Vamos Combinar de não nos ferir (Celebrando a ArtRio)

Falando sobre o RACISMO me despeço celebrando o sucesso q foi participar da ArtRio ao lado de minhas alunas, parceiras e equipe.

Ñ q racismo caiba na mesma sentença q celebração mas é q ontem estive muito feliz, e fui minada por uma irmã q me desqualificou.

Sei q todo dia gritamos um “Eu estudei” para a branquitude q nos boicota com seus “achismos”. Mas é q as vezes nem percebemos q estamos gritando com nós mesmas.

Talvez não sejamos tão irmãs, afinal, as experiências com o colorismo nos diferenciam.

Mas enfim, irmã não me diga q estudou para me desqualificar. Na casa dos 40, tenho um extenso currículo q minha simplicidade esconde.

Só de Rede NAMI são 10 anos trabalhando com as pautas decoloniais muito antes da maioria.

Se tivermos em uma feira, fomos destaque na mídia e viralizamos na internet com posts de Taís Araujo à Iza; Se vendemos 80% de nossas obras: Se artistas consagrados nos doaram obras sorrindo; Se estalei três obras de nossas artistas (alunas!), trans, negras para a coleção do MAR; Se colocamos em destaque uma menina com deficiência que agora sabe q é artista: tudo isso foi pq estudei.

E não só estudei artes, gênero e etnia, mas fui reconhecida pelo meu empreendedorismo em nomeações da ONU, Wold Economic Fórum e Folha de São Paulo. Eu estudei Business.

Ainda que eu acredite na sabedoria de quem não teve acesso à educação formal, tive q lançar o bacharelado e o mestrado em artes (UFRJ/UERJ) pra ter alguma legitimação. Me formei em Publicidade e Propaganda na mesma escola de Portinari (Liceu de Artes e ofícios fundado em 1856). Sou pós graduanda em diretos humanos, cidadania global e responsabilidade social com Angela Davis de professora e com quem já jantei ao lado em Princetown.

Não sei se vc sabe mas sou especialista em gestão de empresas de responsabilidade social e políticas afirmativas, entre outras coisas mais.

Amiga tb estou cansada de ter q falar meu currículo pras pessoas acreditarem q eu tenho algum valor. Eu te entendo. Então vamos combinar eu e vc, de não fazer isso entre nós mesmas.

Eu te amo. ❤️

Momento tão lindo de intimidade com o curador Paulo Herkenhoff defendendo o trabalho de minhas artistas e lançando-as na história na coleção do MAR.

📸 Foto de capa: Alunas, parceiras e equipe da Rede NAMI em nossa obra “Luz Negra” da artista Mônica Ventura a partir de frase de Juliana Borges.

Exposição A Máquina Lírica

Galeria Luísa Strina, curadoria de Pollyana Quintella, setembro de 2021.

Uma mulher nua de longos cabelos cheios que caminhava na madrugada como uma bruxa logo se tornou lenda folclórica no vilarejo de Olhos D´água em Goiás.

Este conto não se trata de um delírio coletivo de alguns poucos privilegiados que venham a ter flagrado a cena, ou de outros que tenham repetido vê-la para pertencerem à lenda. O delírio aqui é auto-referente e dá nome às quatro fotografias exibidas na exposição “ A Máquina Lírica” de curadoria de Pollyana Quintella apresentada na Galeria Luisa Strina a partir deste setembro de 2021.

Após um ano de isolamento social, eu, que vivo só, decido viver na casa das pessoas e cria a Série Residência. Antes de ir morar no pequeno vilarejo na casa de Lu, mãe de Jandira (ativista social, amiga de longa data, e uma das fundadoras da Rede NAMI)  faço quarentena no Núcleo de Artes do Centro Oeste (NACO).

Sozinha no espaço da residência, produzo uma nova série de Penumbras em um dia de ritual de Lua Cheia. Desdobramento de antigas séries como “Opressão (2009)”, a série Penumbra toma corpo na solitária quarentena de 2020 no ateliê, em experimentações de fotografias de longa exposição.

Penumbra é mais um dos conjuntos de obras que tratam sobre a afetividade da mulher negra, a partir de minhas próprias vivências com o racismo e machismo, sexualização do corpo negro, estigmas, e a realidade de dados do IBGE que mostram que tal prática estrutural lança mulheres negras na pobreza, liderando suas famílias, sem companheiros de longo prazo para ajudar a sustentar a casa (Mulher Negra: Afetividade e Solidão – Pacheco, Ana Cláudia Lemos – 2013).

Apesar de aparentar muitos privilégios hoje, sou de uma geração que teve que abdicar de construir uma família para construir uma carreira e ter o mínimo de qualidade de vida. Afinal, como uma mulher afastada do padrão europeu “para casar”, dificilmente manteria um companheiro para me ajudar com os filhos, e isso me impediria de seguir em minha profissão, me enterrando de vez na falta de privilégios e pobreza.

Ser uma mulher aos quarentas vivendo sozinha isolada durante uma pandemia, apesar dos confortos de poder me manter sem mais dificuldades, não é um privilégio pleno de vida. Assim como ser tachada de Bruxa em uma cidadezinha do interior, reafirma a urgência da necessidade de desestigmatizar corpos como meu. Penumbra é sobre isso, desconstruir seu olhar sexualizado adiante de uma mulher que sofre com a dor de se estar só, entre tantos outros pontos problemáticos que esse conjunto de fotografias escolhidas por Polly tem a pontuar.

