Exposição A Máquina Lírica

Galeria Luísa Strina, curadoria de Pollyana Quintella, setembro de 2021.

Uma mulher nua de longos cabelos cheios que caminhava na madrugada como uma bruxa logo se tornou lenda folclórica no vilarejo de Olhos D´água em Goiás.

Este conto não se trata de um delírio coletivo de alguns poucos privilegiados que venham a ter flagrado a cena, ou de outros que tenham repetido vê-la para pertencerem à lenda. O delírio aqui é auto-referente e dá nome às quatro fotografias exibidas na exposição “ A Máquina Lírica” de curadoria de Pollyana Quintella apresentada na Galeria Luisa Strina a partir deste setembro de 2021.

Após um ano de isolamento social, eu, que vivo só, decido viver na casa das pessoas e cria a Série Residência. Antes de ir morar no pequeno vilarejo na casa de Lu, mãe de Jandira (ativista social, amiga de longa data, e uma das fundadoras da Rede NAMI)  faço quarentena no Núcleo de Artes do Centro Oeste (NACO).

Sozinha no espaço da residência, produzo uma nova série de Penumbras em um dia de ritual de Lua Cheia. Desdobramento de antigas séries como “Opressão (2009)”, a série Penumbra toma corpo na solitária quarentena de 2020 no ateliê, em experimentações de fotografias de longa exposição.

Penumbra é mais um dos conjuntos de obras que tratam sobre a afetividade da mulher negra, a partir de minhas próprias vivências com o racismo e machismo, sexualização do corpo negro, estigmas, e a realidade de dados do IBGE que mostram que tal prática estrutural lança mulheres negras na pobreza, liderando suas famílias, sem companheiros de longo prazo para ajudar a sustentar a casa (Mulher Negra: Afetividade e Solidão – Pacheco, Ana Cláudia Lemos – 2013).

Apesar de aparentar muitos privilégios hoje, sou de uma geração que teve que abdicar de construir uma família para construir uma carreira e ter o mínimo de qualidade de vida. Afinal, como uma mulher afastada do padrão europeu “para casar”, dificilmente manteria um companheiro para me ajudar com os filhos, e isso me impediria de seguir em minha profissão, me enterrando de vez na falta de privilégios e pobreza.

Ser uma mulher aos quarentas vivendo sozinha isolada durante uma pandemia, apesar dos confortos de poder me manter sem mais dificuldades, não é um privilégio pleno de vida. Assim como ser tachada de Bruxa em uma cidadezinha do interior, reafirma a urgência da necessidade de desestigmatizar corpos como meu. Penumbra é sobre isso, desconstruir seu olhar sexualizado adiante de uma mulher que sofre com a dor de se estar só, entre tantos outros pontos problemáticos que esse conjunto de fotografias escolhidas por Polly tem a pontuar.

A curadora Pollyana Quintella já fazia parte do conjunto de pessoas com que eu me identificava nos pontos de interesses a cerca da arte e visão de sociedade, além de uma ligação intuitiva sobre sua presença como pessoa no mundo. Alinhadas em todos os amplos sentidos que a vida pode ter para nós, foi fácil logo de primeira encontrarmos no conjunto “Culto Auto-Referente” a confluência entre nossos interesses de pesquisa.

Polly pensa para a exposição, a nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção (Leia o texto de Poli sobre a exposição). Tipo de deliro que venho atravessado em minhas residências nas casas das pessoas, tentando identificar objetos e situações como sinais e marcos, mas q por fim não passam de delírios de referências, sendo descritos na Wilkpédia como um tipo de fenômeno de um indivíduo que está experimentando coincidências e acreditando que elas têm um forte significado pessoal, uma noção de que tudo o que se percebe no mundo relaciona-se com o próprio destino.

É neste ponto que volto ao debate sobre afetividade e a busca a todo custo por pertencer a algo, e ser amada; onde a rejeição e solidão, me confunde em não conseguir distinguir se meus prejuízos são fruto do preconceito que me cerceia, ou meras situações pessoais.

Esta é apenas uma introdução para muitos desdobramentos de minha produção, que apesar de pessoal, se torna política ao ter milhares de mulheres se identificando e se questionando sobre essas as mesmas sensações e percepções.

