteresse dos fazendeiros pelo destino dos ex-escravos garantiam:  a “instrução é um preventivo necessário para os males sociais, que podem resultar da emancipação”. Afirmavam mesmo que era a “educação” que tinha que preparar a “liberdade”.

EN

A reading club organized by and for the enslaved? In the middle of the Abolition decade? These would be the news coming from the countryside of the state of São Paulo. The enslaved Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva would sign a letter – published in several periodicals in Minas Gerais – in which they requested contributions, especially sending copies to their reading club.

In 1882, this news – almost turned into a joke, since it was probably considered surrealist and at the same time credible and threatening – was published in the Minas Gerais periodicals “O Baependiano” and “O Colombo” that mentioned the existence of a reading club created by abolitionists in Bragança Paulista , not far from Itu. The signatories of the letter – Mathias Henrique da Silva and Faustino da Silva – were not only enslaved scholars, but respectively president and secretary of this abolitionist initiative. Long before, there had already been news of abolitionist associations that were establishing night literacy classes for the enslaved, freed and their descendants. Since the 1870s in various parts of Brazil similar news has been common, although we have not yet been able to measure the reach of these various initiatives and the number of black men and women involved.

In Bragança Paulista, the thing had started with abolitionists – linked to the newspaper “O Guaripocaba” – who had established night schools for the free poor. Not very sporadically, many freedmen and their children – in addition to the enslaved themselves – always looked for such spaces and opportunities. Some abolitionist sectors might even be interested in promoting reading and literacy for the enslaved. In the organization of the Slaves’ Literary Club in Bragança, there were night groups that had the support of local abolitionists and volunteer teachers. From that newspaper – with its positivist face and local Masonic participation – white sectors would help in the propaganda and expansion of the initiative. The Club of Bragança, founded between 1881 and 1882, would operate in a modest house in the center of the city, having around 40 children. The novelty would be on account of the direction of this club, with enslaved people in front.

What are the expectations of these enslaved with such a Reading Club? What did this mean in a context where abolitionists and monarchists were accused of manipulating the enslaved in the abolitionist and republican campaigns? Teaching the enslaved to read so that they could participate in the debates was one of the republican messages when reporting such initiatives. But enslaved people didn’t exactly need literacy to make political assessments of the atmosphere in which they lived. The letter from the Reading Club, sent to the newsrooms of the newspapers and the signature of slave signatories – therefore already sufficiently literate – suggest thinking about mediations and symbols in the confrontations and black mobilization. The letter published in the newspapers spoke – in an authorial tone of the enslaved themselves – that they were “degraded by their abject condition” being “eliminated from the bosom of humanity and equated with the tiniest animals”, therefore they were the “black spot of the Brazilian name”. Although “without a homeland and without freedom” considered “wandering outcasts” and “renegades of a civilization” they assessed that literacy was the only solution, namely “that education is the only possible means” being this “the reason for the foundation of the Club Literary of Slaves in Bragança”. The enslaved were willing to invest in “unheard of efforts employed in hours of rest” in the present to escape the “miseries of a lifetime” in the future. Updating the debate that spoke of political manipulation and the lack of interest of farmers in the fate of ex-slaves, they guaranteed: “instruction is a necessary preventive for social ills that can result from emancipation”. They even claimed that it was “education” that had to prepare “freedom”.

Visitante observando obra de Panmela Castro na Exposição enciclopédia Negra na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Visitor observing the work of Panmela Castro at the Black Encyclopedia Exhibition at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MACHADO, Maria Helena & GOMES, Flávio dos Santos. “Eles ficaram ’embatucados’: seus escravos sabiam ler. Abolicionistas, senhores e cativos no alvorecer da liberdade. In: Mac CORD, Marcelo; ARAUJO, Carlos Eduardo Moreira de; GOMES, Flavio dos Santos. (Org.). Rascunhos Cativos. Educação, Escolas e Ensino no Brasil Escravista. 1ed.Rio de Janeiro: 7Letras, 2017, pp. 253-283.

SILVA, Jacinto da. No Tempo da Escravidão: experiências de senhores e escravos em Bragança Paulista (1871-1888). Dissertação de Mestrado, Departamento de História, PUC-SP, 2009

Mari katayama: Aonde estão os artistas com Deficiência?

Acompanhamos o desfile dos atletas paraolímpicos, mas é nas artes que eu me pergunto aonde estão os profissionais com deficiência?