A curadora Pollyana Quintella já fazia parte do conjunto de pessoas com que eu me identificava nos pontos de interesses a cerca da arte e visão de sociedade, além de uma ligação intuitiva sobre sua presença como pessoa no mundo. Alinhadas em todos os amplos sentidos que a vida pode ter para nós, foi fácil logo de primeira encontrarmos no conjunto “Culto Auto-Referente” a confluência entre nossos interesses de pesquisa.

Polly pensa para a exposição, a nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção (Leia o texto de Poli sobre a exposição). Tipo de deliro que venho atravessado em minhas residências nas casas das pessoas, tentando identificar objetos e situações como sinais e marcos, mas q por fim não passam de delírios de referências, sendo descritos na Wilkpédia como um tipo de fenômeno de um indivíduo que está experimentando coincidências e acreditando que elas têm um forte significado pessoal, uma noção de que tudo o que se percebe no mundo relaciona-se com o próprio destino.

É neste ponto que volto ao debate sobre afetividade e a busca a todo custo por pertencer a algo, e ser amada; onde a rejeição e solidão, me confunde em não conseguir distinguir se meus prejuízos são fruto do preconceito que me cerceia, ou meras situações pessoais.

Esta é apenas uma introdução para muitos desdobramentos de minha produção, que apesar de pessoal, se torna política ao ter milhares de mulheres se identificando e se questionando sobre essas as mesmas sensações e percepções.

A exposição “ A Maquila Lírica” pode ser conferida até o final deste mês que abre a 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro mas eu canto, e conta com os artistas Anis Yaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli.

Mari katayama: Aonde estão os artistas com Deficiência?

Acompanhamos o desfile dos atletas paraolímpicos, mas é nas artes que eu me pergunto aonde estão os profissionais com deficiência?

Há tempo já planejamos como nossas exposições podem ser inclusivas, mas e o que está sendo exposto? É inclusivo e representativo também?

Assim como nos últimos tempos pensamos na participação de mulheres, negros, indígenas e LGBTQI, porque não estamos pensando a inclusão de artistas com deficiência nessas exposições?

De memória, por tudo o que estudei na história da arte, só me vem a famosa Frida kahlo e o pós impressionista de Toulouse-Lautrec de imediato, e dos museus e galeria nas quais visitei nos últimos anos andarilha pelo mundo, apenas uma artista com deficiência conheci e que por definitivo eu me apoiaxonei.

Marcelle Lender dançando no Bolero em Chilperic, Toulouse-Lautrec (1895)
Autorretrato com o retrato do Doctor Farill, Frida Kahlo (1951)

Essa não é uma história de superação. É a história de vida de mais uma pessoa normal construindo coisas neste mundo. Estudando, trabalhando, casando e, tendo filhos. Conheci Mari katayama em um curso da Daniela Labra e em 2019, tive o emocionate momento único de visitar sua sala durante a Bienal de Veneza, se não, a principal mostra de arte do mundo, certamente a que expõe a tendência para os próximos anos.

E certamente é tendência não fazer pela pessoas com deficiência, mas criar políticas afirmativas e providenciar tecnologias assistivas para que este grupo possa ser autônomo, realizando seus desejos, vivendo com qualidade de vida e ocupando todos os espaços possíveis, incluindo o das artes visuais, seja como produtores, curadores, artistas e outros profissionais.

Mari Katayama “bystander #016” (2016).
Thus I Exist #2 (2015)

Vc conhece quem são essas pessoas da área?

Me conte.

Retrato Retrato de Suka

Retrato Relato de Suka, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2021

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porque. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porque.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio a memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.


Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Retrato Relato de Ana Coutinho

Olá Panmela, boa noite 


Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.



Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.


Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. As vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.


Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

-Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita  e por me ler. Apesar do cansaço,  agora sinto afeto.

Retrato Relato de Ana Coutinho, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021.

Projeto #RetratosRelatos

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#RetratoRelato 045

Achei o máximo essa sua iniciativa de saber a história de pessoas comuns.


Tenho 63 anos e trabalho é sempre né senti igual a qualquer adulto: a terceira idade para mim começa aos 80 anos. Meu marido e filhos(3) me colocaram em casa, trabalho por opção desde os 17 anos. Sempre solve que ser dona de casa não era para mim.


Estou com a sensação de que é domingo e amanhã é segunda feira. Já tem quase um mês Dei uma geral na casa: arrumei armários, dei uma geral nas plantas, na cozinha estou fazendo receitas diferentes
Gostei muito da Rita Lobo principalmente nos vídeos do “o que tem na geladeira “.


As netas só por vídeo ( uma tristeza)
Não poder conviver com elas entristece.
Adoro vitrines e mercados e não devo ir e não vou
Sinto me um siri na lata, mas vou sobreviver!
Tenho fé em Deus!
Saúde para você e que Deus ilumine seu caminho,


Isabel deSá


Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 050

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso.Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu to era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

#RetratosRelatos 017

Oi Pamela! Primeiro quero dizer que adoro você, seu trabalho, sua história. Você é uma mulher da porra! Meu nome é XXXX, tenho 55anos, um filho de 28anos e uma filha de 20. Sempre fui a ovelha estragada da família! Tenho 2 irmãs mais novas e minha mãe sempre me hostilizou ao ponto de eu pegar uma mochila É viajar de carona da Bahia a Porto Alegre. Entrei pro Hare Krishna, porque curtia yoga, natureza e lá ninguém enchia o saco pra arrumar um namorado, eu sempre fui muito tímida! Mas percebi que entrar de cabeça em religiões é furada, rola muita hipocrisia e grana. Entrei com 17 anos e sai com 23. Fui trabalhar na sorveteria com meu pai, que sempre foi um paizão.  Conheci meu primeiro marido, muitas brigas porque ele era super ciumento, eu não podia virar o rosto no carro que ele fazia drama. Mas eu estava cansada de brigar com minha mãe e irmãs e fui morar com a família dele. Me tratavam bem, mas eu não podia me posicionar politicamente, sempre fui esquerdista e meu sogro era muito ignorante, tudo pobre de direita metido à besta.