A exposição “ A Maquila Lírica” pode ser conferida até o final deste mês que abre a 34ª Bienal de São Paulo – Faz Escuro mas eu canto, e conta com os artistas Anis Yaguar e Sumé Aguiar, Anna Maria Maiolino, Aurelino dos Santos, Brasilandia.co, Chico Tabibuia, Cildo Meireles, Davi de Jesus do Nascimento, Eduardo Basualdo, Jarbas Lopes, Jorge Macchi, Laryssa Machada, Laura Lima, Luiz Alphonsus, Marepe, Panmela Castro, Paulo Pedro Leal, Pedro Escosteguy, Rafael Bqueer, Tadáskía, Thiago Honório, Wagner Olino, Yan Copelli.

Capitalismo, Mãe Terra, e minha participação na cerimônia de toca do Sino de Abertura da Bolsa de Nova York

Meu #TBT de hj não sei se é ruim ou é bom. Mas na ocasião de um prêmio de direitos humanos que ganhei em NY, em 2010, por ironia fui convidada a participar da cerimônia da toca do sino de abertura da Bolsa de NY. Sou essa menina do canto, que está meio sem entender o que acontece ali.

Hoje eu sei.

Estava lá, logo neste espaço do dinheiro e capitalismo, símbolo da opressão do homem e que faz do acesso aos direitos básicos um produto possível apenas com a compra via capital.

Afinal, mesmo com todos os preconceitos, uma vez q vc hackeia a lógica e ascende, ganha uma notoriedade como dos rappers americanos, com passabilidade e possibilidade de transitar sem barreiras.

Não que o homem não fosse opressor por natureza, já que oprimimos o meio ambiente muito antes do próprio capitalismo.

Nos tornamos racionais e dominamos o tempo, as águas e a terra que antes nos minguavam, e no qual começamos a matar, ao invés de apenas afastar as possibilidades de morte e conviver em uma harmonia sustentável.

Parece que nossa maior guerra nunca foi tanto entre nós próprios, mas sempre contra a nossa própria mãe terra provedora, que agora com as mudanças climáticas e o fortalecimento de vírus, nos coloca de volta em nosso lugar medíocre em front ao sublime que é o planeta.

A história dos vencedores mostraram que todo esse tempo, muito mais do que proteção para todos os humanos, foi explorado o poder para luxo de alguns e acúmulo de riquezas não partilharas. Segundo a ONU, apesar da tecnologia nos prover tudo o q precisamos, 30% da população vive em insegurança alimentar.

A terra já foi assassinada por esses humanos no poder e reage em seus últimos suspiros. A minha esperança é que nos próximos anos, nós – os outros – possamos nos revoltar, assumir nosso poder, e sob uma perspectiva diferente, possamos fazer a gira, realinhar os chakras da terra e a salvar, nos salvando também tudo junto.

Quem vem comigo?

Mari katayama: Aonde estão os artistas com Deficiência?

Acompanhamos o desfile dos atletas paraolímpicos, mas é nas artes que eu me pergunto aonde estão os profissionais com deficiência?

Há tempo já planejamos como nossas exposições podem ser inclusivas, mas e o que está sendo exposto? É inclusivo e representativo também?

Assim como nos últimos tempos pensamos na participação de mulheres, negros, indígenas e LGBTQI, porque não estamos pensando a inclusão de artistas com deficiência nessas exposições?

De memória, por tudo o que estudei na história da arte, só me vem a famosa Frida kahlo e o pós impressionista de Toulouse-Lautrec de imediato, e dos museus e galeria nas quais visitei nos últimos anos andarilha pelo mundo, apenas uma artista com deficiência conheci e que por definitivo eu me apoiaxonei.

Marcelle Lender dançando no Bolero em Chilperic, Toulouse-Lautrec (1895)
Autorretrato com o retrato do Doctor Farill, Frida Kahlo (1951)

Essa não é uma história de superação. É a história de vida de mais uma pessoa normal construindo coisas neste mundo. Estudando, trabalhando, casando e, tendo filhos. Conheci Mari katayama em um curso da Daniela Labra e em 2019, tive o emocionate momento único de visitar sua sala durante a Bienal de Veneza, se não, a principal mostra de arte do mundo, certamente a que expõe a tendência para os próximos anos.