Há tempo já planejamos como nossas exposições podem ser inclusivas, mas e o que está sendo exposto? É inclusivo e representativo também?

Assim como nos últimos tempos pensamos na participação de mulheres, negros, indígenas e LGBTQI, porque não estamos pensando a inclusão de artistas com deficiência nessas exposições?

De memória, por tudo o que estudei na história da arte, só me vem a famosa Frida kahlo e o pós impressionista de Toulouse-Lautrec de imediato, e dos museus e galeria nas quais visitei nos últimos anos andarilha pelo mundo, apenas uma artista com deficiência conheci e que por definitivo eu me apoiaxonei.

Marcelle Lender dançando no Bolero em Chilperic, Toulouse-Lautrec (1895)
Autorretrato com o retrato do Doctor Farill, Frida Kahlo (1951)

Essa não é uma história de superação. É a história de vida de mais uma pessoa normal construindo coisas neste mundo. Estudando, trabalhando, casando e, tendo filhos. Conheci Mari katayama em um curso da Daniela Labra e em 2019, tive o emocionate momento único de visitar sua sala durante a Bienal de Veneza, se não, a principal mostra de arte do mundo, certamente a que expõe a tendência para os próximos anos.

E certamente é tendência não fazer pela pessoas com deficiência, mas criar políticas afirmativas e providenciar tecnologias assistivas para que este grupo possa ser autônomo, realizando seus desejos, vivendo com qualidade de vida e ocupando todos os espaços possíveis, incluindo o das artes visuais, seja como produtores, curadores, artistas e outros profissionais.

Mari Katayama “bystander #016” (2016).
Thus I Exist #2 (2015)

Vc conhece quem são essas pessoas da área?

Me conte.

Retrato Retrato de Suka

Retrato Relato de Suka, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2021

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porque. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porque.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio a memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.


Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Retrato Relato de Ana Coutinho

Olá Panmela, boa noite 


Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.



Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.


Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. As vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.


Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

-Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita  e por me ler. Apesar do cansaço,  agora sinto afeto.

Retrato Relato de Ana Coutinho, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021.

Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Felipa Maria Aranha (Enciclopédia Negra)

Panmela Castro participa do projeto Enciclopédia Negra de Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano e Flávio Gomes que engloba o livro que pode ser comprado pelo site da editora Companhia das Letras e conferido em exposição com entrada gratuita na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Além das cinco personagens da exposição, a artista pintou outras 17 obras que podem ser vistas e adquiridas na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.

Felipa Maria Aranha (Black Encyclopedia)

Panmela Castro participates in the Enciclopédia Negra project by Lilia M. Schwarcz, Jaime Lauriano and Flávio Gomes, which includes the book that can be purchased on the Companhia das Letras publisher’s website and seen in an exhibition with free entrance at the Pinacoteca do Estado de São Paulo.

In addition to the five characters in the exhibition, the artist painted another 17 works that can be seen and purchased at Galeria Luisa Strina in São Paulo.


“Felipa Maria Aranha 01”, acrílica sobre tela, 70 x 50 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 01”, acrylic on canvas, 28 x 20 in, 2020. Image: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrílica sobre tela, 70 x 50 x 02 cm, 2020. Foto: Edouard Fraipont
“Felipa Maria Aranha 02”, acrylic on canvas, 28 x 20 x 01 in, 2020. Image: Edouard Fraipont

Felipa Maria Aranha, foi líder do quilombo de Mola ou Itapocu; localidade disposta nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, um braço do Rio Tocantins, onde agora existe o município de Cametá, no estado do Pará. 

Ela organizou um quilombo na segunda metade do século XVIII, constituído por mais de 300 escravizados e escravizadas fugidos, que se auto sustentaram por muitos anos sem que fossem ameaçados pelas forças legais. Acredita-se que seja proveniente da região da Costa da Mina, no Golfo da Guiné, onde hoje estão localizados os países Gana, Togo, Benin e Nigéria. Deve ter nascido entre os anos de 1720 a 1730, tendo sido capturada em algum momento a partir de 1740, nessa que foi uma das regiões mais importantes para o tráfico de almas empreendido pelos portugueses. Vendida como escravizada, ela foi levada para a localidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará (atual capital do estado do Pará). Em seguida, foi enviada para trabalhar numa plantação de cana-de-açúcar na comunidade de Cametá.