Eu trabalhava como auxiliar de escritório, meu marido de repositor no Carrefour e fim de semana a gente entregava pizza. Ah! Nasci, cresci no Capão Redondo!! Bairro mais sinistro de SP! A gente financiou um apartamento no INOCOOP de Campo Limpo e casamos no civil.  Eu queria muito ser mãe e engravidei logo. Pronto! O homem mudou, me chamava de vaca,  dizia que parecia um balão, me empurrava, teve uma vez que eu estava sentada no banco do carona é ele ficou jogando o carro contra um ônibus falando que se quisesse matava eu e minha barriga. Meu filho nasceu e ele nem ligou,  ia a festas, me deixava sózinha, tive que usar fraldas de pano,  ele não comprava nada pro bebê.  Quando o bebê ficava doente, ele fechava a porta do quarto e gritava pra não fazer barulho. Era um pai horrível! Teve algumas separações, eu acreditava, ele melhorava, mas o inferno voltava. Nesse tempo eu estava desempregada é ele também perdeu o emprego. Eu comecei a deixar meu filho com a minha mãe e ajudava ele vendendo frutas e legumes na rua. Ele alugou um ponto comercial e começou a montar uma pequena agropecuária. Tirei carta de motorista e a situação começou a melhorar. Óbvio que eu não queria engravidar novamente, ele era totalmente ausente como pai. Quando meu filho estava com 7 anos a gente vivia de aparência. Eu não o amava, mas se eu falasse em separação ele dizia que eu ia passar fome, etc. Eu cedia. Acabou que engravidei sem querer. Foi horrível,  eu só chorava e ele ficou feliz num dia E no outro voltou dizendo que ia embora e que eu me virasse! O fdp tinha uma amante  e ela, ao saber da minha gravidez, encostou ele na parede e ele ficou com ela. Tive uma gravidez terrível,  meus vizinhos me davam cesta básica e os pais dele traziam o gás e pagavam as contas.

Na época se vendia telefone, eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor horrível Meu pai, que estava morando no interior de SP, me convidou pra morar com ele e minha mãe. Na época se vendia linha telefônica,  eu vendi pra pagar a cesárea porque eu não queria passar aquela dor dos inferno.  Ele nem foi ver a neném.  Coloquei o nome de Vitória e meu instinto maternal passou por cima de toda rejeição e me apaixonei por aquela menina. No interior, meu pai me ajudou muito,  me deixava usar o carro é pediu pra que eu voltasse a estudar. O pai dos meus filhos nunca pagou pensão. Como era comerciante, tirou tudo que estava no nome dele, fez declaração de pobreza, chegou a se vestir de mendigo numas das várias audiências. Fiz um supletivo. Entrei na faculdade, fiz pedagogia, pra pagar a faculdade consegui estágio num projeto que ficava com crianças carentes ou de risco e consegui terminar a faculdade. Meu pai foi o pai da minha filha. Cuidava, tinha um amor maior que tudo, meu filho guardou os traumas,  até hoje ele tem baixa autoestima, mas minha filha nunca sentiu falta do que não teve.  Fiquei 1 anos desempregada e minha mãe com cara feia. Aproveitei pra fazer todos concursos e estudava muito. Passei em 2 concursos e comecei a lecionar numa cidade perto do meu pai. Consegui juntar um $ e comprei uma casinha,minha casa, minha vida, comecei a namorar só depois.

Depois de uns 4 anos lecionando comecei com sintomas de depressão. Só chorava, ñ comia, tinha taquicardia e ficava com as mãos pingando suor frio quando entrava numa sala de aula. Passei nos psiquiatras do SUS, fluoxetina, diazepan, sertralina. Mas eu comecei a beber, tinha que beber o tempo todo. Brigava muito com o namorado e meus filhos crescendo e eu não conseguia lidar. Meu filho passou em direito na UEM, em Maringá e eu não tinha como ajudar muito financeiramente e ele não trabalhava ao mesmo tempo minha filha com 12 anos já transava e usava maconha. Eu não conseguia me impor, sempre fui boazinha, mas eu não sabia lidar com aquela realidade. Acabei casando com o namorado, mas bebia o tempo todo, meu segundo marido me levou num psiquiatra fudido,caro pra cacete, mas ele me deu o diagnóstico de Transtorno Bipolar Esquisoafetivo e como eu não conseguia parar de beber como uma dependente química fui internada num hospício.  Nossa! Chamava IPT Instituto de Psiquiatria de Tupã,  era um inferno, eu vi gente esfregando cocô na cara, era tudo fedido, a noite só se ouvia gritos, fiquei 2 dias num quarto com mulheres menstruadas, mijadas e cagadas amarradas na cama. Eu chorava muito e pedia pra falar com meu marido,  mas me disseram que visita só depois de um mês. As roupas eram marcadas e tinha uns doidos que dava medo. Rodei a baiana, falei que quando saísse ia denunciar, me seguravam e aplicavam injeção, mas nem fazia efeito, mesmo grogue eu ficava gritando até eles me mudarem de pavilhão. Fiquei numa ala menos fedida, num quarto com mais 2 e era menos monstruoso. Me acalme e acho que todas injeções fizeram efeito e eu sei que dormi 3 noites e 2 dias seguidos. Não tinha tomado banho ainda, acordei, tomei banho e esperei a hora de comer. Chamaram meu marido e deixaram eu me encontrar com ele por 4 minutos! Só deu tempo de eu pular no pescoço dele e implorar pra ele me tirar dali. Ele chorou e disse pra mim ficar calma. Ele procurou a irmã rica dele e pagou pra me transferir na ala particular.  Fiquei 3 meses.

