Buster’s Mal Heart

filmes_12098_buster2Dois dos meus filmes favoritos são Cisne Negro e Clube da Luta, ambos com seus auges na epifania do personagem principal ao descobrir que tudo o que se passa acontece sobre uma perspectiva pessoal. Poderia dizer invenção ou até esquizofrenia, mas é a partir de Buster’s Mal Heart que posso afirmar uma construção social da verdade, que qualifica outras formas de pensar como doença e ridiculariza ideias como conspiração e terrorismo mantendo o Mito da Caverna de Platão atual mais de 25 séculos depois de escrito.

Está aí pra provar, a história ocidental européia que desqualifica a fala de seres desautorizados a terem suas histórias evidenciadas a partir de seus pontos de vista. Mulheres, negros e pobres sempre flertaram com a loucura. Se vc se opõe a ideia vigente, é encarcerado no hospício, prisão ou perambula nas ruas sendo apontado como mendigo louco.

Como não ficar louco em um modelo capitalista fadado ao fracasso onde se produz mais do que se precisa e ainda sim nem todas as pessoas têm acesso? Onde o controle é arma organizando, separando e estigmatizando o povo como na criação dos gêneros, nomenclaturas para sexualidades, castas por classe social, e até mesmo seu crédulo. De forma a manter o poder dos indivíduos no topo das classificações.

A partir daqui teremos spoiler.

Nem todos se adaptam à forma como a sociedade está organizada. Reais anarquistas são os que não suportaram a escola, sofreram com seus trabalhos, desistiram de tudo, tornaram-se andarilhos, nunca se adaptando e vivendo à margem.  Para Buster foi difícil, nem o ensino médio ele completou. Tem muitos problemas no trabalho e precisa se drogar para aguentar. Pensa em trabalhar meio período e quem sabe, até parar. Fala que não quer isso pra sua filha, mas sua esposa traz ele pra realidade onde as pessoas simplesmente não tem dinheiro para não viverem como escravas da automatização capitalista trabalhando para produzir o que você vai comprar mas não precisa, mas precisando para amenizar a amargura de ter que trabalhar para produzir tudo isso que você tem que comprar. Onde manter o ciclo é mais importante em si do que o que vc realmente precisa consumir.

A família é estrutura de base deste vício. A família o faz endividar para mantê-la. A dívida o move para produção em troca do que pague a sua dívida e mantenha a família e a atual conjuntura social reprimindo o erotismo, os desejos, sonhos, caprichos, concentrando as pessoas no trabalho e mantendo todo mundo ocupado nesse ciclo desnecessário. Bust mata a família e elimina o problema.

A dor que Bust sofria não se resolveu com a morte da família. Bust manteve seu corpo livre, porém sua mente estava presa, não, ele não era o último homem livre da terra. O momento de epifania mostrou que por mais que criasse suas ideias conspiratórias em um cenário onde um outro teria cometido esse crime, Bust desiste ao sentir a dor de simplesmente existir.

Você acompanha uma história e cria seu entendimento. Cada um analisa de acordo com suas experiências. Desdobramentos dos fatos e pontos de vistas divergentes envolvem a democracia mundial e o que chamamos de fake news é a prova que diversos pontos de vistas dados por pessoas diferentes podem existir comitantemente. Afinal o que é a verdade?

Roots, Panmela Castro, 2008, 10’14

Até pouco tempo atrás o espaço público era restrito à homens. Ainda hoje posso falar dos perigos da cidade para o corpo feminino. Durante muito tempo eu quis ser um homem e pensava habitar a pele errada. Para ser aceita e respeitada por gangs de homens, eu tive que me masculinizar: andar como eles, vestir-me como eles e até falar como eles. O vídeo em questão mostra o período entre 2006 – 2008 e estas minhas raízes no graffiti ilegal.

Em um determinado momento, percebi que o quê eu almejava nunca foi ser um homem, mas sim possuir o poder que eles exibiam e eu como mulher, nunca alcançaria. Que por mais que praticasse a mimese, o fato de eu possuir um corpo feminino, denunciava quem eu era e o meu lugar na casta de poderes. Então logo após este período eu iniciei a série “Lady Grinning Soul” onde subvertendo o papel destinado a mim, troco minhas vestimentas masculinas por uma indumentária hiper feminina, colorida e com flores; e o meu gestual agressivo e cheio de regras masculinas por poses de menina.

PK: Um Filme de Amor

Como grande fã de filmes de ficção ciêntifica, vasculhei no Netflix algo de legal para ver, escolhendo de forma aleatória e sortuda PK. Em seus textos online, pensa-se como uma crítica ao Hinduísmo, mas eu o vejo como um filme de amor daqueles que nos acabamos de chorar ao final.