Não suportando os maus tratos, Maria Aranha fugiu junto com outros escravizados no ano de 1750, e na região do baixo Tocantins criara o quilombo do Mola – mais exatamente nas cabeceiras do Igarapé Itapocu, no território de Cametá –, um espaço por ela liderado, que ostentava alto grau de organização política, social e militar, sendo um dos maiores modelos de resistência à escravidão que a historiografia já encontrou. Tanto que, quando começaram a sofrer com a repressão colonial, foi graças à liderança militar de Maria Aranha, que foram vitoriosos ao expulsar as forças portuguesas e as várias incursões de capitães do mato.

Dona de grande capacidade de articulação política, Maria Aranha estruturou uma entidade composta por cinco quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança e Porto Alegre), a então chamada Confederação do Itapocu. A entidade empreendeu severas derrotas às forças escravagistas, e, diferentemente do exemplo de Palmares, somente cessou sua luta contra as autoridades escravagistas quando Portugal ofereceu perdão político e declarou quilombolas súditos da coroa. 

Maria Aranha morreu em 1780, ainda liderando a Confederação do Itapocu. No início do século XIX, além da liderança de Felipa, nas proximidades do rio Trombetas, perto de Óbidos, ainda na Amazônia, formou-se um quilombo, chefiado pelo cafuzo Atanásio, que chegou a contar com mais de 2000 habitantes que, além de plantar mandioca e tabaco, vendiam produtos colhidos nas florestas da Guiana Holandesa. Tudo leva a crer que estes quilombolas eram respeitados pela vizinhança, sendo suas crianças batizadas nas igrejas vizinhas. Além do mais, em pesquisas recentes feitas na região do Baixo Tocantins e que usam da história oral, há uma desmistificação da suposta subalternidade das mulheres negras.

Hoje se conhecem muitas outras histórias de como, no próprio quilombo do Mola, houve o protagonismo de outras mulheres negras que deixaram muitas histórias para a memória dos seus descendentes. A negra Maria Luiza Piriá ou Piriçá, registrou sua passagem neste quilombo, organizando e liderando a Dança do Bambaê do Rosário e na administração da própria vida dos quilombolas que ali viviam. Juvita foi mais uma dessas mulheres que fizeram a sua própria história e de seus povoados. Ao sair do quilombo do Mola ou Itapocu, ela fundou o Povoado de Tomázia e liderou o mesmo por muitos anos. As negras Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina e outras que tomavam parte do quilombo do Paxibal se embrenharam nas matas e realizavam tarefas em geral consideradas masculinas como: caçar, trabalhar na construção das improvisadas barracas de moradia – os tapiris cobertos e emparedados com palhas, como ubim e sororoca. Também atuavam na plantação de roças, na coleta dos frutos do mato, na pesca, na fabricação de utensílios de barro, de redes de dormir e de roupas feitas com fibras de curuanã e palhas de palmeiras.

Como se pode notar, a resistência e o protagonismo da mulher negra são históricos e tem suas raízes fincadas na tradição e na cultura de suas ancestrais africanas através de artifícios, artimanhas, improvisações e muita astúcia. Elas reinventavam o seu cotidiano e a sua importância no mundo, conseguindo assim, melhores condições para si e para os seus. Casos como o do povoado de Tomásia, que se uniu à já mencionada Confederação do Itapocu e o exemplo do Quilombo de Pixabal, no município de Baião, formado pela liderança das negras Leonor, Virgilina, Francisca e Maximiana descrevem histórias de líderes negras, que não foram apenas esposas ou companheiras. Protagonizaram e lutaram por suas próprias sinas e destinos nesse território da liberdade precária e precarizada. Já o quilombo de Maria Aranha só recebeu reconhecimento legal das suas terras recentemente, em 2013.

EN

Felipa Maria Aranha, was leader of the quilombo of Mola or Itapocu; located at the headwaters of the Igarapé Itapocu, a branch of the Tocantins River, where the city  of Cametá now exists, in the state of Pará.

She organized a quilombo in the second half of the 18th century, made up of more than 300 enslaved fugitives, who supported themselves for many years without being threatened by legal forces. It is believed that she came from the Costa da Mina region in the Gulf of Guinea, where Ghana, Togo, Benin and Nigeria are now located. She must have been born between the years 1720 to 1730, having been captured at any moment  after 1740, in what was one of the most important regions for the trafficking of souls undertaken by the Portuguese. Sold as enslaved, she was taken to the locality of Santa Maria de Belém in Grão Pará (current capital of the state of Pará). She was then sent to work on a sugarcane plantation in the community of Cametá.

