Vamos Combinar de não nos ferir (Celebrando a ArtRio)

Falando sobre o RACISMO me despeço celebrando o sucesso q foi participar da ArtRio ao lado de minhas alunas, parceiras e equipe.

Ñ q racismo caiba na mesma sentença q celebração mas é q ontem estive muito feliz, e fui minada por uma irmã q me desqualificou.

Sei q todo dia gritamos um “Eu estudei” para a branquitude q nos boicota com seus “achismos”. Mas é q as vezes nem percebemos q estamos gritando com nós mesmas.

Talvez não sejamos tão irmãs, afinal, as experiências com o colorismo nos diferenciam.

Mas enfim, irmã não me diga q estudou para me desqualificar. Na casa dos 40, tenho um extenso currículo q minha simplicidade esconde.

Só de Rede NAMI são 10 anos trabalhando com as pautas decoloniais muito antes da maioria.

Se tivermos em uma feira, fomos destaque na mídia e viralizamos na internet com posts de Taís Araujo à Iza; Se vendemos 80% de nossas obras: Se artistas consagrados nos doaram obras sorrindo; Se estalei três obras de nossas artistas (alunas!), trans, negras para a coleção do MAR; Se colocamos em destaque uma menina com deficiência que agora sabe q é artista: tudo isso foi pq estudei.

E não só estudei artes, gênero e etnia, mas fui reconhecida pelo meu empreendedorismo em nomeações da ONU, Wold Economic Fórum e Folha de São Paulo. Eu estudei Business.

Ainda que eu acredite na sabedoria de quem não teve acesso à educação formal, tive q lançar o bacharelado e o mestrado em artes (UFRJ/UERJ) pra ter alguma legitimação. Me formei em Publicidade e Propaganda na mesma escola de Portinari (Liceu de Artes e ofícios fundado em 1856). Sou pós graduanda em diretos humanos, cidadania global e responsabilidade social com Angela Davis de professora e com quem já jantei ao lado em Princetown.

Não sei se vc sabe mas sou especialista em gestão de empresas de responsabilidade social e políticas afirmativas, entre outras coisas mais.

Amiga tb estou cansada de ter q falar meu currículo pras pessoas acreditarem q eu tenho algum valor. Eu te entendo. Então vamos combinar eu e vc, de não fazer isso entre nós mesmas.

Eu te amo. ❤️

Momento tão lindo de intimidade com o curador Paulo Herkenhoff defendendo o trabalho de minhas artistas e lançando-as na história na coleção do MAR.

📸 Foto de capa: Alunas, parceiras e equipe da Rede NAMI em nossa obra “Luz Negra” da artista Mônica Ventura a partir de frase de Juliana Borges.

Exposição A Máquina Lírica

Galeria Luísa Strina, curadoria de Pollyana Quintella, setembro de 2021.

Uma mulher nua de longos cabelos cheios que caminhava na madrugada como uma bruxa logo se tornou lenda folclórica no vilarejo de Olhos D´água em Goiás.

Este conto não se trata de um delírio coletivo de alguns poucos privilegiados que venham a ter flagrado a cena, ou de outros que tenham repetido vê-la para pertencerem à lenda. O delírio aqui é auto-referente e dá nome às quatro fotografias exibidas na exposição “ A Máquina Lírica” de curadoria de Pollyana Quintella apresentada na Galeria Luisa Strina a partir deste setembro de 2021.

Após um ano de isolamento social, eu, que vivo só, decido viver na casa das pessoas e cria a Série Residência. Antes de ir morar no pequeno vilarejo na casa de Lu, mãe de Jandira (ativista social, amiga de longa data, e uma das fundadoras da Rede NAMI)  faço quarentena no Núcleo de Artes do Centro Oeste (NACO).

Sozinha no espaço da residência, produzo uma nova série de Penumbras em um dia de ritual de Lua Cheia. Desdobramento de antigas séries como “Opressão (2009)”, a série Penumbra toma corpo na solitária quarentena de 2020 no ateliê, em experimentações de fotografias de longa exposição.