PK toca lá no fundo da nossa estrutura social, onde a guerra e o ódio é efeito colateral dessa nossa forma de se organizar, onde instituições como a igreja fortalecem esse “engano”. PK fala de amor e sinceridade, que em nossa civilização são duas palavras difíceis de se andar junto, e sua mentira ao final, é o que sentencia a questão.

 

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Eu Não Sou Um Homem Fácil

Muitos podem julgar que o filme promove que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a nossa. Sádica, não diria tratar-se disso, mas sim criar uma ironia na inversão dos papéis para se fazer pensar a mulher enquanto ser oprimido. Colocando o homem no papel da mulher, o filme faz-se sentir na pele o que vivemos em nosso dia a dia.

Ainda penso que a roteirista e diretora Eleonore Pourriat pegou muito leve ao colocar a inversão como um delírio do protagonista ao bater a cabeça em um poste de aço, porque assim, em todo o tempo você tem a sensação de que aquilo ali é algo ocasional e que a qualquer momento voltaria ao normal; o que realmente acontece quando a Alexandra se depara com o mundo normal, me incomodando pelo fato de parecer punida por seus atos quando ainda tinha algum poder: até em um filme aparentemente feminista, a mulher se da mal no final.

Se fosse eu a escrever este filme, tornaria-ló invertido desde o início e ainda fecharia com a mulher esculhambando o macho no final, como acontece em nosso mundo real onde saímos sempre no prejuízo.

Mas só pra fechar esta reflexão, vale dizer que o ideal de uma sociedade matriarcal é uma sociedade igualitária, onde justo pela mulher ter poder, poderia organiza-lá de forma justa e compreensiva.

Santo Amaro Era Skatista

Acabei de ver o documentário do Ademar Luquinhas na Globo News e fora o depoimento de sua mãe, não houve em nenhum momento qualquer tipo de participação ou fala de mulheres. Não houve porque não há. Porque mulher ali não é parceira, é um objeto descartável como um skate que quebra e já não serve mais. Esse fato só mostra a segregação, machismo e até misoginia que esse movimento trás. E quando falo de movimento não falo apenas de skate e Ademafia, falo de um problema estrutural de nossa sociedade: o patriarcado. O sonho deles era construir uma pista de skate, o meu é construir uma cena onde mulheres possam participar e até ser protagonistas das histórias do mundo lado a lado de importância com os homens.

Meu encontro com Annie Sprinkle

Gavin Brown’s enterprise é uma boa galeria de Nova York que já recebeu show de artistas que eu gosto muito como Catherine Opie e Alex Katz. Porém até uma semana atrás eu nem sabia que a galeria existia (mesmo eu já seguindo ela no Instagram) até minha amiga Sofia me enviar o seguinte convite.

Eu havia acabado de encerrar uma sequência de dois cursos com a curadora Daniela Labra, um primeiro de performance e um segundo sobre arte fora do cubo e em ambos, ela cita Annie Sprinkle o que me fez vibrar com a possibilidade de encontrá-la.

Annie foi a primeira atriz pornô a dar certo no mundo da arte, construindo uma carreira a nível internacional. Trabalha em diversas mídias para falar sobre seu interesse de que as pessoas obtenham informação sobre seus direitos sexuais e para ajudar nesse objetivo, a artista também se forma com PhD em sexualidade.

No ano de 1992 ela apresenta a performance Public Cervix que veio a ser a sua principal influência em meu trabalho com performances.

Logo que ela chegou na galeria, já fui ao seu encontro me apresentando e iniciando uma conversa com ela e sua companheira Beth Stephens. Ambas foram muito atenciosas e carinhosas: nada mais do que eu poderia esperar de uma pessoa que diz amar as mulheres.

Além das obras de Annie e Beth, a exposição Putting Out conta com outros artistas que falam sobre identidade, trabalho e sexualidade; até 10 de agosto.

Vagina Dentada (Filme)

Sempre que escuto o sobrenome O’keeffe me lembro das flores da pintora norte-americana que remetem a suaves e delicadas vaginas. Quando era adolescente, eu costumava fugir das aulas do Liceu de Artes e Ofícios para ir o Museu de Belas Artes, e em uma dessas visitas eu conheci a obra de Georgia O’keeffe. Esta experiência iria influenciar minha produção definitivamente: eu comecei a experimentar a pintura de flores como vaginas e vice versa, até que cheguei na vagina dentada, referência da leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

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Pesquisando imagens no google para vagina dentada, cheguei ao cartaz desse filme de Mitchell Lichtenstein, filho do artista da Pop art Roy Lichtenstein, em que por coincidência ou não,  tem como protagonista uma garota chamada Dawn O’keeffe.