Unable to bear the mistreatment, Maria Aranha fled along with other enslaved people in 1750, and in the lower Tocantins region she had created the Mola quilombo – more precisely in the headwaters of the Igarapé Itapocu, in the territory of Cametá –, a space she led , which boasted a high degree of political, social and military organization, being one of the greatest models of resistance to slavery that historiography has ever found. When they began to suffer from colonial repression, it was thanks to the military leadership of Maria Aranha, that they were victorious in expelling the Portuguese forces and in the various incursions of the “capitães do mato”.

Owner of great political articulation capacity, Maria Aranha structured an entity composed of five quilombos (Mola, Laguinho, Tomásia, Boa Esperança and Porto Alegre), the so-called Confederation of Itapocu. The entity undertook severe defeats to the slave forces, and, unlike the example of Palmares, only ceased its fight against the slave authorities when Portugal offered political pardon and declared some quilombolas as subjects of the crown.

Maria Aranha died in 1780, still leading the Confederation of Itapocu. In the beginning of the 19th century, in addition to Felipa’s leadership, in the vicinity of the Trombetas River, near Óbidos, still in the Amazon, a quilombo was formed, headed by the “cafuzo” Atanásio, which had more than 2000 inhabitants who, in addition to planting cassava and tobacco, they sold products harvested in the forests of Dutch Guiana. All suggest that these quilombolas were respected by the neighborhood, having their children being baptized in neighboring churches. Furthermore, in recent surveys carried out in the Lower Tocantins region that use oral history, there is a demystification of the supposed subordination of black women.

Today, many other stories are known of how, in the Mola quilombo itself, there was the prominence of other black women who left many stories for the memory of their descendants. The black woman Maria Luiza Piriá or Piriçá, recorded her passage in this quilombo, organizing and leading the Dance of Bambaê do Rosário and managing the lives of the quilombolas who lived there. Juvita was one of those women who made their own history and that of their villages. Upon leaving the Mola or Itapocu quilombo, she founded the Povoado de Tomázia and led it for many years. The black women Leonor, Virgilina, Francisca, Maximina and others who took part of the Paxibal quilombo, penetrated into the woods and performed tasks generally considered masculine, such as hunting, working in the construction of improvised housing tents – the tapiris covered and walled with straw , such as ubim and sororoca. They also worked in the planting of fields, gathering wild fruits, fishing, making clay utensils, sleeping hammocks and clothing made from curuanã fibers and palm straw.

As can be seen, the resistance and protagonism of black women are historical and have their roots in the tradition and culture of their African ancestors through artifices, tricks, improvisations and a lot of cunning. They reinvented their daily lives and their importance in the world, thus achieving better conditions for themselves and their similar. Cases such as the town of Tomásia, which joined the already mentioned Confederation of Itapocu, and the example of Quilombo de Pixabal, in the city of Baião, formed by the leadership of black women Leonor, Virgilina, Francisca and Maximiana describe stories of black leaders who weren’t just wives or companions. They played a leading role and fought for their own fates and destinies in this territory of precarious freedom. The Maria Aranha quilombo only received legal recognition for its land recently, in 2013.

Felipa Maria Aranha e outras obras de Panmela Castro estão na exposição “Enciclopédia Negra”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a convite dos curadores Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz e Jaime Lauriano.
Felipa Maria Aranha and other works by Panmela Castro are in the exhibition “Enciclopédia Negra”, at the Pinacoteca do Estado de São Paulo, at the invitation of curators Flávio Gomes, Lilia M. Schwarcz and Jaime Lauriano.

Fontes | References

GOMES, Flávio dos Santos; SCHWARCZ, Lilia Moritz; LAURIANO, Jaime. Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras. Companhia das Letras, 2021.

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: EdUSP, 2004. p. 47

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «Escravidão, Fuga e a Memória de quilombos na Região do Tocantins». Revistas Eletrônicas da PUC-SP. Consultado em 25 de março de 2016

PINTO, Benedita Celeste de Morais. «História, Memória e Poder Feminino em Povoados Amazônicos» (PDF). Anais Eletrônicos – Encontro Nacional de História Oral – 2012. Consultado em 25 de março de 2016

#RetratoRelato 045

Achei o máximo essa sua iniciativa de saber a história de pessoas comuns.