Penumbra é mais um dos conjuntos de obras que tratam sobre a afetividade da mulher negra, a partir de minhas próprias vivências com o racismo e machismo, sexualização do corpo negro, estigmas, e a realidade de dados do IBGE que mostram que tal prática estrutural lança mulheres negras na pobreza, liderando suas famílias, sem companheiros de longo prazo para ajudar a sustentar a casa (Mulher Negra: Afetividade e Solidão – Pacheco, Ana Cláudia Lemos – 2013).

Apesar de aparentar muitos privilégios hoje, sou de uma geração que teve que abdicar de construir uma família para construir uma carreira e ter o mínimo de qualidade de vida. Afinal, como uma mulher afastada do padrão europeu “para casar”, dificilmente manteria um companheiro para me ajudar com os filhos, e isso me impediria de seguir em minha profissão, me enterrando de vez na falta de privilégios e pobreza.

Ser uma mulher aos quarentas vivendo sozinha isolada durante uma pandemia, apesar dos confortos de poder me manter sem mais dificuldades, não é um privilégio pleno de vida. Assim como ser tachada de Bruxa em uma cidadezinha do interior, reafirma a urgência da necessidade de desestigmatizar corpos como meu. Penumbra é sobre isso, desconstruir seu olhar sexualizado adiante de uma mulher que sofre com a dor de se estar só, entre tantos outros pontos problemáticos que esse conjunto de fotografias escolhidas por Polly tem a pontuar.

A curadora Pollyana Quintella já fazia parte do conjunto de pessoas com que eu me identificava nos pontos de interesses a cerca da arte e visão de sociedade, além de uma ligação intuitiva sobre sua presença como pessoa no mundo. Alinhadas em todos os amplos sentidos que a vida pode ter para nós, foi fácil logo de primeira encontrarmos no conjunto “Culto Auto-Referente” a confluência entre nossos interesses de pesquisa.

Polly pensa para a exposição, a nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção (Leia o texto de Poli sobre a exposição). Tipo de deliro que venho atravessado em minhas residências nas casas das pessoas, tentando identificar objetos e situações como sinais e marcos, mas q por fim não passam de delírios de referências, sendo descritos na Wilkpédia como um tipo de fenômeno de um indivíduo que está experimentando coincidências e acreditando que elas têm um forte significado pessoal, uma noção de que tudo o que se percebe no mundo relaciona-se com o próprio destino.

É neste ponto que volto ao debate sobre afetividade e a busca a todo custo por pertencer a algo, e ser amada; onde a rejeição e solidão, me confunde em não conseguir distinguir se meus prejuízos são fruto do preconceito que me cerceia, ou meras situações pessoais.

Esta é apenas uma introdução para muitos desdobramentos de minha produção, que apesar de pessoal, se torna política ao ter milhares de mulheres se identificando e se questionando sobre essas as mesmas sensações e percepções.

A exposição “ A Maquila Lírica” pode ser conferida até o final deste mês que abre a 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro mas eu canto, e conta com os artistas Anis Yaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli.

Retrato Retrato de Suka

Retrato Relato de Suka, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2021

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porque. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porque.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio a memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.


Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Ser fina é questão de Sobrevivência

Há artistas (ninguém específico pois isso acontece muito e em várias áreas) que veem vantagem em jogar umas roupas quaisquer, andar descabelada, fazer pose de bandida, tirar onda com umas gírias aí. Eu não vejo vantagem. Não vejo pq não sou branca.