O filme de tão ruim, chega a ser bom. Justamente pelo texto e a direção do Lichtenstein, que enquanto homem, apresenta ao mundo o temor diante de nós mulheres; e o que torna o filme bastante caricato.

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De maneira bastante sutil, a primeira cena do filme já mostra o que está por vir e é o único motivo que não faz você desistir de ve-lo até o final, pois apesar de chato na construção da personagem, vc fica apreensiva aguardando a hora dos pintos começarem a voar. Então o filme entra em uma sequencia que a principio te enoja com todo o sangue esguichando de órgãos genitais masculinos, mas que muda repentinamente para um prazer sádico de quem aprecia veem homens violadores finalmente levando o que eles merecem.

Não se trata de um filme feminista, mas de um filme sobre mulheres criado sob a perspectiva masculina. Cenas como quando a mocinha finalmente consegue transar com um rapaz sem que decepasse seu falo, denunciam isso. Algo sobre um velho fetiche masculino em que até a mais difícil e desencaminhada das mulheres, pudesse ser seduzida, dominada, amansada e transformada em uma verdadeira mulher por um herói. Como já não bastasse esse velho conto de fadas masculino, o rapaz que consegue transar com a protagonista (há essa altura já a chamamos de mocinha), o faz drogando-a como se não tivéssemos passado os últimos dez anos visibilizando que ato sexual com mulher dopada / bêbada / desmaiada é estupro. Ou seja, mesmo quando a relação no filme parece consentida, é no final estupro também.

Encontrei essa matéria na Vice que fala um pouco da dificuldade com filmes como este e aqui vocês podem assisti-lo com legenda no youtube.

O Congresso Futurista

Outro dia minha mãe me perguntou sobre a relevância das artes visuais para nossa vida. Sempre que penso nisso me lembro da Bauhaus e Mondrian e o porquê a madeira aparente em uma mesa simples subverteu a lógica rococó no design. Bom ela não entenderia já que adora uma penteadeira em estilo Luiz XV. Hoje depois de ver “O Congresso Futurista” me veio o exemplo do manifesto surrealista e como Dali e Brake deixaram como herança a possibilidade de termos um filme psicodélico como este.

Confesso que me entediei em um certo ponto: animações nunca foram o meu forte e apesar de ficção cientifica ser meu gênero favorito, um filme tão desconexo com a realidade não me atrai. Foi quando puxei o fundamento da “A Obra Aberta” de Umberto Eco e a partir de então tudo passou a fazer sentindo e eu acabei me emocionando em uma cachoeira de lágrimas.

A ideia de obra aberta passa pelo contexto que a arte não deve se auto-explicar, mas oferecer conteúdo para que o público use de suas próprias experiências para interpretar a obra e completar as lacunas criadas por ela. É a mesma ideia da droga inventada no filme onde tudo o que se cria vem dos desejos do individuo.

Pessoalmente essa ideia foi um tapa na minha cara pois o filme foi baixado de uma pasta pessoal de um rapaz que conheci. Um rapaz de beleza extraordinária que me fez criar a ideia de que possuía uma sensibilidade e inteligência nada ordinária. É como aquela droga do filme que vc passa a ver as coisas como vc quer que sejam, e a partir desta consciência eu desconstruí essa minha criação e enxerguei fora da caverna os detalhes daquela silhueta obscura. Isso é sobre a beleza da potência de nossas criações, e na minha percepção da obra, a protagonista cria ao final sua fuga: revive naquele novo mundo a vida com o filho perdido, e então, chego a conclusão de que nada temos a temer das ilusões, pois o amor sempre faz sentido.

Garota Sombria Caminha Pela Noite

Em uma leitura feminista do Garota Sombria Caminha Pela Noite, posso dizer que trata-se de uma cidade onde o mal está solto pela madrugada, mais rola essa garota que com sua capa preta anda de skate como testemunha de ações violentas no qual ela não possui medo e age como justiceira quando prega seus dentes sugando o sangue de bandidos e marginais. Apesar de assassina, encontra um rapaz que não a teme e a aceita como ela é: forte e empoderada. 
Nesta trama me incomoda um pouco o final onde seu amante sugere fugir, e de forma submissa ela vai, sem falar ou perguntar muito, como se ali houvesse algum tipo de salvação. 

Legalize Já!