E certamente é tendência não fazer pela pessoas com deficiência, mas criar políticas afirmativas e providenciar tecnologias assistivas para que este grupo possa ser autônomo, realizando seus desejos, vivendo com qualidade de vida e ocupando todos os espaços possíveis, incluindo o das artes visuais, seja como produtores, curadores, artistas e outros profissionais.

Mari Katayama “bystander #016” (2016).
Thus I Exist #2 (2015)

Vc conhece quem são essas pessoas da área?

Me conte.

Ser fina é questão de Sobrevivência

Há artistas (ninguém específico pois isso acontece muito e em várias áreas) que veem vantagem em jogar umas roupas quaisquer, andar descabelada, fazer pose de bandida, tirar onda com umas gírias aí. Eu não vejo vantagem. Não vejo pq não sou branca.

Antes de sair de casa confiro se minha roupa está alinhada e se meu cabelo cheio não está chamando muita atenção. Treino meu vocabulário colocando todos os “s” no final. Evito gritar, falar alto e andar espalhafatosa nos lugares. Me lembro quando a moça me chamou de favelada pq eu gritava no metrô. Não tem problema ser favelada, o problema foi a forma pejorativa q ela me olhou. Se fossem só olhares estava tudo bem, mas eu já tomei coronhada na nuca, corri de um tanto de tiro e já fui espancada por horas mais de uma vez. É por isso BB, que a maturidade me ensinou a me esforçar pra parecer uma pessoa bem cuidada, falando bem e mostrando conhecimento sobre o que faço. Pois assim talvez me respeitem mais. Mesmo assim se der mole o povo pisa, trabalhar minha aparência é apenas uma tentativa de minimizar os danos. Assim evito que o outro me trate a partir do seu olhar racista e afasto a iminência da morte. Para aqueles q não tem certeza se voltarão para casa, qualquer oportunidade de passar batido já ajuda.

Só faz do esculhambo um persona quem tem privilégios o suficiente pra não ter medo de morrer. Falo de alguém que faça parte da branquitude e se coloque em situações que marginalizam pessoas negras mas que no caso delas, por não serem negras, tiram onda de cool e dão até dinheiro. Acho ofensivo e racista quem se apega a um personagem que é a história real de tantas minas e boys que são mortos por serem assim. Esta pessoa q não é preta, basta pentear o cabelo liso, colocar uma roupinha direitinha, para ficar com cara de princesa, mas ela faz de tudo para ficar com “cara de marginal”, pq esse kit na pele do branco é só uma tiração de onda e nada mais. Apropriação cultural é isso, levar vantagens em assuntos onde o outro é desmoralizado, agredido e morto.

O senhor João não foi o único. Todos os dias pessoas negras são mortas por serem negras. Aprende isso: só sai de casa sem medo de morrer quem tem os privilégios da branquitude.

Porque Negro da China seria algo ruim?

Não sou youtuber nem minha ONG trabalha com campanhas online, nosso trabalho é presencial, corpo a corpo no dia a dia, de mulher pra mulher, de pessoa para pessoa. Não procuramos views para auto sustentar nosso trabalho. O que nos move é o depoimento de cada mulher que fala sobre a mudança que proporcionamos em suas vidas. Por isso a resposta ao vídeo do canal Etnia Brasileira, no qual sou exposta e em que o trabalho da Rede NAMI com o projeto AfroGrafiteiras é desqualificado, vem por escrito.

No canal a Youtuber falou sobre o programa Encontro Com Fátima Bernardes com o tema Dororidade.

Antes de tudo, é importante situar o meu lugar de fala, pois todo mundo tem seu lugar de fala. Sou considerada uma artista, de cunho político, muitas vezes chamada de ativista. Desde 2008 trabalho com a promoção do fim da violência contra a mulher, uma vez que fui vítima de violência doméstica. A minha arte é autobiográfica, podendo ser descrita como confessional, pois utilizo de minhas experiências para falar para o mundo sobre um tipo de prisão de gênero para contextualizar este tipo de violência. Em minha ONG Rede NAMI utilizamos o graffiti para oferecer oficinas para promover a Lei Maria da Penha e desde essa época, nosso público alvo ia além da mulher tendo trabalhado com centenas de meninos e rapazes, de maneira didática, com foco na prevenção, pois acreditamos na luta plural, conjunta, em todas as frentes.

