Um Beijo na Loucura

Eu me sinto perseguida. Sinto como se quisessem o que eu tenho, viver a vida que levo, criar as coisas que crio e até mesmo ser quem eu sou. Vivo na iminência da traição. Talvez se você é esse outro que me persegue, vai estar rindo com as mão cheias, pronto para se utilizar dessa confissão para mais uma vez me apontar como louca. Gritará alto que eu deveria me tratar, e eu em um tom maior te adiantarei que: – sim, BB, eu me trato. Tomo antidepressivos e antipsicóticos além de ir a psicanalista 2 vezes por semana. Mas a verdade é que remédio nenhum irá mudar o que sinto pois não sou eu quem está doente, é o mundo. Se você vive bem em um planeta onde cerca de 820 milhões de pessoas não tem acesso suficiente a alimentos, onde a cada 6 horas uma mulher é vítima de feminicídio e 750 milhões de jovens e adultos ainda são analfabetos, tem algo errado com você, não comigo. Te digo certamente que você está sorrindo pra loucura, pois só ela explica seres humanos viverem em privilégios sem serem atormentados pela situação destes outros excluídos. 

Nos ensinam que nossa história é progressista, mas a história foi e ainda está sendo escrita por ditos vencedores, então duvide. A sociedade é decadente, criada a partir da nossa exploração, escravidão e extermínio, à favor de poucos. O conflito é parte do ser humano. Lutam por seus desejos, movidos pela inveja e isso, é apropriado a favor da organização de nossa atual sociedade, onde poucos tem mais. e muitos, menos; e onde quem tem menos quer ter mais, mesmo que para isso, existam um outro que nadará na miséria. Não julguem esta minoria, apenas querem se salvar. As pessoas foram acostumadas a viver com o outro que morre de fome, e dor ao lado, sem fazerem nada; se isso não é loucura, me digam o que realmente é. 

Quando eu digo que me sinto perseguida por pessoas que querem tomar meus privilégios, falo sobre viver em uma sociedade onde a competição é a força motriz. Não é sobre ser ruim, é sobre ter medo de que me tirem o pouco que minhas ancestrais conseguiram pra mim. É sobre ter medo de voltar à marginalidade, submissão, opressão e violência. Loucura é viver num mundo onde muita gente sequer vai saber sobre o que estou falando, mesmo muitas passando por isso todos os dias. Vítimas da alienação que nosso povo passa e continuará passando, se caso nada for feito para derrubar o patriarcado. O patriarcado é a base do capitalismo e uma das fraqueza da democracia. Se você quer mudar o mundo, tem que tirá-lo de vigor. E, se depois de tudo dito, ainda sim você insistir em me chamar de louca, eu deixarei. Já existiu Eva, houveram bruxas queimadas, como agora há as vadias. Ser o que sou sempre foi estigmatizado pela história e se ser consciente desta minha condição me leva ao que chamam de loucura, eu beijarei então este meu título.  

 

Pedido de Socorro

Esse texto foi escrito em caracter de registro e proteção. Também é um texto explicativo, pois estou passando por uma situação bastante humilhante por parte de um homem próximo que alegava meu bem querer. Estou tendo que deixar de frequentar lugares e me isolar socialmente. Hoje esse homem me persegue contando histórias sobre mim de forma que me prejudicam na minha carreira e colocando em cheque minha lucidez e idoneidade. Primeiramente peço que não passem para frente essas histórias e quem tiver presenciado esses comentários e estiver disposta a testemunhar em um boletim de ocorrência por difamação, eu desde já agradeço.

Por séculos mulheres quando se impunham eram chamadas de histérica, neuróticas, treteiras. Na história iam da bruxaria até a loucura, deixando os hospitais psiquiátricos para seguir vendo seu juízo questionado tantas vezes até hoje, em pleno século XXI.

Essas palavras são frequentemente utilizadas para desqualificar reações emocionais legítimas de mulheres como raiva, medo, “desobediência”, reações que são socialmente indesejáveis em mulheres, que devem ser submissas, calmas e pacíficas.

