Ser fina é questão de Sobrevivência

Há artistas (ninguém específico pois isso acontece muito e em várias áreas) que veem vantagem em jogar umas roupas quaisquer, andar descabelada, fazer pose de bandida, tirar onda com umas gírias aí. Eu não vejo vantagem. Não vejo pq não sou branca.

Antes de sair de casa confiro se minha roupa está alinhada e se meu cabelo cheio não está chamando muita atenção. Treino meu vocabulário colocando todos os “s” no final. Evito gritar, falar alto e andar espalhafatosa nos lugares. Me lembro quando a moça me chamou de favelada pq eu gritava no metrô. Não tem problema ser favelada, o problema foi a forma pejorativa q ela me olhou. Se fossem só olhares estava tudo bem, mas eu já tomei coronhada na nuca, corri de um tanto de tiro e já fui espancada por horas mais de uma vez. É por isso BB, que a maturidade me ensinou a me esforçar pra parecer uma pessoa bem cuidada, falando bem e mostrando conhecimento sobre o que faço. Pois assim talvez me respeitem mais. Mesmo assim se der mole o povo pisa, trabalhar minha aparência é apenas uma tentativa de minimizar os danos. Assim evito que o outro me trate a partir do seu olhar racista e afasto a iminência da morte. Para aqueles q não tem certeza se voltarão para casa, qualquer oportunidade de passar batido já ajuda.

Só faz do esculhambo um persona quem tem privilégios o suficiente pra não ter medo de morrer. Falo de alguém que faça parte da branquitude e se coloque em situações que marginalizam pessoas negras mas que no caso delas, por não serem negras, tiram onda de cool e dão até dinheiro. Acho ofensivo e racista quem se apega a um personagem que é a história real de tantas minas e boys que são mortos por serem assim. Esta pessoa q não é preta, basta pentear o cabelo liso, colocar uma roupinha direitinha, para ficar com cara de princesa, mas ela faz de tudo para ficar com “cara de marginal”, pq esse kit na pele do branco é só uma tiração de onda e nada mais. Apropriação cultural é isso, levar vantagens em assuntos onde o outro é desmoralizado, agredido e morto.

O senhor João não foi o único. Todos os dias pessoas negras são mortas por serem negras. Aprende isso: só sai de casa sem medo de morrer quem tem os privilégios da branquitude.

Pedido de Socorro

Esse texto foi escrito em caracter de registro e proteção. Também é um texto explicativo, pois estou passando por uma situação bastante humilhante por parte de um homem próximo que alegava meu bem querer. Estou tendo que deixar de frequentar lugares e me isolar socialmente. Hoje esse homem me persegue contando histórias sobre mim de forma que me prejudicam na minha carreira e colocando em cheque minha lucidez e idoneidade. Primeiramente peço que não passem para frente essas histórias e quem tiver presenciado esses comentários e estiver disposta a testemunhar em um boletim de ocorrência por difamação, eu desde já agradeço.

Por séculos mulheres quando se impunham eram chamadas de histérica, neuróticas, treteiras. Na história iam da bruxaria até a loucura, deixando os hospitais psiquiátricos para seguir vendo seu juízo questionado tantas vezes até hoje, em pleno século XXI.

Essas palavras são frequentemente utilizadas para desqualificar reações emocionais legítimas de mulheres como raiva, medo, “desobediência”, reações que são socialmente indesejáveis em mulheres, que devem ser submissas, calmas e pacíficas.

Existe uma tese de 88 sobre “Complexo de Cassandra”: o sofrimento das mulheres que, desmerecidas em seus sentimentos e atos simplesmente por serem mulheres, e consequentemente percebidas como “irracionais” e “histéricas”, não encontram apoio e são desacreditadas quando contam acontecimentos reais pelos quais passaram, ou sintomas que de fato sentem.

É curioso perceber, também, que as mesmas emoções, quando demonstradas por homens, são percebidas de outra forma. Afinal raiva, falar alto, agressividade, imposição física, etc. – são consideradas formas “razoáveis” de se reagir enquanto homem.