Antes de sair de casa confiro se minha roupa está alinhada e se meu cabelo cheio não está chamando muita atenção. Treino meu vocabulário colocando todos os “s” no final. Evito gritar, falar alto e andar espalhafatosa nos lugares. Me lembro quando a moça me chamou de favelada pq eu gritava no metrô. Não tem problema ser favelada, o problema foi a forma pejorativa q ela me olhou. Se fossem só olhares estava tudo bem, mas eu já tomei coronhada na nuca, corri de um tanto de tiro e já fui espancada por horas mais de uma vez. É por isso BB, que a maturidade me ensinou a me esforçar pra parecer uma pessoa bem cuidada, falando bem e mostrando conhecimento sobre o que faço. Pois assim talvez me respeitem mais. Mesmo assim se der mole o povo pisa, trabalhar minha aparência é apenas uma tentativa de minimizar os danos. Assim evito que o outro me trate a partir do seu olhar racista e afasto a iminência da morte. Para aqueles q não tem certeza se voltarão para casa, qualquer oportunidade de passar batido já ajuda.

Só faz do esculhambo um persona quem tem privilégios o suficiente pra não ter medo de morrer. Falo de alguém que faça parte da branquitude e se coloque em situações que marginalizam pessoas negras mas que no caso delas, por não serem negras, tiram onda de cool e dão até dinheiro. Acho ofensivo e racista quem se apega a um personagem que é a história real de tantas minas e boys que são mortos por serem assim. Esta pessoa q não é preta, basta pentear o cabelo liso, colocar uma roupinha direitinha, para ficar com cara de princesa, mas ela faz de tudo para ficar com “cara de marginal”, pq esse kit na pele do branco é só uma tiração de onda e nada mais. Apropriação cultural é isso, levar vantagens em assuntos onde o outro é desmoralizado, agredido e morto.

O senhor João não foi o único. Todos os dias pessoas negras são mortas por serem negras. Aprende isso: só sai de casa sem medo de morrer quem tem os privilégios da branquitude.

Um Beijo na Loucura

Eu me sinto perseguida. Sinto como se quisessem o que eu tenho, viver a vida que levo, criar as coisas que crio e até mesmo ser quem eu sou. Vivo na iminência da traição. Talvez se você é esse outro que me persegue, vai estar rindo com as mão cheias, pronto para se utilizar dessa confissão para mais uma vez me apontar como louca. Gritará alto que eu deveria me tratar, e eu em um tom maior te adiantarei que: – sim, BB, eu me trato. Tomo antidepressivos e antipsicóticos além de ir a psicanalista 2 vezes por semana. Mas a verdade é que remédio nenhum irá mudar o que sinto pois não sou eu quem está doente, é o mundo. Se você vive bem em um planeta onde cerca de 820 milhões de pessoas não tem acesso suficiente a alimentos, onde a cada 6 horas uma mulher é vítima de feminicídio e 750 milhões de jovens e adultos ainda são analfabetos, tem algo errado com você, não comigo. Te digo certamente que você está sorrindo pra loucura, pois só ela explica seres humanos viverem em privilégios sem serem atormentados pela situação destes outros excluídos. 

Nos ensinam que nossa história é progressista, mas a história foi e ainda está sendo escrita por ditos vencedores, então duvide. A sociedade é decadente, criada a partir da nossa exploração, escravidão e extermínio, à favor de poucos. O conflito é parte do ser humano. Lutam por seus desejos, movidos pela inveja e isso, é apropriado a favor da organização de nossa atual sociedade, onde poucos tem mais. e muitos, menos; e onde quem tem menos quer ter mais, mesmo que para isso, existam um outro que nadará na miséria. Não julguem esta minoria, apenas querem se salvar. As pessoas foram acostumadas a viver com o outro que morre de fome, e dor ao lado, sem fazerem nada; se isso não é loucura, me digam o que realmente é. 