Na ala particular era tudo melhor, tinha um quarto e banheiro só pra mim, enfermeira grudada, aulas de artesanato e não tinha louco de pedra, algumas figuras dependentes de drogas e uns que a família internada por serem idosos ou inválidos.  Sai da clínica, mas não parei de beber, meu marido não aguentou e foi embora. Descobri que meu filho ficava fumando maconha na República tinha abandonado a faculdade. Minha filha continuou a vida louca dela é eu bebia e comecei a roubar vodka nos mercados e estava sempre de licença,  com a internação os médicos conseguiram me readaptar e eu não precisava mais dar aula. Trabalhei na biblioteca, transava com quem queria. Fui pega roubando e rolou um processo. Comecei a ter surtos psicóticos, ouvia vozes, tinha medo de morrer,  achava que a polícia vinha me prender toda hora,tinha medo de tudo, pedia pra minha filha ñ me abandonar, ela tina que me dar banho e eu me arranjava, uma hora vi minha filha chorando dizendo que não sabia mais o que fazer comigo. Tentei suicídio,  tomei 3 cartelas de lítio, minha filha e o namorado dela me levaram no pronto Socorro e fizeram uma lavagem. A cidade é pequena,  eu tinha vergonha de sair na rua, ficava andando de um lado pra outro falando sózinha. Até que não aguentei e liguei pro meu marido pedindo socorro.

Ele estava no MG e pediu 3 dias pra esperar. Quando ele veio, me levou num psiquiatra, mudou meus remédios e eu pedi pra ele ficar .Ele está comigo até hoje, parei de beber, fui absolvida, nunca mais tive um surto tão forte, às vezes tenho umas recaídas, mas não deixo de tomar meus remédios e ir no médico.  Aprendi que a mente controla tudo. Cuido da minha alimentação, me tornei vegana, chorei muito quando o Bolsonaro foi eleito, escutava aqueles rojões e nunca vou entender como esse povo pode festejar a eleição de um fascista. Briguei com muita gente por causa disso. Estou pra me mudar de cidade com meu marido, que esteve comigo nos piores momentos e não desistiu. Meus filhos moram na capital, meu filho se formou em História na USP e minha filha se juntou com um bolsominio. Minha mãe diz pra mim que ñ me quer na casa dela e minhas irmãs não tenho contato. Tô num momento de mudança! Vou vender tudo ou doar e meu sonho é conseguir comprar um terreno na praia e construir uma casa de madeira,  ter uma horta, aprender surfar e conhecer gente legal. É isso!!!! Ufa!!!!!


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Esta obra faz parte da Exposição #RetratosRelatos que abriu em 07 de março de 2020 no Museu da República no Rio de Janeiro.

Pedido de Socorro

Esse texto foi escrito em caracter de registro e proteção. Também é um texto explicativo, pois estou passando por uma situação bastante humilhante por parte de um homem próximo que alegava meu bem querer. Estou tendo que deixar de frequentar lugares e me isolar socialmente. Hoje esse homem me persegue contando histórias sobre mim de forma que me prejudicam na minha carreira e colocando em cheque minha lucidez e idoneidade. Primeiramente peço que não passem para frente essas histórias e quem tiver presenciado esses comentários e estiver disposta a testemunhar em um boletim de ocorrência por difamação, eu desde já agradeço.

Por séculos mulheres quando se impunham eram chamadas de histérica, neuróticas, treteiras. Na história iam da bruxaria até a loucura, deixando os hospitais psiquiátricos para seguir vendo seu juízo questionado tantas vezes até hoje, em pleno século XXI.

Essas palavras são frequentemente utilizadas para desqualificar reações emocionais legítimas de mulheres como raiva, medo, “desobediência”, reações que são socialmente indesejáveis em mulheres, que devem ser submissas, calmas e pacíficas.

Existe uma tese de 88 sobre “Complexo de Cassandra”: o sofrimento das mulheres que, desmerecidas em seus sentimentos e atos simplesmente por serem mulheres, e consequentemente percebidas como “irracionais” e “histéricas”, não encontram apoio e são desacreditadas quando contam acontecimentos reais pelos quais passaram, ou sintomas que de fato sentem.

É curioso perceber, também, que as mesmas emoções, quando demonstradas por homens, são percebidas de outra forma. Afinal raiva, falar alto, agressividade, imposição física, etc. – são consideradas formas “razoáveis” de se reagir enquanto homem.

