Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

Porquê Emicida me Deixa Triste

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Uma vez eu falei assim para a Lívia Cruz: “- Para que tá feio amiga.” Ela me esculhambou. Eu não fiz nada.

Eu não fiz nada porquê já fiz muito. Já xinguei, fui homofóbica, racista, falei mal e até bati nos outros. Mas chegando à casa dos 40, a gente vê  que a gente muda e muda o mundo. E eu, escolhi mudar buscando formas mais assertivas.

Quando eu vejo o Emicida usar seu poder para desqualificar essas meninas, eu fico triste. Eu vi a molecada do rap chegar ao poder. Acreditei que eles iam transformar a sociedade. O quê em parte é verdade. Mas em uma análise nem tão profunda, identifico falas contra a luta de classes e o racismo, mas apenas um corpo-instrumento quando pensamos na manutenção do Patriarcado, afinal são homens e essa conjuntura os favorece.

A Flora é foda. Artista completa … personalidade difícil. Criou uma metáfora linda com Preta de Quebrada, mas cismou que não era só música, que era vida. A auto identificação racial pode ser válida no Brasil. Temos que entender a construção da identidade do sujeito, mas o sujeito também tem que entender, que o colorismo, a maneira como o outro te lê, é o que vai fazer que você seja desqualificado, inferiorizado e marginalizado, sujeito ao preconceito, exclusão, jogado ao campo do não privilégio. E a leitura que fazemos de Flora é, que ela é branca. Privilegiada. Mas o Emicida também fez Trepadeira, uma música que além de incitar a violência contra a mulher, a deprecia pela sua livre sexualidade e ainda direciona para as pretas: Afinal a nega é a trepadeira. O Emicida assentou a mulher negra naquele velho estereótipo hipersexualizado. Isso me lembrou quando Livia e Sweet também fetichizaram os homens negros, e Emicida, criticou. Criticou e se casou com uma branca abandonando a ex companheira porque, ao meu ver, não importa ali dar moral à mulher negra (aquela hipersexualizada que serve pra cama mas não pra sociedade), embarcar no jogo do Patriarcado exibindo como status uma mulher bem padrão, como um prêmio, um objeto que vc adquire, o faz pertencer ao poder.

Porquê mulher negra não faz história, afinal foi isso que ele disse no post apagado no perfil da Nega Rê. Na época ele não fez aquele típico jogo de batalha (Link da batalha), ele à hostilizou em um nível alto de misoginia, falando do (e pegando no) cabelo (Tópico tão delicado para as negras), chamando de feia e ao final, afirmando a mulher negra merecedora de seu papel como diarista, aquela que pertence à senzala. Mesmo de etnia similares, o Emicida enquanto homem terá dificuldades de entender  os processos que param as mulheres em suas carreiras e ele vai achar que venceu por talento, porquê é um iluminado divino, porquê tinha que ser.  O Emicida não vai levar em consideração que as ultimas falas que ele usou pra desqualificar essas meninas, para acentuar e promover seus erros, são discursos (Veja Eva e Pandora) feitos desde que o mundo é mundo para colocar as mulheres em seus lugares: submissas como escadas para que os homens alcancem o sucesso.

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Porém foi-se o tempo em que todas nós éramos escravas coniventes com nossos senhores. Hoje a gente questiona, debate. E, não venha me dizer que somos agressivas, loucas e descontroladas, pois diante de tanta violência que passamos em todos os processos de nossa vida, estas são reações. Malcom X pegou em armas, Mather Luther king optou pelo diálogo. Nós feministas, temos sim também muitas formas de pensar e lutar. Apesar de canalizar minhas energias para o pacifismo, não julgo essas mulheres que pegam em armas.

Se eu tivesse a oportunidade de falar algo com o Emicida, eu diria para ele deixar com nois. Deixa que a gente se entende, se mistura, se conversa e se educa. Briga também se tiver que brigar. Mas deixa a gente. Não precisamos de mais um homem, seja ele branco ou negro, nos criticando, dizendo se estamos certas ou erradas e nos dizendo mais uma vez como devemos ser.

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