Existe uma tese de 88 sobre “Complexo de Cassandra”: o sofrimento das mulheres que, desmerecidas em seus sentimentos e atos simplesmente por serem mulheres, e consequentemente percebidas como “irracionais” e “histéricas”, não encontram apoio e são desacreditadas quando contam acontecimentos reais pelos quais passaram, ou sintomas que de fato sentem.

É curioso perceber, também, que as mesmas emoções, quando demonstradas por homens, são percebidas de outra forma. Afinal raiva, falar alto, agressividade, imposição física, etc. – são consideradas formas “razoáveis” de se reagir enquanto homem.

Amigas, eu uma mulher que trabalho todos os dias com estas questões, ainda passo todos estes mesmo dias por esta desqualificação das minhas percepções e sentimentos por homens que se dizem contemporâneos e progressistas. Sendo eu, humilhada e perseguida ( a fim de me por no meu lugar) por aqueles que antes diziam me amar, mas que a partir do momento que questiono sua posição, se voltam contra mim de forma extremamente cruel e malígna.

Não sou eu q sou treteira, nem minhas amigas são “pessoas difíceis”, é que a gente ainda vive em um mundo misógino e não aceitamos mais passar por isso.

Pode me mandar pra terapia, pro psiquiatra, pra fogueira ou pro hospício, mais ainda sim, minhas imagens estarão por aí, como um símbolo que nós mulheres iremos resistir.

Porque Negro da China seria algo ruim?

Não sou youtuber nem minha ONG trabalha com campanhas online, nosso trabalho é presencial, corpo a corpo no dia a dia, de mulher pra mulher, de pessoa para pessoa. Não procuramos views para auto sustentar nosso trabalho. O que nos move é o depoimento de cada mulher que fala sobre a mudança que proporcionamos em suas vidas. Por isso a resposta ao vídeo do canal Etnia Brasileira, no qual sou exposta e em que o trabalho da Rede NAMI com o projeto AfroGrafiteiras é desqualificado, vem por escrito.

No canal a Youtuber falou sobre o programa Encontro Com Fátima Bernardes com o tema Dororidade.

Antes de tudo, é importante situar o meu lugar de fala, pois todo mundo tem seu lugar de fala. Sou considerada uma artista, de cunho político, muitas vezes chamada de ativista. Desde 2008 trabalho com a promoção do fim da violência contra a mulher, uma vez que fui vítima de violência doméstica. A minha arte é autobiográfica, podendo ser descrita como confessional, pois utilizo de minhas experiências para falar para o mundo sobre um tipo de prisão de gênero para contextualizar este tipo de violência. Em minha ONG Rede NAMI utilizamos o graffiti para oferecer oficinas para promover a Lei Maria da Penha e desde essa época, nosso público alvo ia além da mulher tendo trabalhado com centenas de meninos e rapazes, de maneira didática, com foco na prevenção, pois acreditamos na luta plural, conjunta, em todas as frentes.

