Vagina Dentada (Filme)

Sempre que escuto o sobrenome O’keeffe me lembro das flores da pintora norte-americana que remetem a suaves e delicadas vaginas. Quando era adolescente, eu costumava fugir das aulas do Liceu de Artes e Ofícios para ir o Museu de Belas Artes, e em uma dessas visitas eu conheci a obra de Georgia O’keeffe. Esta experiência iria influenciar minha produção definitivamente: eu comecei a experimentar a pintura de flores como vaginas e vice versa, até que cheguei na vagina dentada, referência da leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

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Pesquisando imagens no google para vagina dentada, cheguei ao cartaz desse filme de Mitchell Lichtenstein, filho do artista da Pop art Roy Lichtenstein, em que por coincidência ou não,  tem como protagonista uma garota chamada Dawn O’keeffe.

O filme de tão ruim, chega a ser bom. Justamente pelo texto e a direção do Lichtenstein, que enquanto homem, apresenta ao mundo o temor diante de nós mulheres; e o que torna o filme bastante caricato.

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De maneira bastante sutil, a primeira cena do filme já mostra o que está por vir e é o único motivo que não faz você desistir de ve-lo até o final, pois apesar de chato na construção da personagem, vc fica apreensiva aguardando a hora dos pintos começarem a voar. Então o filme entra em uma sequencia que a principio te enoja com todo o sangue esguichando de órgãos genitais masculinos, mas que muda repentinamente para um prazer sádico de quem aprecia veem homens violadores finalmente levando o que eles merecem.

Não se trata de um filme feminista, mas de um filme sobre mulheres criado sob a perspectiva masculina. Cenas como quando a mocinha finalmente consegue transar com um rapaz sem que decepasse seu falo, denunciam isso. Algo sobre um velho fetiche masculino em que até a mais difícil e desencaminhada das mulheres, pudesse ser seduzida, dominada, amansada e transformada em uma verdadeira mulher por um herói. Como já não bastasse esse velho conto de fadas masculino, o rapaz que consegue transar com a protagonista (há essa altura já a chamamos de mocinha), o faz drogando-a como se não tivéssemos passado os últimos dez anos visibilizando que ato sexual com mulher dopada / bêbada / desmaiada é estupro. Ou seja, mesmo quando a relação no filme parece consentida, é no final estupro também.

Encontrei essa matéria na Vice que fala um pouco da dificuldade com filmes como este e aqui vocês podem assisti-lo com legenda no youtube.

A Misóginia e a Obra Femme Maison para o Frestas

Fui convidada pela pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda para escrever algo sobre a minha obra Femme Maison para sua pesquisa sobre feminismos contemporâneos. Aqui vocês podem conferir o texto:

Entre os anos de 1946 e 1947, a importante artista francesa americana Louise Bourgeois criou a série de pinturas Femme Maison que abordava a questão da identidade feminina. Eu percebo a violência contra as mulheres como um problema de identidade feminina e assim – diante dos alarmantes números brasileiros – mesmo em 2017, ainda uma questão a ser debatida. Apropriando-me deste título, crio o meu primeiro trabalho desta série, construído durante os meses de maio, junho e julho em meu atelier no bairro do Catete e montado em Agosto no Sesc de Sorocaba/SP para o Frestas Trienal de Artes à convite da curadora Daniela Labra.

A madrinha da obra, Clara Averbuck posa comigo para as câmeras dentro da instalação no Sesc.

Nesta primeira obra, eu encomendo para minha mãe a decoração de uma casa de boneca nos moldes do meu antigo quarto no bairro da Penha, suburbio do Rio de Janeiro. Cumprida a missão e instalada a obra, o público pode adentrar no espaço, experimentando apetrechos e se fotografando. Nesta nova série, abordo o ridículo feminino, questionando a obrigatoriedade de certas características femininas para a legitimação do ser enquanto mulher, visto que, acredito na não aceitação de outras/novas possibilidades resulta na violência.
As performances criadas por mim, surgiram a partir das experiências na produção de graffitis pela urbe. Comecei a pensar como obra, não apenas a imagem abandonada nas paredes da cidade, mas como também o processo, em essência a problematização da relação do meu corpo feminino em diálogo com a paisagem urbana e as questões de alteridade. Junto ao convite para a criação da performance Femme Maison para o Frestas, Daniela Labra propôs um mural que depois de algumas pesquisas, foi decidido que seria pintado no Palacete Scarpa, antigo prédio tombado pelo patrimônio histórico municipal e atual sede da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade.

Meu graffiti Femme Maison no Palacete Scarpa em Sorocaba

Escolhi para a parede cega do prédio, a imagem de duas mulheres unidas por um terceiro olho adornado pelo o que chamo de Flôr. Flores-vaginas apropriadas da obra de Georgia O’keeffe e muitas vezes dentadas como citado na obra Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, são constantes nas minhas representações pelas cidades. Pela primeira vez, essa criação sofreu, ao meu entender, ataques violentos de misoginia: criou-se uma polêmica na mídia, internet, ruas e universidades sobre o fato de haver uma “genitália feminina tamanho gigante pintada em um prédio público tombado”, palavras usadas pelo vereador Pastor Luis Santos (PROS) em sua fala contra o graffiti na câmara dos vereadores.
Voltando à minha ideia inicial sobre a questão da identidade feminina, e a existência de limitações em relação à mulher ainda no século XXI; quando a mulher propõe características que não são consideradas próprias desta, há um estranhamento, rejeição e em muitos casos, a violência como no linchamento virtual do graffiti do Palacete Scarpa. Enquanto desde pequenos os meninos são encorajados a exibir o pinto mijando na rua, ou mostrando o quanto cresceu para suas tias, percebendo-o como sua ferramenta de orgulho e poder, nós meninas somos alvos de críticas obrigando a nos esconder fechando as pernas, deixando de nos tocar e nos fazendo sentir envergonhadas de nossa parte que sequer pode falada: a buceta.
Na minha primeira visita à Sorocaba em busca da locação para o graffiti, uma das coisas que conheci foi um pelourinho que em seu formato fálico parece não incomodar ninguém, até porque, penso eu, além de celebrar o poder deste membro, reafirma a soberania do homem (branco) sobre todos nós. Neste sentido, colocar uma vagina em uma situação central, é como dar um poder inadmissível para as mulheres, esquecendo a vergonha sugerida em seu corpo. Pura misoginia.
Ao final, o vereador Pastor, após usar minutos para expor sua opinião de forma desrespeitosa sobre a minha obra na câmara, entrou com um requerimento no ministério público para que a mesma fosse apagada e solicitou na imprensa que eu me retratasse.
Acredito que o graffiti Femme Maison de Sorocaba, acabou por cumprir o seu papel fazendo toda uma cidade refletir acerca da mulher em nossa sociedade, dando visibilidade às dificuldades que enfrentamos em nosso dia a dia, e que ficam veladas, de difícil conversa, ridicularizadas e desqualificadas, mas que aqui pulsou pela arte.