Amigas, eu uma mulher que trabalho todos os dias com estas questões, ainda passo todos estes mesmo dias por esta desqualificação das minhas percepções e sentimentos por homens que se dizem contemporâneos e progressistas. Sendo eu, humilhada e perseguida ( a fim de me por no meu lugar) por aqueles que antes diziam me amar, mas que a partir do momento que questiono sua posição, se voltam contra mim de forma extremamente cruel e malígna.

Não sou eu q sou treteira, nem minhas amigas são “pessoas difíceis”, é que a gente ainda vive em um mundo misógino e não aceitamos mais passar por isso.

Pode me mandar pra terapia, pro psiquiatra, pra fogueira ou pro hospício, mais ainda sim, minhas imagens estarão por aí, como um símbolo que nós mulheres iremos resistir.

Buster’s Mal Heart

filmes_12098_buster2Dois dos meus filmes favoritos são Cisne Negro e Clube da Luta, ambos com seus auges na epifania do personagem principal ao descobrir que tudo o que se passa acontece sobre uma perspectiva pessoal. Poderia dizer invenção ou até esquizofrenia, mas é a partir de Buster’s Mal Heart que posso afirmar uma construção social da verdade, que qualifica outras formas de pensar como doença e ridiculariza ideias como conspiração e terrorismo mantendo o Mito da Caverna de Platão atual mais de 25 séculos depois de escrito.

Está aí pra provar, a história ocidental européia que desqualifica a fala de seres desautorizados a terem suas histórias evidenciadas a partir de seus pontos de vista. Mulheres, negros e pobres sempre flertaram com a loucura. Se vc se opõe a ideia vigente, é encarcerado no hospício, prisão ou perambula nas ruas sendo apontado como mendigo louco.

Como não ficar louco em um modelo capitalista fadado ao fracasso onde se produz mais do que se precisa e ainda sim nem todas as pessoas têm acesso? Onde o controle é arma organizando, separando e estigmatizando o povo como na criação dos gêneros, nomenclaturas para sexualidades, castas por classe social, e até mesmo seu crédulo. De forma a manter o poder dos indivíduos no topo das classificações.

A partir daqui teremos spoiler.

Nem todos se adaptam à forma como a sociedade está organizada. Reais anarquistas são os que não suportaram a escola, sofreram com seus trabalhos, desistiram de tudo, tornaram-se andarilhos, nunca se adaptando e vivendo à margem.  Para Buster foi difícil, nem o ensino médio ele completou. Tem muitos problemas no trabalho e precisa se drogar para aguentar. Pensa em trabalhar meio período e quem sabe, até parar. Fala que não quer isso pra sua filha, mas sua esposa traz ele pra realidade onde as pessoas simplesmente não tem dinheiro para não viverem como escravas da automatização capitalista trabalhando para produzir o que você vai comprar mas não precisa, mas precisando para amenizar a amargura de ter que trabalhar para produzir tudo isso que você tem que comprar. Onde manter o ciclo é mais importante em si do que o que vc realmente precisa consumir.

A família é estrutura de base deste vício. A família o faz endividar para mantê-la. A dívida o move para produção em troca do que pague a sua dívida e mantenha a família e a atual conjuntura social reprimindo o erotismo, os desejos, sonhos, caprichos, concentrando as pessoas no trabalho e mantendo todo mundo ocupado nesse ciclo desnecessário. Bust mata a família e elimina o problema.

A dor que Bust sofria não se resolveu com a morte da família. Bust manteve seu corpo livre, porém sua mente estava presa, não, ele não era o último homem livre da terra. O momento de epifania mostrou que por mais que criasse suas ideias conspiratórias em um cenário onde um outro teria cometido esse crime, Bust desiste ao sentir a dor de simplesmente existir.

Você acompanha uma história e cria seu entendimento. Cada um analisa de acordo com suas experiências. Desdobramentos dos fatos e pontos de vistas divergentes envolvem a democracia mundial e o que chamamos de fake news é a prova que diversos pontos de vistas dados por pessoas diferentes podem existir comitantemente. Afinal o que é a verdade?