Antes mesmo da aprovação da Lei do Feminicídio em 2015, já havia percebido que as políticas contra a violência contra a mulher não estavam dando conta da mulher negra e por isso, essas eram as que morriam mais. Por este motivo, estrategicamente, criei também em 2015 o programa AfroGrafiteiras – uma formação de 8 meses em arte urbana e feminismo negro – um projeto que além de falar da violência do machismo como fazíamos antes, se aprofundou em falar sobre racismo, tentando contribuir de forma efetiva com a reversão do quadro atual. De lá pra cá já passaram mais de 560 mulheres Afrobrasileiras, como as denominamos antes, mas esse termo caiu em desuso na Rede NAMI depois dos aprendizados do programa. A minha experiência no AfroGrafiteiras me fizeram definir a palavra negra para tratar todas as participantes, incluindo eu própria. Eu cresci como uma menina branca, em uma família branca, fui estimulada a me mimetizar toda a vida, alisando e pintando os cabelos de loiro. Me chamavam de moreninha e eu sempre acreditei não ser negra, até entender que chamar alguém de morena ou parda era uma maneira de embranquecer a pessoa e fazê-la mais socialmente aceita, estigmatizando ainda mais os negros de pele mais pigmentada. Eu comecei a me identificar com a fala das participantes do Afrografiteiras que colocavam sobre suas experiências com o racismo, e via que sofria racismo, e logo eu me identifiquei como negra também. Acredito que hoje seja mais adequado chamar alguém de negro do que de afrodescendente ou afrobrasileiro pois é mais uma nomenclatura política, de ação dos movimentos sociais na luta contra discriminação do que para designar a cor, é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo. Esse é um tema muito polémico. Com o tempo eu compreendi as questões sobre colorismo, que o fenótipo e a pigmentação da pele influi na dureza do racismo que se recebe. A leitura com que as pessoas fazem da aparência das outras e o quanto isso é o que verdadeiramente importa. Hoje pontuo a minha fala de um lugar como mulher negra privilegiada, por sofrer menos racismo do que uma mulher negra retinta e ser mais socialmente aceita. Neste ponto é sempre bom enfatizar que lugar de fala e representatividade são coisas diferentes, e eu posso sim falar a partir da minha condição, mas é importante que outras mulheres, muito mais desautorizadas a falarem do que eu, possam se colocar e representar outras em sua condição. E o meu trabalho na Rede NAMI trata justamente disso.

O Catraca Livre publicou uma matéria sobre grafiteiras negras e eu questionei o porquê que nesta lista não existiam mulheres de pigmentação mais escura. Foi quando tomei minha decisão final de colocar além da renda, o colorismo como critério principal para a seleção das candidatas ao programa AfroGrafiteiras. Ainda sim, é difícil que as mulheres retintas se inscrevam em maioria no programa, pois essas mulheres estão muito ocupadas tentando sobreviver. Todos os anos tento captar recursos para pagar a passagem e alimentação, além de tentar levar o programa para as áreas mais afastadas, facilitando assim o ingresso dessas mulheres. No projeto levamos em consideração a representatividade colocando professores e palestrantes negras, renovando a equipe da NAMI de forma a apenas contratar mulheres negras. Buscamos mulheres negras para nosso conselho. Seguimos.