Amigas, eu uma mulher que trabalho todos os dias com estas questões, ainda passo todos estes mesmo dias por esta desqualificação das minhas percepções e sentimentos por homens que se dizem contemporâneos e progressistas. Sendo eu, humilhada e perseguida ( a fim de me por no meu lugar) por aqueles que antes diziam me amar, mas que a partir do momento que questiono sua posição, se voltam contra mim de forma extremamente cruel e malígna.

Não sou eu q sou treteira, nem minhas amigas são “pessoas difíceis”, é que a gente ainda vive em um mundo misógino e não aceitamos mais passar por isso.

Pode me mandar pra terapia, pro psiquiatra, pra fogueira ou pro hospício, mais ainda sim, minhas imagens estarão por aí, como um símbolo que nós mulheres iremos resistir.

Feminicídio

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres. Deixamos de ser cúmplices de nossos escravizadores.

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Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Porquê Emicida me Deixa Triste

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Uma vez eu falei assim para a Lívia Cruz: “- Para que tá feio amiga.” Ela me esculhambou. Eu não fiz nada.

Eu não fiz nada porquê já fiz muito. Já xinguei, fui homofóbica, racista, falei mal e até bati nos outros. Mas chegando à casa dos 40, a gente vê  que a gente muda e muda o mundo. E eu, escolhi mudar buscando formas mais assertivas.

Quando eu vejo o Emicida usar seu poder para desqualificar essas meninas, eu fico triste. Eu vi a molecada do rap chegar ao poder. Acreditei que eles iam transformar a sociedade. O quê em parte é verdade. Mas em uma análise nem tão profunda, identifico falas contra a luta de classes e o racismo, mas apenas um corpo-instrumento quando pensamos na manutenção do Patriarcado, afinal são homens e essa conjuntura os favorece.

A Flora é foda. Artista completa … personalidade difícil. Criou uma metáfora linda com Preta de Quebrada, mas cismou que não era só música, que era vida. A auto identificação racial pode ser válida no Brasil. Temos que entender a construção da identidade do sujeito, mas o sujeito também tem que entender, que o colorismo, a maneira como o outro te lê, é o que vai fazer que você seja desqualificado, inferiorizado e marginalizado, sujeito ao preconceito, exclusão, jogado ao campo do não privilégio. E a leitura que fazemos de Flora é, que ela é branca. Privilegiada. Mas o Emicida também fez Trepadeira, uma música que além de incitar a violência contra a mulher, a deprecia pela sua livre sexualidade e ainda direciona para as pretas: Afinal a nega é a trepadeira. O Emicida assentou a mulher negra naquele velho estereótipo hipersexualizado. Isso me lembrou quando Livia e Sweet também fetichizaram os homens negros, e Emicida, criticou. Criticou e se casou com uma branca abandonando a ex companheira porque, ao meu ver, não importa ali dar moral à mulher negra (aquela hipersexualizada que serve pra cama mas não pra sociedade), embarcar no jogo do Patriarcado exibindo como status uma mulher bem padrão, como um prêmio, um objeto que vc adquire, o faz pertencer ao poder.

Porquê mulher negra não faz história, afinal foi isso que ele disse no post apagado no perfil da Nega Rê. Na época ele não fez aquele típico jogo de batalha (Link da batalha), ele à hostilizou em um nível alto de misoginia, falando do (e pegando no) cabelo (Tópico tão delicado para as negras), chamando de feia e ao final, afirmando a mulher negra merecedora de seu papel como diarista, aquela que pertence à senzala. Mesmo de etnia similares, o Emicida enquanto homem terá dificuldades de entender  os processos que param as mulheres em suas carreiras e ele vai achar que venceu por talento, porquê é um iluminado divino, porquê tinha que ser.  O Emicida não vai levar em consideração que as ultimas falas que ele usou pra desqualificar essas meninas, para acentuar e promover seus erros, são discursos (Veja Eva e Pandora) feitos desde que o mundo é mundo para colocar as mulheres em seus lugares: submissas como escadas para que os homens alcancem o sucesso.

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Porém foi-se o tempo em que todas nós éramos escravas coniventes com nossos senhores. Hoje a gente questiona, debate. E, não venha me dizer que somos agressivas, loucas e descontroladas, pois diante de tanta violência que passamos em todos os processos de nossa vida, estas são reações. Malcom X pegou em armas, Mather Luther king optou pelo diálogo. Nós feministas, temos sim também muitas formas de pensar e lutar. Apesar de canalizar minhas energias para o pacifismo, não julgo essas mulheres que pegam em armas.

Se eu tivesse a oportunidade de falar algo com o Emicida, eu diria para ele deixar com nois. Deixa que a gente se entende, se mistura, se conversa e se educa. Briga também se tiver que brigar. Mas deixa a gente. Não precisamos de mais um homem, seja ele branco ou negro, nos criticando, dizendo se estamos certas ou erradas e nos dizendo mais uma vez como devemos ser.

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4 Trabalhos de Arte que Falam sobre Aborto

Your Body is a Battleground

Bárbara Kruger, 1989.

Os cartazes da artista, ativista feminista Bárbara kruger são bem conhecidos no mundo da arte. Um dos mais exibidos é justo esse criado para uma campanha pela pro-choise nos EUA.

Guerrilla Girls Demand A Return To Traditional Values On Abortion

Guerrilla Girls, 1992.

Estamos acostumados a ver em Museus diversos cartazes do grupo nova-iorquino que critica a falta de protagonismo das mulheres no mundo das artes, além de críticas ao patriarcado e ao machismo. Nas lojinhas de muitos desses museus, podemos comprar este trabalho que mostra que elas também lutam pelo direito ao aborto.