Tenho 63 anos e trabalho é sempre né senti igual a qualquer adulto: a terceira idade para mim começa aos 80 anos. Meu marido e filhos(3) me colocaram em casa, trabalho por opção desde os 17 anos. Sempre solve que ser dona de casa não era para mim.


Estou com a sensação de que é domingo e amanhã é segunda feira. Já tem quase um mês Dei uma geral na casa: arrumei armários, dei uma geral nas plantas, na cozinha estou fazendo receitas diferentes
Gostei muito da Rita Lobo principalmente nos vídeos do “o que tem na geladeira “.


As netas só por vídeo ( uma tristeza)
Não poder conviver com elas entristece.
Adoro vitrines e mercados e não devo ir e não vou
Sinto me um siri na lata, mas vou sobreviver!
Tenho fé em Deus!
Saúde para você e que Deus ilumine seu caminho,


Isabel deSá


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

#RetratosRelatos 050

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso.Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu to era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.


Projeto #RetratosRelatos

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SuperVia, Panmela Castro, 2010, 2’56”

Até pouco tempo atrás o espaço público era restrito à homens. Ainda hoje posso falar dos perigos da cidade para o corpo feminino. Durante muito tempo eu quiser ser um homem e pensava habitar a pele errada. Para ser aceita e respeitada por gangs de homens, eu tive que me masculinizar: andar como eles, vestir-me como eles e até falar como eles. Em um determinado momento, percebi que o quê eu almejava nunca foi ser um homem, mas sim possuir o poder que eles exibiam e eu como mulher, nunca alcançaria. Que por mais que praticasse a mimese, o fato de eu possuir um corpo feminino, denunciava quem eu era e o meu lugar na casta de poderes.

Subvertendo o papel destinado a mim, troquei minhas vestimentas masculinas por uma indumentária hiper feminina, colorida e com flores; o meu gestual agressivo e cheio de regras masculinas por poses de menina, e assim, coloquei-me em ações masculinas de intervenção ilegal.

O resultado é a série de fotos e vídeos “Lady Grinning Soul” (Dama da Alma Sorridente), inspirada na música de David Bowie.

Lady Grinning Soul, Panmela Castro, 2009, 2’00”

Durante muitos anos de minha vida, pensei em habitar a pele errada: a pele de uma mulher. Para ser aceita por gangs de homens que praticavam pichação e mais tarde, graffiti ilegal, eu me masculinizei: precisava vestir-me como eles, andar como eles, falar como eles. Pensar como eles.

Neste processo entendi que não era necessariamente ser um homem que eu queria, mas o que me seduzia alí, era o poder que enquanto mulher eu nunca poderia ter. E por mais que eu tentasse me masculinizar, o meu corpo denunciava que eu era diferente destes outros que me cercavam, e por isso, ainda que me esforçasse na mimese, eu nunca seria totalmente aceita.

Uma decisão pessoal me levou a romper com a necessidade de ser legitimada por este outro, e em trajes e gestuais hiper femininos, eu ironizei a masculinidade das ações clandestinas da rua, me portando de forma exibida, contrária à todo o aprendizado que me foi imposto neste circuito.

O resultado são fotos e vídeos onde em forma caricata realizo ações de graffiti vandal que não se espera de um corpo com uma performance de gênero feminina, principalmente, visto dos perigos que este ambiente público-marginal traz à este corpo considerado frágil.

Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

4 Trabalhos de Arte que Falam sobre Aborto

Your Body is a Battleground

Bárbara Kruger, 1989.

Os cartazes da artista, ativista feminista Bárbara kruger são bem conhecidos no mundo da arte. Um dos mais exibidos é justo esse criado para uma campanha pela pro-choise nos EUA.

Guerrilla Girls Demand A Return To Traditional Values On Abortion

Guerrilla Girls, 1992.

Estamos acostumados a ver em Museus diversos cartazes do grupo nova-iorquino que critica a falta de protagonismo das mulheres no mundo das artes, além de críticas ao patriarcado e ao machismo. Nas lojinhas de muitos desses museus, podemos comprar este trabalho que mostra que elas também lutam pelo direito ao aborto.

O Aborto

Paula Rego

Paula Rego produziu em 1998 uma série de dez quadros à pastel falando sobre suas próprias experiências quando a proposta de legalização foi derrotada em um primeiro referendo.

Possibilidades

Claudia Paim, 2011.

Realizada no Festival Performance Art Brasil no MAM – RJ, a artista brasileira tratou da ideia glorificada da maternidade.