Quando eu digo que me sinto perseguida por pessoas que querem tomar meus privilégios, falo sobre viver em uma sociedade onde a competição é a força motriz. Não é sobre ser ruim, é sobre ter medo de que me tirem o pouco que minhas ancestrais conseguiram pra mim. É sobre ter medo de voltar à marginalidade, submissão, opressão e violência. Loucura é viver num mundo onde muita gente sequer vai saber sobre o que estou falando, mesmo muitas passando por isso todos os dias. Vítimas da alienação que nosso povo passa e continuará passando, se caso nada for feito para derrubar o patriarcado. O patriarcado é a base do capitalismo e uma das fraqueza da democracia. Se você quer mudar o mundo, tem que tirá-lo de vigor. E, se depois de tudo dito, ainda sim você insistir em me chamar de louca, eu deixarei. Já existiu Eva, houveram bruxas queimadas, como agora há as vadias. Ser o que sou sempre foi estigmatizado pela história e se ser consciente desta minha condição me leva ao que chamam de loucura, eu beijarei então este meu título.  

 

Pedido de Socorro

Esse texto foi escrito em caracter de registro e proteção. Também é um texto explicativo, pois estou passando por uma situação bastante humilhante por parte de um homem próximo que alegava meu bem querer. Estou tendo que deixar de frequentar lugares e me isolar socialmente. Hoje esse homem me persegue contando histórias sobre mim de forma que me prejudicam na minha carreira e colocando em cheque minha lucidez e idoneidade. Primeiramente peço que não passem para frente essas histórias e quem tiver presenciado esses comentários e estiver disposta a testemunhar em um boletim de ocorrência por difamação, eu desde já agradeço.

Por séculos mulheres quando se impunham eram chamadas de histérica, neuróticas, treteiras. Na história iam da bruxaria até a loucura, deixando os hospitais psiquiátricos para seguir vendo seu juízo questionado tantas vezes até hoje, em pleno século XXI.

Essas palavras são frequentemente utilizadas para desqualificar reações emocionais legítimas de mulheres como raiva, medo, “desobediência”, reações que são socialmente indesejáveis em mulheres, que devem ser submissas, calmas e pacíficas.

Existe uma tese de 88 sobre “Complexo de Cassandra”: o sofrimento das mulheres que, desmerecidas em seus sentimentos e atos simplesmente por serem mulheres, e consequentemente percebidas como “irracionais” e “histéricas”, não encontram apoio e são desacreditadas quando contam acontecimentos reais pelos quais passaram, ou sintomas que de fato sentem.

É curioso perceber, também, que as mesmas emoções, quando demonstradas por homens, são percebidas de outra forma. Afinal raiva, falar alto, agressividade, imposição física, etc. – são consideradas formas “razoáveis” de se reagir enquanto homem.

Amigas, eu uma mulher que trabalho todos os dias com estas questões, ainda passo todos estes mesmo dias por esta desqualificação das minhas percepções e sentimentos por homens que se dizem contemporâneos e progressistas. Sendo eu, humilhada e perseguida ( a fim de me por no meu lugar) por aqueles que antes diziam me amar, mas que a partir do momento que questiono sua posição, se voltam contra mim de forma extremamente cruel e malígna.

Não sou eu q sou treteira, nem minhas amigas são “pessoas difíceis”, é que a gente ainda vive em um mundo misógino e não aceitamos mais passar por isso.

Pode me mandar pra terapia, pro psiquiatra, pra fogueira ou pro hospício, mais ainda sim, minhas imagens estarão por aí, como um símbolo que nós mulheres iremos resistir.

Buster’s Mal Heart

filmes_12098_buster2Dois dos meus filmes favoritos são Cisne Negro e Clube da Luta, ambos com seus auges na epifania do personagem principal ao descobrir que tudo o que se passa acontece sobre uma perspectiva pessoal. Poderia dizer invenção ou até esquizofrenia, mas é a partir de Buster’s Mal Heart que posso afirmar uma construção social da verdade, que qualifica outras formas de pensar como doença e ridiculariza ideias como conspiração e terrorismo mantendo o Mito da Caverna de Platão atual mais de 25 séculos depois de escrito.