O Aborto

Paula Rego

Paula Rego produziu em 1998 uma série de dez quadros à pastel falando sobre suas próprias experiências quando a proposta de legalização foi derrotada em um primeiro referendo.

Possibilidades

Claudia Paim, 2011.

Realizada no Festival Performance Art Brasil no MAM – RJ, a artista brasileira tratou da ideia glorificada da maternidade.

Carta à Malala

Querida Malala,

No Brasil, passamos agora por um período de retrocessos. O projeto de lei que tenta instituir a chamada “Escola sem Partido” tem sido muito debatido e impulsionado por setores extremamente conservadores da sociedade representados no congresso. A proposta, se aprovada, vai limitar (e punir!) professoras e professores que falarem sobre gênero em sala de aula, entre outros.

Além de criar uma cultura do medo e diminuir a reflexão crítica, a “Escola Sem Partido” inibe o desenvolvimento de uma sociedade onde homens e mulheres são iguais tanto no que diz respeito ao controle como ao uso de seus bens e serviços.

Na Nami, durante as oficinas do projeto “Graffiti Pelo Fim da Violência Contra a Mulher” que é realizado em escolas para alunos entre 14 e 19 anos, além de falarmos sobre os tipos de violência doméstica e promovermos a Lei Maria da Penha, criamos um momento para pensarmos a desconstrução do gênero no sentido de alargarmos as bordas do que é definido sobre como é ser uma mulher e como é ser um homem. Eu, como uma sobrevivente da violência doméstica, entendo que a violência contra a mulher acontece justamente quando o outro não aceita saímos do padrão pré estabelecido sobre como deve ser uma mulher e por isso estimulamos esta reflexão nas oficinas. Para que entenda melhor, posso usar minha própria história como exemplo: quando fui espancada por meu companheiro e mantida em cárcere privado por uma semana, ele alegava que eu não era uma boa dona de casa. Na época ele estava desempregado e eu além de trabalhar ainda estudava, passando o dia todo fora. Ainda assim, ele acreditava que todas as tarefas de casa, incluindo as refeições, deveriam ser feitas exclusivamente por mim, pois este era meu papel como esposa. Ainda hoje, muitos meninos não são estimulados a realizarem as tarefas de casa, alegando-se que este não é trabalho para homens. Então, quando eu falo em afrouxar as barreiras do que é ser mulher e do que é ser homem, eu falo justamente em quebrar essas definições pré concebidas.

Este trabalho está diretamente ligado à educação. Aqui no Brasil, as meninas assim como os meninos podem frequentar escolas. No entanto, a educação ainda não é uma ferramenta de mudança do padrão de relacionamento entre homens e mulheres porque não existe perspectiva de gênero na educação. Eu mesma fui privilegiada por poder cursar uma boa escola e ingressar em uma das melhores universidades do país, mas desconhecia meus direitos enquanto mulher e sequer era capaz de identificar uma violência, passando anos naquele relacionamento abusivo. Precisamos de uma educação que ensine que meninos e meninas devem ter os mesmos direitos, se respeitar e resolverem conflitos sem uso da violência. Mas o legislativo acha que fazer isso é ruim, e persegue a discussão sobre gênero na escola.

Eu Não Sou Um Homem Fácil

Muitos podem julgar que o filme promove que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a nossa. Sádica, não diria tratar-se disso, mas sim criar uma ironia na inversão dos papéis para se fazer pensar a mulher enquanto ser oprimido. Colocando o homem no papel da mulher, o filme faz-se sentir na pele o que vivemos em nosso dia a dia.

Ainda penso que a roteirista e diretora Eleonore Pourriat pegou muito leve ao colocar a inversão como um delírio do protagonista ao bater a cabeça em um poste de aço, porque assim, em todo o tempo você tem a sensação de que aquilo ali é algo ocasional e que a qualquer momento voltaria ao normal; o que realmente acontece quando a Alexandra se depara com o mundo normal, me incomodando pelo fato de parecer punida por seus atos quando ainda tinha algum poder: até em um filme aparentemente feminista, a mulher se da mal no final.

Se fosse eu a escrever este filme, tornaria-ló invertido desde o início e ainda fecharia com a mulher esculhambando o macho no final, como acontece em nosso mundo real onde saímos sempre no prejuízo.

Mas só pra fechar esta reflexão, vale dizer que o ideal de uma sociedade matriarcal é uma sociedade igualitária, onde justo pela mulher ter poder, poderia organiza-lá de forma justa e compreensiva.

Santo Amaro Era Skatista

Acabei de ver o documentário do Ademar Luquinhas na Globo News e fora o depoimento de sua mãe, não houve em nenhum momento qualquer tipo de participação ou fala de mulheres. Não houve porque não há. Porque mulher ali não é parceira, é um objeto descartável como um skate que quebra e já não serve mais. Esse fato só mostra a segregação, machismo e até misoginia que esse movimento trás. E quando falo de movimento não falo apenas de skate e Ademafia, falo de um problema estrutural de nossa sociedade: o patriarcado. O sonho deles era construir uma pista de skate, o meu é construir uma cena onde mulheres possam participar e até ser protagonistas das histórias do mundo lado a lado de importância com os homens.