Porquê Emicida me Deixa Triste

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Uma vez eu falei assim para a Lívia Cruz: “- Para que tá feio amiga.” Ela me esculhambou. Eu não fiz nada.

Eu não fiz nada porquê já fiz muito. Já xinguei, fui homofóbica, racista, falei mal e até bati nos outros. Mas chegando à casa dos 40, a gente vê  que a gente muda e muda o mundo. E eu, escolhi mudar buscando formas mais assertivas.

Quando eu vejo o Emicida usar seu poder para desqualificar essas meninas, eu fico triste. Eu vi a molecada do rap chegar ao poder. Acreditei que eles iam transformar a sociedade. O quê em parte é verdade. Mas em uma análise nem tão profunda, identifico falas contra a luta de classes e o racismo, mas apenas um corpo-instrumento quando pensamos na manutenção do Patriarcado, afinal são homens e essa conjuntura os favorece.

A Flora é foda. Artista completa … personalidade difícil. Criou uma metáfora linda com Preta de Quebrada, mas cismou que não era só música, que era vida. A auto identificação racial pode ser válida no Brasil. Temos que entender a construção da identidade do sujeito, mas o sujeito também tem que entender, que o colorismo, a maneira como o outro te lê, é o que vai fazer que você seja desqualificado, inferiorizado e marginalizado, sujeito ao preconceito, exclusão, jogado ao campo do não privilégio. E a leitura que fazemos de Flora é, que ela é branca. Privilegiada. Mas o Emicida também fez Trepadeira, uma música que além de incitar a violência contra a mulher, a deprecia pela sua livre sexualidade e ainda direciona para as pretas: Afinal a nega é a trepadeira. O Emicida assentou a mulher negra naquele velho estereótipo hipersexualizado. Isso me lembrou quando Livia e Sweet também fetichizaram os homens negros, e Emicida, criticou. Criticou e se casou com uma branca abandonando a ex companheira porque, ao meu ver, não importa ali dar moral à mulher negra (aquela hipersexualizada que serve pra cama mas não pra sociedade), embarcar no jogo do Patriarcado exibindo como status uma mulher bem padrão, como um prêmio, um objeto que vc adquire, o faz pertencer ao poder.

Porquê mulher negra não faz história, afinal foi isso que ele disse no post apagado no perfil da Nega Rê. Na época ele não fez aquele típico jogo de batalha (Link da batalha), ele à hostilizou em um nível alto de misoginia, falando do (e pegando no) cabelo (Tópico tão delicado para as negras), chamando de feia e ao final, afirmando a mulher negra merecedora de seu papel como diarista, aquela que pertence à senzala. Mesmo de etnia similares, o Emicida enquanto homem terá dificuldades de entender  os processos que param as mulheres em suas carreiras e ele vai achar que venceu por talento, porquê é um iluminado divino, porquê tinha que ser.  O Emicida não vai levar em consideração que as ultimas falas que ele usou pra desqualificar essas meninas, para acentuar e promover seus erros, são discursos (Veja Eva e Pandora) feitos desde que o mundo é mundo para colocar as mulheres em seus lugares: submissas como escadas para que os homens alcancem o sucesso.

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Porém foi-se o tempo em que todas nós éramos escravas coniventes com nossos senhores. Hoje a gente questiona, debate. E, não venha me dizer que somos agressivas, loucas e descontroladas, pois diante de tanta violência que passamos em todos os processos de nossa vida, estas são reações. Malcom X pegou em armas, Mather Luther king optou pelo diálogo. Nós feministas, temos sim também muitas formas de pensar e lutar. Apesar de canalizar minhas energias para o pacifismo, não julgo essas mulheres que pegam em armas.

Se eu tivesse a oportunidade de falar algo com o Emicida, eu diria para ele deixar com nois. Deixa que a gente se entende, se mistura, se conversa e se educa. Briga também se tiver que brigar. Mas deixa a gente. Não precisamos de mais um homem, seja ele branco ou negro, nos criticando, dizendo se estamos certas ou erradas e nos dizendo mais uma vez como devemos ser.