O que me leva a seguir é ver que o trabalho é sério e está ajudando a mudar a situação racista da sociedade. Sinceramente minha carreira está muito bem fundamentada, e eu não precisaria gastar 50% do meu tempo com trabalho social, e muito menos focar na mulher negra. Não preciso me promover com o tema, afinal, não sou jovem como disse Fátima, e muito menos menina como colocado pela Youtube. Sou uma mulher chegando aos 40 anos com a carreira já estabelecida. Minha produção é internacionalmente reconhecida como feminista, mas não trata diretamente de etnia. Sim sou de classe média, mas nem sempre foi assim. Graças às oportunidades e investimentos que outras mulheres com este mesmo modo de pensar fizeram em mim, a maioria brancas, minha carreira de artista decolou me rendendo títulos como rainha do graffiti, Young Global Leaders do World Economic Forum e até como uma das 150 mulheres corajosas que estão mudando o mundo, segundo a revista americana Newsweek, além de outros.  Mais uma vez volto a colocar que isso se da pelo fato de eu ser mais socialmente aceita, mas ainda sim, não sou branca, e isso já foi algum passo adiante. Eu quero retribuir isso de alguma forma para que mais mulheres subvertam a posição que foram fadadas. Eu quero ir além, quero que essas mulheres sejam as menos privilegiadas. Eu sei que não posso falar por elas ou representa-las, mas posso usar minha influência para transferir poder para elas, é por isso que durante esses três anos do AfroGrafiteiras foram sempre elas que foram a cara do projeto, não eu. É por isso também que até então, nenhum dos meus trabalhos de arte falavam da questão de etnia. Minhas mulheres grafitadas são coloridas, com fenótipo similares ao meu até o momento que Vilma criou o conceito de dororidade. Eu já vinha trabalhando a Sororidade nos meus projetos de arte, e prontamente me identifiquei. Dororidade não é uma fala exclusiva da mulher negra, é uma fala de todas nós mulheres, que sofremos pelo racismo, mas que sofremos também pelo machismo. Então dororidade contempla todas nós, e dentro do meu lugar de fala, posso falar sobre dororidade pois tenho dor e esta dor me fortalece de forma política com outras. Como diz Vilma, dor é dor. O tema fala de mulheres, quando falamos de mulheres, é importante falar de todas, mesmo que de lugares de fala diferentes; e eu não posso falar de todas pintando apenas mulheres como eu. Ao me lembrar de quantas mulheres negras me pediram para representá-las na parede, pois até então se sentiam excluídas na minha arte, vi que essa era hora de dar minha contribuição mesmo sabendo que existem centenas de AfroGrafiteiras representando a mulher negra de várias formas. E essa representação não é pelo spray marrom ou preto de contorno, pois mesmo nas mulheres com fenótipos brancos, a cor de contorno em sua maioria sempre foi essa. Contorno é contorno, técnica é técnica. A representação nesta arte vem pela ideia, afinal a obra é aberta e cada um a vê e significa de acordo com suas experiências pessoais.

Dentre as demais pautas daquele programa da Fátima Bernardes, dororidade foi tema destaque, e para isso nada mais natural do que chamar a criadora do conceito para falar. Lá estava Vilma Piedade. Eu produzi uma musica, um video clipe, um mural e um projeto social sobre o tema. Foi o quê eles, orientados por Vilma, acharam de mais autêntico para mostrar. Eu tenho plena noção do privilégio que tive em alcançar uma profissionalização do trabalho para conseguir estes produtos, e por isso ali eu era a pessoa talvez com mais visibilidade para falar sobre o assunto, tirando o lugar de uma mulher retinta que não teve o mesmo privilégio e não possuí o mesmo produto pra mostrar. Mas o meu trabalho junto ao de Vilma é justamente para que negros que “que mal sabem escrever e estão preocupados em ter o que comer”, segundo a Youtuber, possam um dia estar ali falando sobre suas criações e que eu possa me ocupar em falar de outros temas poéticos da vidas que não são tão urgentes. A produção do programa teve o cuidado de me perguntar se as meninas do VT que iriam falar sobre o AfroGrafiteiras, pudessem ser as de pele mais pigmentada, já que eram sempre as mais excluídas e que no programa haveria apenas Adriana. Podemos problematizar esta colocação, mas deve haver uma sensibilidade de que ali houve um cuidado, mesmo que por muitos considerado mínimo, com a representatividade.

Existe um conflito geracional em que as meninas novas que chegam agora não respeitam a história anterior que a fez com que estas pudessem ter acesso e voz antes impensáveis. Vilma Piedade fez parte dessa história, podemos debater, mas nunca desqualificar sua fala. Desqualifica-la é uma falta de respeito. Eu e Vilma temos um trabalho sério, e não é de hoje. Construímos uma sociedade em que uma jovem negra poder ter um canal de youtube e nos criticar de tão empoderada, e ter com isso milhares de views e uma carreira. As feministas brancas talvez não tenham pensado nas negras, mas quebraram as primeiras barreiras do gênero para que possamos discutir etnia, assim como homens negros quebraram as primeiras barreiras da raça para que hoje nós pudéssemos discutir sobre gênero. É um conjunto de lutas que geraram a interseccionalidade. Sem nós, e muitas outras pessoas mais, sejam estas pretas, mestiças ou brancas isso nunca seria possível.

