Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

Marielle

Quando eu fui perseguida pelo o meu ex companheiro, o meu caso era difícil; e todos a quem procurei ajuda, mesmo órgãos especializados em violência contra a mulher, apesar de entenderem que eu vivia uma situação de violência, diziam não poder me ajudar. Marielle foi quem, naquele momento, me ouviu e me guiou no caminho para buscar meus direitos. Hoje o processo segue e todas as vezes que alguém me falar que não vai dar em nada, eu vou lembrar de Marielle segurando a minha mão.

Esta obra é uma singela homenagem à perda que é não ter Mari nesta jornada que é ser mulher em um mundo machista, misógino, patriarcal. Um choro de sangue meu e de muitas outras mulheres que perderam alguém que lutava por elas. #mariellepresente