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Meu encontro com Annie Sprinkle

Gavin Brown’s enterprise é uma boa galeria de Nova York que já recebeu show de artistas que eu gosto muito como Catherine Opie e Alex Katz. Porém até uma semana atrás eu nem sabia que a galeria existia (mesmo eu já seguindo ela no Instagram) até minha amiga Sofia me enviar o seguinte convite.

Eu havia acabado de encerrar uma sequência de dois cursos com a curadora Daniela Labra, um primeiro de performance e um segundo sobre arte fora do cubo e em ambos, ela cita Annie Sprinkle o que me fez vibrar com a possibilidade de encontrá-la.

Annie foi a primeira atriz pornô a dar certo no mundo da arte, construindo uma carreira a nível internacional. Trabalha em diversas mídias para falar sobre seu interesse de que as pessoas obtenham informação sobre seus direitos sexuais e para ajudar nesse objetivo, a artista também se forma com PhD em sexualidade.

No ano de 1992 ela apresenta a performance Public Cervix que veio a ser a sua principal influência em meu trabalho com performances.

Logo que ela chegou na galeria, já fui ao seu encontro me apresentando e iniciando uma conversa com ela e sua companheira Beth Stephens. Ambas foram muito atenciosas e carinhosas: nada mais do que eu poderia esperar de uma pessoa que diz amar as mulheres.

Além das obras de Annie e Beth, a exposição Putting Out conta com outros artistas que falam sobre identidade, trabalho e sexualidade; até 10 de agosto.

Vagina Dentada (Filme)

Sempre que escuto o sobrenome O’keeffe me lembro das flores da pintora norte-americana que remetem a suaves e delicadas vaginas. Quando era adolescente, eu costumava fugir das aulas do Liceu de Artes e Ofícios para ir o Museu de Belas Artes, e em uma dessas visitas eu conheci a obra de Georgia O’keeffe. Esta experiência iria influenciar minha produção definitivamente: eu comecei a experimentar a pintura de flores como vaginas e vice versa, até que cheguei na vagina dentada, referência da leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

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Pesquisando imagens no google para vagina dentada, cheguei ao cartaz desse filme de Mitchell Lichtenstein, filho do artista da Pop art Roy Lichtenstein, em que por coincidência ou não,  tem como protagonista uma garota chamada Dawn O’keeffe.

O filme de tão ruim, chega a ser bom. Justamente pelo texto e a direção do Lichtenstein, que enquanto homem, apresenta ao mundo o temor diante de nós mulheres; e o que torna o filme bastante caricato.

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De maneira bastante sutil, a primeira cena do filme já mostra o que está por vir e é o único motivo que não faz você desistir de ve-lo até o final, pois apesar de chato na construção da personagem, vc fica apreensiva aguardando a hora dos pintos começarem a voar. Então o filme entra em uma sequencia que a principio te enoja com todo o sangue esguichando de órgãos genitais masculinos, mas que muda repentinamente para um prazer sádico de quem aprecia veem homens violadores finalmente levando o que eles merecem.

Não se trata de um filme feminista, mas de um filme sobre mulheres criado sob a perspectiva masculina. Cenas como quando a mocinha finalmente consegue transar com um rapaz sem que decepasse seu falo, denunciam isso. Algo sobre um velho fetiche masculino em que até a mais difícil e desencaminhada das mulheres, pudesse ser seduzida, dominada, amansada e transformada em uma verdadeira mulher por um herói. Como já não bastasse esse velho conto de fadas masculino, o rapaz que consegue transar com a protagonista (há essa altura já a chamamos de mocinha), o faz drogando-a como se não tivéssemos passado os últimos dez anos visibilizando que ato sexual com mulher dopada / bêbada / desmaiada é estupro. Ou seja, mesmo quando a relação no filme parece consentida, é no final estupro também.

Encontrei essa matéria na Vice que fala um pouco da dificuldade com filmes como este e aqui vocês podem assisti-lo com legenda no youtube.