Quando eu estava no primeiro ano do antigo segundo grau eu queria ser o Glauco. O Glauco era um rapaz negro, mais velho, bastante popular no colégio. O que me fascinava no Glauco era o poder e a liberdade que ele carregava, por isso, eu queria ser como o Glauco. O Glauco escutava Planet Hemp e por isso, a banda pra mim se tornou sinônimo de avanço.

Eu sabia que o Planet Hemp cantava sobre maconha, e maconha era algo que meus pais não gostavam, logo meus pais não queriam minha emancipação. Queriam que eu continuasse a ser a trouxa, aparelhada que sofria bullying, assim, eu continuaria dependente deles pelo resto da minha vida.

Depois de ver o filme “Legalize Já!” Na pre estreia no Odeon durante o Festival do Rio na última semana, eu entendi que a maconha ali nunca foi o foco, o foco sempre foi a liberdade: ideias que nos tornam seres plenos e completos. 

Quando se repreende a maconha, não estamos reprimindo a droga em si, estamos reprimindo nosso poder de decisão e controle sobre nossas vidas, uma metáfora para pequenas coisas que acontecem em nosso cotidiano e que nos sufocam.

Eu não sou mais aquela menina do ensino médio, e não, não fumo maconha, mas caminho em busca da minha liberdade e de exercer uma vida plena sem que ninguém possa decidir por mim.

Bokeh: metáfora para o filme ou para a vida?

Se vc não gosta de cenas longas sem diálogos: não veja. Se você não gosta de diálogos longos que não explicam nada: não veja. 

Esse não é um filme com mais uma possibilidade apocalíptica. É um filme que pauta a vida sem o sentido diário construído por nossa sociedade. É um bokeh, um borrão fotográfico sem importância e que pode ser descartado, e ainda sim é belo. 

Essa seria a vida sem nossos princípios e nossos objetivos. Um papel em branco que pode ser jogado fora ou usado para construir uma nova história em tentativas melhores que a nossa. Mas ainda sim, o homem é bobo.

O homem desse filme disponível no Netflix vê uma oportunidade de lucro em proveito próprio, mesmo que esse não venha através do dinheiro que agora não tem mais importância, mas através de uma vida fácil e despreocupada. Enquanto isso a mulher está preocupada com um motivo de existência que transcendesse o mero gozo pessoal e que trouxesse a vida um sentido.

O homem é incapaz de aceitar seus questionamentos, com uma irresponsabilidade emocional com sua parceira, leva-a ao seu fim. O seu gozo torna-se seu próprio castigo.

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Refém da Paixão: belo ou medonho?

Eu vi um filme que achei muito bonito. Era a história de um fugitivo que se abriga na casa de uma mulher e seu filho, e que no decorrer da trama acaba por conquistando-os e torna-se parte da família. Em cinco dias…

Refém da Paixão, filme do diretor Jason Reitman que também dirigiu Juno e Garota Infernal, é mais um filme que nos engana com um amor romântico que na verdade beira o sadomasoquismo repleto de abuso onde a mulher é sempre a vítima. Isso não o faz menos belo como obra cinematográfica, mas me assusta ao pensar sobre como mulheres reais vivenciam esses relacionamentos abusivos em nome do amor.

Que amor é esse que um homem que vc nunca viu, cheio de sangue e autoridade te obriga com chantagens psicológicas a levá-lo pra casa. E que quando você alcança a informação de que é um fugitivo perigoso, ele a força a acoberta-lo? Pode parecer que a protagonista o faz por vontade própria, mas percebi nos diálogos um ar constante de medo e desconfiança como se no momento que ela o recusasse, ele simplesmente a esfaquearia sem dó.

Um embuste que o roteiro tenta mostrar como injustiçado, mas que na minha opinião, não passa de mais um machista neurótico preocupado com a paternidade do filho que criava e que em um momento de agressividade mata “sem querer” a mulher. Bom, se ele não tivesse agido daquela forma a mulher não havia caído e morrido, e sabe Deus lá mais o quê ele fez para enlouquecer sua esposa a ponto dela assassinar seu filho.

Porquê o diretor quer reforçar esse clichê da esposa infiel, da mãe louca e assassina, enquanto o homem se posiciona como vítima? Veja bem em junho: Mãe louca abortadora (leia-se assassina); e em Mulher infernal: puta assassina (substituindo a esposa infiel). Parece que o diretor tem mesmo essa ideia de que nós mulheres somos desorientadas, perigosas e não confiáveis, como foi Eva, Medusa e aquela outra lá da caixa de Pandora. Valores que antes eram passados pelos mitos e contos, e que hoje fazem parte de filmes para “nos colocar em nossos lugares”.