Meu encontro com Annie Sprinkle

Gavin Brown’s enterprise é uma boa galeria de Nova York que já recebeu show de artistas que eu gosto muito como Catherine Opie e Alex Katz. Porém até uma semana atrás eu nem sabia que a galeria existia (mesmo eu já seguindo ela no Instagram) até minha amiga Sofia me enviar o seguinte convite.

Eu havia acabado de encerrar uma sequência de dois cursos com a curadora Daniela Labra, um primeiro de performance e um segundo sobre arte fora do cubo e em ambos, ela cita Annie Sprinkle o que me fez vibrar com a possibilidade de encontrá-la.

Annie foi a primeira atriz pornô a dar certo no mundo da arte, construindo uma carreira a nível internacional. Trabalha em diversas mídias para falar sobre seu interesse de que as pessoas obtenham informação sobre seus direitos sexuais e para ajudar nesse objetivo, a artista também se forma com PhD em sexualidade.

No ano de 1992 ela apresenta a performance Public Cervix que veio a ser a sua principal influência em meu trabalho com performances.

Logo que ela chegou na galeria, já fui ao seu encontro me apresentando e iniciando uma conversa com ela e sua companheira Beth Stephens. Ambas foram muito atenciosas e carinhosas: nada mais do que eu poderia esperar de uma pessoa que diz amar as mulheres.

Além das obras de Annie e Beth, a exposição Putting Out conta com outros artistas que falam sobre identidade, trabalho e sexualidade; até 10 de agosto.

Performance Vagina Dentada

Panmela Castro participa de Festival Corpus Críticos no Espaço z42 à convite do artista – curador Nadam Guerra. A performance foi criada a partir do poema Vagina Dentada em parceria com Caligrapixo.

Boca que engole a morte e regurgita a vida
Minha vagina
Enquanto dentada ela me dignifica
Rasga-lhe o punho que levanta
Rasga-lhe o falo que empina

Vídeo de 20 minutos no youtube

Vídeo de 1 minuto no youtube

Performance Panmela Castro Vagina Dentada
Performance Panmela Castro Vagina Dentada

Performance Panmela CastroPerformance Panmela CastroPerformance Panmela CastroPerformance Panmela CastroPerformance Panmela Castro

 

Radical Women: Latin American Art 1960 a 1985”

Abriu semana passada no Brooklyn Museum a exposição “Radical Women: Latin American Art 1960 a 1985” com obras de 123 artistas mulheres de 15 diferentes países das Américas. São artistas que têm com foco o uso de seus corpos para uma crítica política e social. O destaque da exposição vai para as 23 Brasileiras participantes como Wanda Pimentel, Lygia Clark, Anna Bella Geiger, Leonora de Barros e Anna Maria Maiolino.

Veja mais no site do museu:

https://www.brooklynmuseum.org/exhibitions/radical_women

Marielle

Quando eu fui perseguida pelo o meu ex companheiro, o meu caso era difícil; e todos a quem procurei ajuda, mesmo órgãos especializados em violência contra a mulher, apesar de entenderem que eu vivia uma situação de violência, diziam não poder me ajudar. Marielle foi quem, naquele momento, me ouviu e me guiou no caminho para buscar meus direitos. Hoje o processo segue e todas as vezes que alguém me falar que não vai dar em nada, eu vou lembrar de Marielle segurando a minha mão.

Esta obra é uma singela homenagem à perda que é não ter Mari nesta jornada que é ser mulher em um mundo machista, misógino, patriarcal. Um choro de sangue meu e de muitas outras mulheres que perderam alguém que lutava por elas. #mariellepresente

Centre Pompidou

De volta à Paris, eu e Artha visitamos o Centre Pompidou que possuí uma coleção de arte Moderna e Contemporânea incrível. Além de ver os clássicos como Duchamp e Kandinsky, ainda conferimos a exposição pontual do César que compõe assemblages com ferro, cria esculturas com carros amaçados e outras peças mais convencionais.

Pessoalmente quero destacar o trabalho de arte conceitual “As três cadeiras” que no passado me influenciou à produzir o meu primeiro trabalho onde a ideia era mais importante do que a imagem. Era um cartão com mais de 400 pontos no Rio onde eu grafitei e no qual eu declarava a cidade uma grande área expositiva: era a minha galeria.