Antes mesmo da aprovação da Lei do Feminicídio em 2015, já havia percebido que as políticas contra a violência contra a mulher não estavam dando conta da mulher negra e por isso, essas eram as que morriam mais. Por este motivo, estrategicamente, criei também em 2015 o programa AfroGrafiteiras – uma formação de 8 meses em arte urbana e feminismo negro – um projeto que além de falar da violência do machismo como fazíamos antes, se aprofundou em falar sobre racismo, tentando contribuir de forma efetiva com a reversão do quadro atual. De lá pra cá já passaram mais de 560 mulheres Afrobrasileiras, como as denominamos antes, mas esse termo caiu em desuso na Rede NAMI depois dos aprendizados do programa. A minha experiência no AfroGrafiteiras me fizeram definir a palavra negra para tratar todas as participantes, incluindo eu própria. Eu cresci como uma menina branca, em uma família branca, fui estimulada a me mimetizar toda a vida, alisando e pintando os cabelos de loiro. Me chamavam de moreninha e eu sempre acreditei não ser negra, até entender que chamar alguém de morena ou parda era uma maneira de embranquecer a pessoa e fazê-la mais socialmente aceita, estigmatizando ainda mais os negros de pele mais pigmentada. Eu comecei a me identificar com a fala das participantes do Afrografiteiras que colocavam sobre suas experiências com o racismo, e via que sofria racismo, e logo eu me identifiquei como negra também. Acredito que hoje seja mais adequado chamar alguém de negro do que de afrodescendente ou afrobrasileiro pois é mais uma nomenclatura política, de ação dos movimentos sociais na luta contra discriminação do que para designar a cor, é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo. Esse é um tema muito polémico. Com o tempo eu compreendi as questões sobre colorismo, que o fenótipo e a pigmentação da pele influi na dureza do racismo que se recebe. A leitura com que as pessoas fazem da aparência das outras e o quanto isso é o que verdadeiramente importa. Hoje pontuo a minha fala de um lugar como mulher negra privilegiada, por sofrer menos racismo do que uma mulher negra retinta e ser mais socialmente aceita. Neste ponto é sempre bom enfatizar que lugar de fala e representatividade são coisas diferentes, e eu posso sim falar a partir da minha condição, mas é importante que outras mulheres, muito mais desautorizadas a falarem do que eu, possam se colocar e representar outras em sua condição. E o meu trabalho na Rede NAMI trata justamente disso.

O Catraca Livre publicou uma matéria sobre grafiteiras negras e eu questionei o porquê que nesta lista não existiam mulheres de pigmentação mais escura. Foi quando tomei minha decisão final de colocar além da renda, o colorismo como critério principal para a seleção das candidatas ao programa AfroGrafiteiras. Ainda sim, é difícil que as mulheres retintas se inscrevam em maioria no programa, pois essas mulheres estão muito ocupadas tentando sobreviver. Todos os anos tento captar recursos para pagar a passagem e alimentação, além de tentar levar o programa para as áreas mais afastadas, facilitando assim o ingresso dessas mulheres. No projeto levamos em consideração a representatividade colocando professores e palestrantes negras, renovando a equipe da NAMI de forma a apenas contratar mulheres negras. Buscamos mulheres negras para nosso conselho. Seguimos.

O que me leva a seguir é ver que o trabalho é sério e está ajudando a mudar a situação racista da sociedade. Sinceramente minha carreira está muito bem fundamentada, e eu não precisaria gastar 50% do meu tempo com trabalho social, e muito menos focar na mulher negra. Não preciso me promover com o tema, afinal, não sou jovem como disse Fátima, e muito menos menina como colocado pela Youtube. Sou uma mulher chegando aos 40 anos com a carreira já estabelecida. Minha produção é internacionalmente reconhecida como feminista, mas não trata diretamente de etnia. Sim sou de classe média, mas nem sempre foi assim. Graças às oportunidades e investimentos que outras mulheres com este mesmo modo de pensar fizeram em mim, a maioria brancas, minha carreira de artista decolou me rendendo títulos como rainha do graffiti, Young Global Leaders do World Economic Forum e até como uma das 150 mulheres corajosas que estão mudando o mundo, segundo a revista americana Newsweek, além de outros.  Mais uma vez volto a colocar que isso se da pelo fato de eu ser mais socialmente aceita, mas ainda sim, não sou branca, e isso já foi algum passo adiante. Eu quero retribuir isso de alguma forma para que mais mulheres subvertam a posição que foram fadadas. Eu quero ir além, quero que essas mulheres sejam as menos privilegiadas. Eu sei que não posso falar por elas ou representa-las, mas posso usar minha influência para transferir poder para elas, é por isso que durante esses três anos do AfroGrafiteiras foram sempre elas que foram a cara do projeto, não eu. É por isso também que até então, nenhum dos meus trabalhos de arte falavam da questão de etnia. Minhas mulheres grafitadas são coloridas, com fenótipo similares ao meu até o momento que Vilma criou o conceito de dororidade. Eu já vinha trabalhando a Sororidade nos meus projetos de arte, e prontamente me identifiquei. Dororidade não é uma fala exclusiva da mulher negra, é uma fala de todas nós mulheres, que sofremos pelo racismo, mas que sofremos também pelo machismo. Então dororidade contempla todas nós, e dentro do meu lugar de fala, posso falar sobre dororidade pois tenho dor e esta dor me fortalece de forma política com outras. Como diz Vilma, dor é dor. O tema fala de mulheres, quando falamos de mulheres, é importante falar de todas, mesmo que de lugares de fala diferentes; e eu não posso falar de todas pintando apenas mulheres como eu. Ao me lembrar de quantas mulheres negras me pediram para representá-las na parede, pois até então se sentiam excluídas na minha arte, vi que essa era hora de dar minha contribuição mesmo sabendo que existem centenas de AfroGrafiteiras representando a mulher negra de várias formas. E essa representação não é pelo spray marrom ou preto de contorno, pois mesmo nas mulheres com fenótipos brancos, a cor de contorno em sua maioria sempre foi essa. Contorno é contorno, técnica é técnica. A representação nesta arte vem pela ideia, afinal a obra é aberta e cada um a vê e significa de acordo com suas experiências pessoais.