Vagina Dentada (Filme)

Sempre que escuto o sobrenome O’keeffe me lembro das flores da pintora norte-americana que remetem a suaves e delicadas vaginas. Quando era adolescente, eu costumava fugir das aulas do Liceu de Artes e Ofícios para ir o Museu de Belas Artes, e em uma dessas visitas eu conheci a obra de Georgia O’keeffe. Esta experiência iria influenciar minha produção definitivamente: eu comecei a experimentar a pintura de flores como vaginas e vice versa, até que cheguei na vagina dentada, referência da leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

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Pesquisando imagens no google para vagina dentada, cheguei ao cartaz desse filme de Mitchell Lichtenstein, filho do artista da Pop art Roy Lichtenstein, em que por coincidência ou não,  tem como protagonista uma garota chamada Dawn O’keeffe.

O filme de tão ruim, chega a ser bom. Justamente pelo texto e a direção do Lichtenstein, que enquanto homem, apresenta ao mundo o temor diante de nós mulheres; e o que torna o filme bastante caricato.

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De maneira bastante sutil, a primeira cena do filme já mostra o que está por vir e é o único motivo que não faz você desistir de ve-lo até o final, pois apesar de chato na construção da personagem, vc fica apreensiva aguardando a hora dos pintos começarem a voar. Então o filme entra em uma sequencia que a principio te enoja com todo o sangue esguichando de órgãos genitais masculinos, mas que muda repentinamente para um prazer sádico de quem aprecia veem homens violadores finalmente levando o que eles merecem.

Não se trata de um filme feminista, mas de um filme sobre mulheres criado sob a perspectiva masculina. Cenas como quando a mocinha finalmente consegue transar com um rapaz sem que decepasse seu falo, denunciam isso. Algo sobre um velho fetiche masculino em que até a mais difícil e desencaminhada das mulheres, pudesse ser seduzida, dominada, amansada e transformada em uma verdadeira mulher por um herói. Como já não bastasse esse velho conto de fadas masculino, o rapaz que consegue transar com a protagonista (há essa altura já a chamamos de mocinha), o faz drogando-a como se não tivéssemos passado os últimos dez anos visibilizando que ato sexual com mulher dopada / bêbada / desmaiada é estupro. Ou seja, mesmo quando a relação no filme parece consentida, é no final estupro também.

Encontrei essa matéria na Vice que fala um pouco da dificuldade com filmes como este e aqui vocês podem assisti-lo com legenda no youtube.

Museo Frida Kahlo

Frida é um exemplo da misoginia nas artes. Apesar de ter se tornado uma artista muito mais relevante do que seu companheiro Diego Rivera, Frida teve uma de suas obras adquirida para o acervo do MoMa quase meio século depois da primeira aquisição de Rivera.

Ainda sim, sua arte e história se tornou um grande frenesi no imaginário popular e podemos confirmar este amor na visita à casa que nasceu e morreu na Cidade do México: a casa azul.

A construção em estilo francês demostrava o desejo de sua família – de classe média – pela sofisticação, porém com o casamento com Diego Rivera e a exaltação de seus ideias revolucionários, acoplaram a casa, cores e itens que remetiam as origens indígenas do país, assim como foi com a própria vestimenta de Frida.

A casa azul que hoje é o Museo Frida Kahlo tem fila para entrar, pouco tempo do horário que abrem as portas, uma multidão de gente espalha-se pelos cômodos e jardim, curiosos para ver e saber mais desta mulher que retratou sua vida em pinturas muitas vezes chamadas de surrealistas.

Uma experiência encantadora e única que aconselho para todos os visitantes da cidade amantes das artes.

Garota Sombria Caminha Pela Noite

Em uma leitura feminista do Garota Sombria Caminha Pela Noite, posso dizer que trata-se de uma cidade onde o mal está solto pela madrugada, mais rola essa garota que com sua capa preta anda de skate como testemunha de ações violentas no qual ela não possui medo e age como justiceira quando prega seus dentes sugando o sangue de bandidos e marginais. Apesar de assassina, encontra um rapaz que não a teme e a aceita como ela é: forte e empoderada. 
Nesta trama me incomoda um pouco o final onde seu amante sugere fugir, e de forma submissa ela vai, sem falar ou perguntar muito, como se ali houvesse algum tipo de salvação. 

Refém da Paixão: belo ou medonho?

Eu vi um filme que achei muito bonito. Era a história de um fugitivo que se abriga na casa de uma mulher e seu filho, e que no decorrer da trama acaba por conquistando-os e torna-se parte da família. Em cinco dias…

Refém da Paixão, filme do diretor Jason Reitman que também dirigiu Juno e Garota Infernal, é mais um filme que nos engana com um amor romântico que na verdade beira o sadomasoquismo repleto de abuso onde a mulher é sempre a vítima. Isso não o faz menos belo como obra cinematográfica, mas me assusta ao pensar sobre como mulheres reais vivenciam esses relacionamentos abusivos em nome do amor.

Que amor é esse que um homem que vc nunca viu, cheio de sangue e autoridade te obriga com chantagens psicológicas a levá-lo pra casa. E que quando você alcança a informação de que é um fugitivo perigoso, ele a força a acoberta-lo? Pode parecer que a protagonista o faz por vontade própria, mas percebi nos diálogos um ar constante de medo e desconfiança como se no momento que ela o recusasse, ele simplesmente a esfaquearia sem dó.