A cadeira de Joseph kosuth

A Fonte de Duchamp

Kandinsky

César

César

César

César

A Misóginia e a Obra Femme Maison para o Frestas

Fui convidada pela pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda para escrever algo sobre a minha obra Femme Maison para sua pesquisa sobre feminismos contemporâneos. Aqui vocês podem conferir o texto:

Entre os anos de 1946 e 1947, a importante artista francesa americana Louise Bourgeois criou a série de pinturas Femme Maison que abordava a questão da identidade feminina. Eu percebo a violência contra as mulheres como um problema de identidade feminina e assim – diante dos alarmantes números brasileiros – mesmo em 2017, ainda uma questão a ser debatida. Apropriando-me deste título, crio o meu primeiro trabalho desta série, construído durante os meses de maio, junho e julho em meu atelier no bairro do Catete e montado em Agosto no Sesc de Sorocaba/SP para o Frestas Trienal de Artes à convite da curadora Daniela Labra.

A madrinha da obra, Clara Averbuck posa comigo para as câmeras dentro da instalação no Sesc.

Nesta primeira obra, eu encomendo para minha mãe a decoração de uma casa de boneca nos moldes do meu antigo quarto no bairro da Penha, suburbio do Rio de Janeiro. Cumprida a missão e instalada a obra, o público pode adentrar no espaço, experimentando apetrechos e se fotografando. Nesta nova série, abordo o ridículo feminino, questionando a obrigatoriedade de certas características femininas para a legitimação do ser enquanto mulher, visto que, acredito na não aceitação de outras/novas possibilidades resulta na violência.
As performances criadas por mim, surgiram a partir das experiências na produção de graffitis pela urbe. Comecei a pensar como obra, não apenas a imagem abandonada nas paredes da cidade, mas como também o processo, em essência a problematização da relação do meu corpo feminino em diálogo com a paisagem urbana e as questões de alteridade. Junto ao convite para a criação da performance Femme Maison para o Frestas, Daniela Labra propôs um mural que depois de algumas pesquisas, foi decidido que seria pintado no Palacete Scarpa, antigo prédio tombado pelo patrimônio histórico municipal e atual sede da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade.

Meu graffiti Femme Maison no Palacete Scarpa em Sorocaba

Escolhi para a parede cega do prédio, a imagem de duas mulheres unidas por um terceiro olho adornado pelo o que chamo de Flôr. Flores-vaginas apropriadas da obra de Georgia O’keeffe e muitas vezes dentadas como citado na obra Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, são constantes nas minhas representações pelas cidades. Pela primeira vez, essa criação sofreu, ao meu entender, ataques violentos de misoginia: criou-se uma polêmica na mídia, internet, ruas e universidades sobre o fato de haver uma “genitália feminina tamanho gigante pintada em um prédio público tombado”, palavras usadas pelo vereador Pastor Luis Santos (PROS) em sua fala contra o graffiti na câmara dos vereadores.
Voltando à minha ideia inicial sobre a questão da identidade feminina, e a existência de limitações em relação à mulher ainda no século XXI; quando a mulher propõe características que não são consideradas próprias desta, há um estranhamento, rejeição e em muitos casos, a violência como no linchamento virtual do graffiti do Palacete Scarpa. Enquanto desde pequenos os meninos são encorajados a exibir o pinto mijando na rua, ou mostrando o quanto cresceu para suas tias, percebendo-o como sua ferramenta de orgulho e poder, nós meninas somos alvos de críticas obrigando a nos esconder fechando as pernas, deixando de nos tocar e nos fazendo sentir envergonhadas de nossa parte que sequer pode falada: a buceta.
Na minha primeira visita à Sorocaba em busca da locação para o graffiti, uma das coisas que conheci foi um pelourinho que em seu formato fálico parece não incomodar ninguém, até porque, penso eu, além de celebrar o poder deste membro, reafirma a soberania do homem (branco) sobre todos nós. Neste sentido, colocar uma vagina em uma situação central, é como dar um poder inadmissível para as mulheres, esquecendo a vergonha sugerida em seu corpo. Pura misoginia.
Ao final, o vereador Pastor, após usar minutos para expor sua opinião de forma desrespeitosa sobre a minha obra na câmara, entrou com um requerimento no ministério público para que a mesma fosse apagada e solicitou na imprensa que eu me retratasse.
Acredito que o graffiti Femme Maison de Sorocaba, acabou por cumprir o seu papel fazendo toda uma cidade refletir acerca da mulher em nossa sociedade, dando visibilidade às dificuldades que enfrentamos em nosso dia a dia, e que ficam veladas, de difícil conversa, ridicularizadas e desqualificadas, mas que aqui pulsou pela arte.