Está aí pra provar, a história ocidental européia que desqualifica a fala de seres desautorizados a terem suas histórias evidenciadas a partir de seus pontos de vista. Mulheres, negros e pobres sempre flertaram com a loucura. Se vc se opõe a ideia vigente, é encarcerado no hospício, prisão ou perambula nas ruas sendo apontado como mendigo louco.

Como não ficar louco em um modelo capitalista fadado ao fracasso onde se produz mais do que se precisa e ainda sim nem todas as pessoas têm acesso? Onde o controle é arma organizando, separando e estigmatizando o povo como na criação dos gêneros, nomenclaturas para sexualidades, castas por classe social, e até mesmo seu crédulo. De forma a manter o poder dos indivíduos no topo das classificações.

A partir daqui teremos spoiler.

Nem todos se adaptam à forma como a sociedade está organizada. Reais anarquistas são os que não suportaram a escola, sofreram com seus trabalhos, desistiram de tudo, tornaram-se andarilhos, nunca se adaptando e vivendo à margem.  Para Buster foi difícil, nem o ensino médio ele completou. Tem muitos problemas no trabalho e precisa se drogar para aguentar. Pensa em trabalhar meio período e quem sabe, até parar. Fala que não quer isso pra sua filha, mas sua esposa traz ele pra realidade onde as pessoas simplesmente não tem dinheiro para não viverem como escravas da automatização capitalista trabalhando para produzir o que você vai comprar mas não precisa, mas precisando para amenizar a amargura de ter que trabalhar para produzir tudo isso que você tem que comprar. Onde manter o ciclo é mais importante em si do que o que vc realmente precisa consumir.

A família é estrutura de base deste vício. A família o faz endividar para mantê-la. A dívida o move para produção em troca do que pague a sua dívida e mantenha a família e a atual conjuntura social reprimindo o erotismo, os desejos, sonhos, caprichos, concentrando as pessoas no trabalho e mantendo todo mundo ocupado nesse ciclo desnecessário. Bust mata a família e elimina o problema.

A dor que Bust sofria não se resolveu com a morte da família. Bust manteve seu corpo livre, porém sua mente estava presa, não, ele não era o último homem livre da terra. O momento de epifania mostrou que por mais que criasse suas ideias conspiratórias em um cenário onde um outro teria cometido esse crime, Bust desiste ao sentir a dor de simplesmente existir.

Você acompanha uma história e cria seu entendimento. Cada um analisa de acordo com suas experiências. Desdobramentos dos fatos e pontos de vistas divergentes envolvem a democracia mundial e o que chamamos de fake news é a prova que diversos pontos de vistas dados por pessoas diferentes podem existir comitantemente. Afinal o que é a verdade?

Roots, Panmela Castro, 2008, 10’14

Até pouco tempo atrás o espaço público era restrito à homens. Ainda hoje posso falar dos perigos da cidade para o corpo feminino. Durante muito tempo eu quis ser um homem e pensava habitar a pele errada. Para ser aceita e respeitada por gangs de homens, eu tive que me masculinizar: andar como eles, vestir-me como eles e até falar como eles. O vídeo em questão mostra o período entre 2006 – 2008 e estas minhas raízes no graffiti ilegal.

Em um determinado momento, percebi que o quê eu almejava nunca foi ser um homem, mas sim possuir o poder que eles exibiam e eu como mulher, nunca alcançaria. Que por mais que praticasse a mimese, o fato de eu possuir um corpo feminino, denunciava quem eu era e o meu lugar na casta de poderes. Então logo após este período eu iniciei a série “Lady Grinning Soul” onde subvertendo o papel destinado a mim, troco minhas vestimentas masculinas por uma indumentária hiper feminina, colorida e com flores; e o meu gestual agressivo e cheio de regras masculinas por poses de menina.

Caminhar

Nós mulheres já não nos portamos nos padrões esperados do que é ser mulher. Talvez a palavra “mulher” nem caiba mais ao que queremos ser. Por nos portamos de tal maneira, fomos chamadas de Eva, bruxas e atualmente, vadias.