Às vezes eu acho q estou com pensamentos psicóticos porque faço esse tipo de leitura das coisas que vejo, mas sempre chego à conclusão que é justo isso q eles querem: que adoecermos como insanas para continuarmos precisando sermos cuidadas e tê-los decidindo sobre nossos corpos e vida como o que acontece nos espaços repletos de homens ( e na maioria brancos) onde as leis são criadas.

Um cara como o do filme – que é um estranho que obriga a personagem a aceitá-lo em casa – põe a mão em suas costas; o q vc faz? Dá um pulo? Prende a respiração? Vomita? Não, vc encosta a sua cabeça no seu ombro. Desacreditei.  

Só sei que chega uma hora do filme que a personagem já tá transando com o fugitivo e já quer se fugitiva com ele e não bastasse, envolve o filho nessa doidera toda. Quando o garoto atende a porta e conta um monte de mentira pro vizinho, ela não se preocupa com o fato do garoto estar aprendendo a cometer crimes com seu novo “padrasto”. Pela primeira vez no filme eu vejo aquela mulher reagir, mas mais uma vez ela nos surpreende levantando valores que confundem ainda mais nossa mente.

Não é porquê uma mulher não está apanhando ou não está amarrada que não é vítima. A gente passa todos os dias por um tipo de violência que não percebemos na vida real e o filme vem reforçando e normatizando isso. É um tipo de domínio psicológico que o homem exerce sobre a personagem que muitos não perceberão que ela está em posição submissa, que está sendo controlada, enganada. Parece que é ela que quer, e muitos vão dizer assim, tanto quantos questionam mulheres estupradas se elas realmente não consentiram.

As mulheres são cúmplices dos seus escravizadores há milénios e nem sequer se identificam nesta posição. É justo por esse poder psicológico das normas e convenções sociais que faz com que um filme que poderia ser aterrorizante possa ser considerado belo. Quando uma obra possui esse tom ironia e é aberta o suficiente para nos gerar essas dúvidas, é uma obra boa, que posso interpretar de acordo com minhas vivências, o que me incomoda aqui, é a repetição desses personagens femininos dentro de padrões repetitivos onde a mulher aparece sempre de forma pejorativa.

Pintora tem seu sonho roubado

Atriz Amy Adams que interpretou Margaret Keane nos cinemas

Poderia ser uma novela em suas criações inusitadas, mas a história do filme “Grandes Olhos” que acabou de estrear no Netflix, é baseada em fatos reais: Margaret Keane é mais uma mulher que foi lesada em sua trajetória e por sorte – diferente de muitas que morreram pobres, anônimas e desiludidas – ainda conseguiu reaver algum brilho inscrevendo-se com alguma relevância na história da arte Americana.
Cartaz do filme de Tim Burton

O próprio Tim Burton, diretor do filme é um dos artistas atuais influenciados por Margaret. Cinquenta anos depois da década citada pelo filme, podemos dar créditos à artista por toda a nossa geração de pintores do pop surrealismo dentre outros movimentos. Também conhecido como LowBrow art, é um movimento popular das artes que inicia a partir de Margaret com toda uma nova geração de artistas cartunistas e ilustradores a partir da década de 70. O fato do emprego da representação figurativa principalmente com as técnicas de pinturas tradicionais e o forte uso da perspectiva, faziam este movimento nadar na contramão do que se esperava de uma arte de vanguarda (que caminhava cada vez mais para a abstração) o que criava o entendimento de que nenhuma instituição de arte as aceitariam e por isso da criação do termo “lowbrow” (arte não-culta). Tal questão já vinha sendo discutida no próprio movimento surrealista, mas este aimda se salvava pelas questões conceituais. Hoje, cinquenta anos mais tarde, já passamos pela pop arte e retornamos a aceitar uma tradição figurativa o que fortaleceu a atual geração de pop surrealistas como o famoso pintor Marc Ryden.

Obra de Marc Ryden
Obra de Margaret Keane

Muitos artistas de street art são confundidos como pintores pop surrealistas e eu que bebo de várias fontes para construir meu trabalho deixo evidente minhas influências do pop surrealismo. Coincidentemente, encontrei uma das obras de Margaret em que pintou siamesas como as que faço muito constantemente hoje. Certamente vou guardar para mim essa ideia de que nos mulheres, mesmo distantes pela geografia, cultura ou tempo, passamos por sentimentos que fazem nos expressar visualmente de formas similares.

Complicated women por Margareth Keane