Dentre as demais pautas daquele programa da Fátima Bernardes, dororidade foi tema destaque, e para isso nada mais natural do que chamar a criadora do conceito para falar. Lá estava Vilma Piedade. Eu produzi uma musica, um video clipe, um mural e um projeto social sobre o tema. Foi o quê eles, orientados por Vilma, acharam de mais autêntico para mostrar. Eu tenho plena noção do privilégio que tive em alcançar uma profissionalização do trabalho para conseguir estes produtos, e por isso ali eu era a pessoa talvez com mais visibilidade para falar sobre o assunto, tirando o lugar de uma mulher retinta que não teve o mesmo privilégio e não possuí o mesmo produto pra mostrar. Mas o meu trabalho junto ao de Vilma é justamente para que negros que “que mal sabem escrever e estão preocupados em ter o que comer”, segundo a Youtuber, possam um dia estar ali falando sobre suas criações e que eu possa me ocupar em falar de outros temas poéticos da vidas que não são tão urgentes. A produção do programa teve o cuidado de me perguntar se as meninas do VT que iriam falar sobre o AfroGrafiteiras, pudessem ser as de pele mais pigmentada, já que eram sempre as mais excluídas e que no programa haveria apenas Adriana. Podemos problematizar esta colocação, mas deve haver uma sensibilidade de que ali houve um cuidado, mesmo que por muitos considerado mínimo, com a representatividade.

Existe um conflito geracional em que as meninas novas que chegam agora não respeitam a história anterior que a fez com que estas pudessem ter acesso e voz antes impensáveis. Vilma Piedade fez parte dessa história, podemos debater, mas nunca desqualificar sua fala. Desqualifica-la é uma falta de respeito. Eu e Vilma temos um trabalho sério, e não é de hoje. Construímos uma sociedade em que uma jovem negra poder ter um canal de youtube e nos criticar de tão empoderada, e ter com isso milhares de views e uma carreira. As feministas brancas talvez não tenham pensado nas negras, mas quebraram as primeiras barreiras do gênero para que possamos discutir etnia, assim como homens negros quebraram as primeiras barreiras da raça para que hoje nós pudéssemos discutir sobre gênero. É um conjunto de lutas que geraram a interseccionalidade. Sem nós, e muitas outras pessoas mais, sejam estas pretas, mestiças ou brancas isso nunca seria possível.

E sobre o título, não é porque uma coisa é ruim que ela vem da China. Na China tem muita coisa boa, ta ai o ai weiwei pra provar. Não vamos combater um preconceito fortalecendo o outro.

Panmela Castro raça etnia pintura mulher negra
Primeira pintura minha em suporte convencional a retratar a temática de raça.