Misoginia é o ódio às mulheres. Ódio que ao meu ver, é exteriorizado quando não nos portamos como esperam. Como um medo de quem possamos nos tornar, ao ganhar os mesmos direitos que o outro e compartilhar do poder. Sequencialmente em minha produção venho usando a simbologia da Vagina Dentada para falar desse medo/ódio que nós mulheres temos causado na luta pela queda do patriarcado. Nesta caminhada, o que podemos nos tornar, é como aquele buraco que o outro não sabe o que vai encontrar e que julga, ser dentado.

A misoginia leva ao feminicídio. Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero: o assassinato de mulheres. Em 2016, uma mulher foi assassinada a cada duas horas (anuário Brasileiro de Segurança Pública) totalizando 4.657 mortes. O risco de uma mulher negra ser assassinada no Brasil é duas vezes maior do que uma mulher branca. No caso dessas mulheres, além da motivação de gênero, a questão racial é levada em conta evidenciando a falha nas políticas públicas que não chegam à mulher negra periférica.

Homens estão nos matando porque não aceitamos mais viver dentro das condições estruturais criadas para nós, enquanto mulheres.

O vestido é um símbolo do feminino, apenas mulheres usam. Seu gigantismo aparente em minha obra, simboliza um fardo. Caminhar arrastando uma longa cauda pintando o chão da cidade de vermelho sangue é mapear metaforicamente a morte dessas, que morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres, sejam estas com vaginas ou não.

4 Trabalhos de Arte que Falam sobre Aborto

Your Body is a Battleground

Bárbara Kruger, 1989.

Os cartazes da artista, ativista feminista Bárbara kruger são bem conhecidos no mundo da arte. Um dos mais exibidos é justo esse criado para uma campanha pela pro-choise nos EUA.

Guerrilla Girls Demand A Return To Traditional Values On Abortion

Guerrilla Girls, 1992.

Estamos acostumados a ver em Museus diversos cartazes do grupo nova-iorquino que critica a falta de protagonismo das mulheres no mundo das artes, além de críticas ao patriarcado e ao machismo. Nas lojinhas de muitos desses museus, podemos comprar este trabalho que mostra que elas também lutam pelo direito ao aborto.

O Aborto

Paula Rego

Paula Rego produziu em 1998 uma série de dez quadros à pastel falando sobre suas próprias experiências quando a proposta de legalização foi derrotada em um primeiro referendo.

Possibilidades

Claudia Paim, 2011.

Realizada no Festival Performance Art Brasil no MAM – RJ, a artista brasileira tratou da ideia glorificada da maternidade.

Eu Não Sou Um Homem Fácil

Muitos podem julgar que o filme promove que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a nossa. Sádica, não diria tratar-se disso, mas sim criar uma ironia na inversão dos papéis para se fazer pensar a mulher enquanto ser oprimido. Colocando o homem no papel da mulher, o filme faz-se sentir na pele o que vivemos em nosso dia a dia.

Ainda penso que a roteirista e diretora Eleonore Pourriat pegou muito leve ao colocar a inversão como um delírio do protagonista ao bater a cabeça em um poste de aço, porque assim, em todo o tempo você tem a sensação de que aquilo ali é algo ocasional e que a qualquer momento voltaria ao normal; o que realmente acontece quando a Alexandra se depara com o mundo normal, me incomodando pelo fato de parecer punida por seus atos quando ainda tinha algum poder: até em um filme aparentemente feminista, a mulher se da mal no final.

Se fosse eu a escrever este filme, tornaria-ló invertido desde o início e ainda fecharia com a mulher esculhambando o macho no final, como acontece em nosso mundo real onde saímos sempre no prejuízo.

Mas só pra fechar esta reflexão, vale dizer que o ideal de uma sociedade matriarcal é uma sociedade igualitária, onde justo pela mulher ter poder, poderia organiza-lá de forma justa e compreensiva.