Feminismo no Brooklyn Museum 

Se descabelem feministas de passagem por Nova York, se descabelem. Pensem em salas inteiras sobre Georgea O’keeffe, outras cheias de obras de mulheres negras produzidas entre 1965 – 1985 e para encerrar, pensem no grande triângulo da “Diner Party”, obra mais famosa de Judy Chicago.


É isso aí, na minha última visita à Big Apple, me esbaldei nesse andar refleto de arte feminista do Brooklyn Museum que ha anos mantém o “Elizabeth A. Sackler Center for Feminist Art”. 

O mais louco é quem com $200,00 você pode fazer parte da comissão de jovens feministas profissionais das artes (aqui) e participar de enganjados bate papos, abertura de exposições, palestras, visita à estúdios e feiras de arte entre outras oportunidades.

Meu Catálogo Lançado no Rio & Nova York!

No último dia 15 lancei meu Catálogo 2017 em minha galeria em Nova York e agora dia 05 de julho é a vez de lançar aqui no Rio de Janeiro.

Obra de Panmela Castro na Pop International Galleries em Nova York

O pequeno livreto bilíngue conta o desenvolvimento da minha pesquisa artística desde as primeiras tags até o atual trabalho com as performances.

Em Nova York contamos com sete obras de séries antigas, mas no Rio, na galeria do Fernando Braga em Copacabana, além das pinturas do Catálogo, contaremos com obras ainda não exibidas para o público como fotos e objetos.

Obras na Pop International Galleries em Nova York

A memória da performance Eva (2015) será exibida na exposição no Rio

A exposição e lançamento do Catálogo (que será distribuído gratuitamente) acontece na Rua Siqueira Campos, 143, loja 103, Copacabana das 19 às 21h. Entrada também é gratuita.

Convite da exposição

Catálogo Panmela Castro

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Georgea O’keeffe no Brooklyn Museum

Logo que cheguei de Nova York eu assisti no Netflix um filme sobre a pintora Margaret keane que passou dez anos escondida enquanto seu marido ganhava os créditos de suas obras. Em uma breve passagem quando ele tenta justificar que mulheres não ganhavam reconhecimento como pintora, Margaret cita O’keeffe como exemplo contraditório. E realmente, na década de cinquenta quando esse diálogo aconteceu, O’keeffe já há muito era considerada a maior pintora norte-americana do século XX. O século acabou e ela continuou em seu pódio. E mesmo depois do tempo dobrado, no final do século quando eu ainda era uma adolescente e matava aula para passear em museus, O’keeffe continuava a influenciar jovens artistas como eu.

Apesar da lembrança distante, posso ter certeza de que se tratava de tal artista por muito anos ter guardado o catálogo da exposição com grandes flores que insinuavam formatos de órgãos femininos e que vieram a influênciar, anos mais tarde, minha produção com as flores-vaginas.

O’keeffe que considerava sua vestimenta uma forma de expressão no mundo, ganhou essa adorável exposição no Brooklyn Museum na qual eu tive o privilégio de visitar, e mais uma vez em minha vida, me deixar influenciar por sua obra, já que vestidos também são pauta da minha pesquisa de arte. Na exposição fica explicado que as linhas do corte da vestimenta eram as mesmas linhas que reproduzia em suas pinturas, e suas poses para as câmeras exibiam uma personalidade que valorizava esta apresentação publica. É como uma necessidade de dizer quem é, uma busca pela auto afirmação que depende dessa relação com o outro. Uma relação de auteridade.

Visita à Exposição de Rauschenberg no MoMa

Em minha visita à exposição do Rauschenberg em Nova York pude entender o desdobramento de sua arte iniciando com pinturas consideradas expressionismo abstrato e que, com experimentações (como a que apaga um desenho de Kooning) e influências dadaístas começa a inserir massas de tintas cada vez mais pesadas e objetos que eliminam os limites entre arte e vida, o resultado é o primeiro passo para o que chamamos de Pop Arte hoje.

Aqui a pintura torna-se tridimensional.
De tempos em tempos a banheira borbulha, uma obra que previa o q chamamos hoje de arte contemporânea

As “combinações” de Rauschenberg também possuem influência do movimento surrealista

Seu expressionismo abstrato começa a ganhar volume
Colagem aleatória de palavras inspirada no movimento dadaista