Um embuste que o roteiro tenta mostrar como injustiçado, mas que na minha opinião, não passa de mais um machista neurótico preocupado com a paternidade do filho que criava e que em um momento de agressividade mata “sem querer” a mulher. Bom, se ele não tivesse agido daquela forma a mulher não havia caído e morrido, e sabe Deus lá mais o quê ele fez para enlouquecer sua esposa a ponto dela assassinar seu filho.

Porquê o diretor quer reforçar esse clichê da esposa infiel, da mãe louca e assassina, enquanto o homem se posiciona como vítima? Veja bem em junho: Mãe louca abortadora (leia-se assassina); e em Mulher infernal: puta assassina (substituindo a esposa infiel). Parece que o diretor tem mesmo essa ideia de que nós mulheres somos desorientadas, perigosas e não confiáveis, como foi Eva, Medusa e aquela outra lá da caixa de Pandora. Valores que antes eram passados pelos mitos e contos, e que hoje fazem parte de filmes para “nos colocar em nossos lugares”.

Às vezes eu acho q estou com pensamentos psicóticos porque faço esse tipo de leitura das coisas que vejo, mas sempre chego à conclusão que é justo isso q eles querem: que adoecermos como insanas para continuarmos precisando sermos cuidadas e tê-los decidindo sobre nossos corpos e vida como o que acontece nos espaços repletos de homens ( e na maioria brancos) onde as leis são criadas.

Um cara como o do filme – que é um estranho que obriga a personagem a aceitá-lo em casa – põe a mão em suas costas; o q vc faz? Dá um pulo? Prende a respiração? Vomita? Não, vc encosta a sua cabeça no seu ombro. Desacreditei.  

Só sei que chega uma hora do filme que a personagem já tá transando com o fugitivo e já quer se fugitiva com ele e não bastasse, envolve o filho nessa doidera toda. Quando o garoto atende a porta e conta um monte de mentira pro vizinho, ela não se preocupa com o fato do garoto estar aprendendo a cometer crimes com seu novo “padrasto”. Pela primeira vez no filme eu vejo aquela mulher reagir, mas mais uma vez ela nos surpreende levantando valores que confundem ainda mais nossa mente.

Não é porquê uma mulher não está apanhando ou não está amarrada que não é vítima. A gente passa todos os dias por um tipo de violência que não percebemos na vida real e o filme vem reforçando e normatizando isso. É um tipo de domínio psicológico que o homem exerce sobre a personagem que muitos não perceberão que ela está em posição submissa, que está sendo controlada, enganada. Parece que é ela que quer, e muitos vão dizer assim, tanto quantos questionam mulheres estupradas se elas realmente não consentiram.

As mulheres são cúmplices dos seus escravizadores há milénios e nem sequer se identificam nesta posição. É justo por esse poder psicológico das normas e convenções sociais que faz com que um filme que poderia ser aterrorizante possa ser considerado belo. Quando uma obra possui esse tom ironia e é aberta o suficiente para nos gerar essas dúvidas, é uma obra boa, que posso interpretar de acordo com minhas vivências, o que me incomoda aqui, é a repetição desses personagens femininos dentro de padrões repetitivos onde a mulher aparece sempre de forma pejorativa.

Garganta Apertada

Eu não tô de olho roxo nem levei gosada no pescoço, mas estou sofrendo com o machismo velado daqueles que se acham os reis do rolê. Um tipo de exclusão social fortalecida pela vergonha e ataques à auto estima e que a maioria de nós não sabe como proceder.
Eu tenho certeza que se cada uma de nós olhar para seu dia a dia vai ver que a misoginia está aí presente, sendo executará por muitos que se dizem revoltados com as histórias de violência contra a mulher que circulam na mídia e redes, mas que em atitudes que passam muito mais desapercebidas, ferem nossos direitos básicos de ser respeitadas e felizes.
Vc tem uma história pra me contar? Eu tenho algo pra falar que tá aqui agarrado na garganta, fazendo força pra ser vomitado à qualquer momento.

Georgea O’keeffe no Brooklyn Museum

Logo que cheguei de Nova York eu assisti no Netflix um filme sobre a pintora Margaret keane que passou dez anos escondida enquanto seu marido ganhava os créditos de suas obras. Em uma breve passagem quando ele tenta justificar que mulheres não ganhavam reconhecimento como pintora, Margaret cita O’keeffe como exemplo contraditório. E realmente, na década de cinquenta quando esse diálogo aconteceu, O’keeffe já há muito era considerada a maior pintora norte-americana do século XX. O século acabou e ela continuou em seu pódio. E mesmo depois do tempo dobrado, no final do século quando eu ainda era uma adolescente e matava aula para passear em museus, O’keeffe continuava a influenciar jovens artistas como eu.

Apesar da lembrança distante, posso ter certeza de que se tratava de tal artista por muito anos ter guardado o catálogo da exposição com grandes flores que insinuavam formatos de órgãos femininos e que vieram a influênciar, anos mais tarde, minha produção com as flores-vaginas.

O’keeffe que considerava sua vestimenta uma forma de expressão no mundo, ganhou essa adorável exposição no Brooklyn Museum na qual eu tive o privilégio de visitar, e mais uma vez em minha vida, me deixar influenciar por sua obra, já que vestidos também são pauta da minha pesquisa de arte. Na exposição fica explicado que as linhas do corte da vestimenta eram as mesmas linhas que reproduzia em suas pinturas, e suas poses para as câmeras exibiam uma personalidade que valorizava esta apresentação publica. É como uma necessidade de dizer quem é, uma busca pela auto afirmação que depende dessa relação com o outro. Uma relação de auteridade.