Santo Amaro Era Skatista

Acabei de ver o documentário do Ademar Luquinhas na Globo News e fora o depoimento de sua mãe, não houve em nenhum momento qualquer tipo de participação ou fala de mulheres. Não houve porque não há. Porque mulher ali não é parceira, é um objeto descartável como um skate que quebra e já não serve mais. Esse fato só mostra a segregação, machismo e até misoginia que esse movimento trás. E quando falo de movimento não falo apenas de skate e Ademafia, falo de um problema estrutural de nossa sociedade: o patriarcado. O sonho deles era construir uma pista de skate, o meu é construir uma cena onde mulheres possam participar e até ser protagonistas das histórias do mundo lado a lado de importância com os homens.

Garota Sombria Caminha Pela Noite

Em uma leitura feminista do Garota Sombria Caminha Pela Noite, posso dizer que trata-se de uma cidade onde o mal está solto pela madrugada, mais rola essa garota que com sua capa preta anda de skate como testemunha de ações violentas no qual ela não possui medo e age como justiceira quando prega seus dentes sugando o sangue de bandidos e marginais. Apesar de assassina, encontra um rapaz que não a teme e a aceita como ela é: forte e empoderada. 
Nesta trama me incomoda um pouco o final onde seu amante sugere fugir, e de forma submissa ela vai, sem falar ou perguntar muito, como se ali houvesse algum tipo de salvação. 

Legalize Já!

Quando eu estava no primeiro ano do antigo segundo grau eu queria ser o Glauco. O Glauco era um rapaz negro, mais velho, bastante popular no colégio. O que me fascinava no Glauco era o poder e a liberdade que ele carregava, por isso, eu queria ser como o Glauco. O Glauco escutava Planet Hemp e por isso, a banda pra mim se tornou sinônimo de avanço.

Eu sabia que o Planet Hemp cantava sobre maconha, e maconha era algo que meus pais não gostavam, logo meus pais não queriam minha emancipação. Queriam que eu continuasse a ser a trouxa, aparelhada que sofria bullying, assim, eu continuaria dependente deles pelo resto da minha vida.

Depois de ver o filme “Legalize Já!” Na pre estreia no Odeon durante o Festival do Rio na última semana, eu entendi que a maconha ali nunca foi o foco, o foco sempre foi a liberdade: ideias que nos tornam seres plenos e completos. 

Quando se repreende a maconha, não estamos reprimindo a droga em si, estamos reprimindo nosso poder de decisão e controle sobre nossas vidas, uma metáfora para pequenas coisas que acontecem em nosso cotidiano e que nos sufocam.

Eu não sou mais aquela menina do ensino médio, e não, não fumo maconha, mas caminho em busca da minha liberdade e de exercer uma vida plena sem que ninguém possa decidir por mim.

Bokeh: metáfora para o filme ou para a vida?

Se vc não gosta de cenas longas sem diálogos: não veja. Se você não gosta de diálogos longos que não explicam nada: não veja. 

Esse não é um filme com mais uma possibilidade apocalíptica. É um filme que pauta a vida sem o sentido diário construído por nossa sociedade. É um bokeh, um borrão fotográfico sem importância e que pode ser descartado, e ainda sim é belo. 

Essa seria a vida sem nossos princípios e nossos objetivos. Um papel em branco que pode ser jogado fora ou usado para construir uma nova história em tentativas melhores que a nossa. Mas ainda sim, o homem é bobo.

O homem desse filme disponível no Netflix vê uma oportunidade de lucro em proveito próprio, mesmo que esse não venha através do dinheiro que agora não tem mais importância, mas através de uma vida fácil e despreocupada. Enquanto isso a mulher está preocupada com um motivo de existência que transcendesse o mero gozo pessoal e que trouxesse a vida um sentido.

O homem é incapaz de aceitar seus questionamentos, com uma irresponsabilidade emocional com sua parceira, leva-a ao seu fim. O seu gozo torna-se seu próprio castigo.

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