 

 

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Porquê Emicida me Deixa Triste

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Uma vez eu falei assim para a Lívia Cruz: “- Para que tá feio amiga.” Ela me esculhambou. Eu não fiz nada.

Eu não fiz nada porquê já fiz muito. Já xinguei, fui homofóbica, racista, falei mal e até bati nos outros. Mas chegando à casa dos 40, a gente vê  que a gente muda e muda o mundo. E eu, escolhi mudar buscando formas mais assertivas.

Quando eu vejo o Emicida usar seu poder para desqualificar essas meninas, eu fico triste. Eu vi a molecada do rap chegar ao poder. Acreditei que eles iam transformar a sociedade. O quê em parte é verdade. Mas em uma análise nem tão profunda, identifico falas contra a luta de classes e o racismo, mas apenas um corpo-instrumento quando pensamos na manutenção do Patriarcado, afinal são homens e essa conjuntura os favorece.

A Flora é foda. Artista completa … personalidade difícil. Criou uma metáfora linda com Preta de Quebrada, mas cismou que não era só música, que era vida. A auto identificação racial pode ser válida no Brasil. Temos que entender a construção da identidade do sujeito, mas o sujeito também tem que entender, que o colorismo, a maneira como o outro te lê, é o que vai fazer que você seja desqualificado, inferiorizado e marginalizado, sujeito ao preconceito, exclusão, jogado ao campo do não privilégio. E a leitura que fazemos de Flora é, que ela é branca. Privilegiada. Mas o Emicida também fez Trepadeira, uma música que além de incitar a violência contra a mulher, a deprecia pela sua livre sexualidade e ainda direciona para as pretas: Afinal a nega é a trepadeira. O Emicida assentou a mulher negra naquele velho estereótipo hipersexualizado. Isso me lembrou quando Livia e Sweet também fetichizaram os homens negros, e Emicida, criticou. Criticou e se casou com uma branca abandonando a ex companheira porque, ao meu ver, não importa ali dar moral à mulher negra (aquela hipersexualizada que serve pra cama mas não pra sociedade), embarcar no jogo do Patriarcado exibindo como status uma mulher bem padrão, como um prêmio, um objeto que vc adquire, o faz pertencer ao poder.

Porquê mulher negra não faz história, afinal foi isso que ele disse no post apagado no perfil da Nega Rê. Na época ele não fez aquele típico jogo de batalha (Link da batalha), ele à hostilizou em um nível alto de misoginia, falando do (e pegando no) cabelo (Tópico tão delicado para as negras), chamando de feia e ao final, afirmando a mulher negra merecedora de seu papel como diarista, aquela que pertence à senzala. Mesmo de etnia similares, o Emicida enquanto homem terá dificuldades de entender  os processos que param as mulheres em suas carreiras e ele vai achar que venceu por talento, porquê é um iluminado divino, porquê tinha que ser.  O Emicida não vai levar em consideração que as ultimas falas que ele usou pra desqualificar essas meninas, para acentuar e promover seus erros, são discursos (Veja Eva e Pandora) feitos desde que o mundo é mundo para colocar as mulheres em seus lugares: submissas como escadas para que os homens alcancem o sucesso.

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Porém foi-se o tempo em que todas nós éramos escravas coniventes com nossos senhores. Hoje a gente questiona, debate. E, não venha me dizer que somos agressivas, loucas e descontroladas, pois diante de tanta violência que passamos em todos os processos de nossa vida, estas são reações. Malcom X pegou em armas, Mather Luther king optou pelo diálogo. Nós feministas, temos sim também muitas formas de pensar e lutar. Apesar de canalizar minhas energias para o pacifismo, não julgo essas mulheres que pegam em armas.

Se eu tivesse a oportunidade de falar algo com o Emicida, eu diria para ele deixar com nois. Deixa que a gente se entende, se mistura, se conversa e se educa. Briga também se tiver que brigar. Mas deixa a gente. Não precisamos de mais um homem, seja ele branco ou negro, nos criticando, dizendo se estamos certas ou erradas e nos dizendo mais uma vez como devemos ser.

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