E sobre o título, não é porque uma coisa é ruim que ela vem da China. Na China tem muita coisa boa, ta ai o ai weiwei pra provar. Não vamos combater um preconceito fortalecendo o outro.

Panmela Castro raça etnia pintura mulher negra
Primeira pintura minha em suporte convencional a retratar a temática de raça.

 

 

SuperVia, Panmela Castro, 2010, 2’56”

Até pouco tempo atrás o espaço público era restrito à homens. Ainda hoje posso falar dos perigos da cidade para o corpo feminino. Durante muito tempo eu quiser ser um homem e pensava habitar a pele errada. Para ser aceita e respeitada por gangs de homens, eu tive que me masculinizar: andar como eles, vestir-me como eles e até falar como eles. Em um determinado momento, percebi que o quê eu almejava nunca foi ser um homem, mas sim possuir o poder que eles exibiam e eu como mulher, nunca alcançaria. Que por mais que praticasse a mimese, o fato de eu possuir um corpo feminino, denunciava quem eu era e o meu lugar na casta de poderes.

Subvertendo o papel destinado a mim, troquei minhas vestimentas masculinas por uma indumentária hiper feminina, colorida e com flores; o meu gestual agressivo e cheio de regras masculinas por poses de menina, e assim, coloquei-me em ações masculinas de intervenção ilegal.

O resultado é a série de fotos e vídeos “Lady Grinning Soul” (Dama da Alma Sorridente), inspirada na música de David Bowie.

Lady Grinning Soul, Panmela Castro, 2009, 2’00”

Durante muitos anos de minha vida, pensei em habitar a pele errada: a pele de uma mulher. Para ser aceita por gangs de homens que praticavam pichação e mais tarde, graffiti ilegal, eu me masculinizei: precisava vestir-me como eles, andar como eles, falar como eles. Pensar como eles.

Neste processo entendi que não era necessariamente ser um homem que eu queria, mas o que me seduzia alí, era o poder que enquanto mulher eu nunca poderia ter. E por mais que eu tentasse me masculinizar, o meu corpo denunciava que eu era diferente destes outros que me cercavam, e por isso, ainda que me esforçasse na mimese, eu nunca seria totalmente aceita.

Uma decisão pessoal me levou a romper com a necessidade de ser legitimada por este outro, e em trajes e gestuais hiper femininos, eu ironizei a masculinidade das ações clandestinas da rua, me portando de forma exibida, contrária à todo o aprendizado que me foi imposto neste circuito.

O resultado são fotos e vídeos onde em forma caricata realizo ações de graffiti vandal que não se espera de um corpo com uma performance de gênero feminina, principalmente, visto dos perigos que este ambiente público-marginal traz à este corpo considerado frágil.

Quem sou eu no clipe “Correria”do BK?

Meu querido Bk no qual eu sou fã, acabou de lançar o video “Correria” que fala de um trabalho diário em que o ser pode alcançar uma qualidade de vida mais grata. Aparecem rapazes mostrando o seu talento e força (desenhando, malhando, andando de skate, colando lambe, etc) e duas cenas com mulheres negras: uma mãe com dois filhos; três mocinhas sexys no lazer. Dois lugares comuns machistas/racistas para nós mulheres negras e que não contemplam essa perspectiva de melhoria abordada pela musica. Lugares que não levam nem ao poder, nem a soberania. Exatamente os dois lugares onde mulheres negras sempre foram jogadas no discurso heteronormativo da sociedade patriarcal escravocrata.

Estereótipos contribuem para a manutenção de um sistema de opressões e desigualdades que violentam mulheres negras diariamente.  

A Negra Sensual

A hipersexualização da mulher negra se materializa em personagens hiper femininas e luxuosas como os relógios e roupas que os rappers vestem (assim mesmo, como um acessório). Irresistíveis e insaciáveis que enlouquecem todos ao seu redor e aparecem ali como um adorno ao ambiente do clipe. O perfil dessas mulheres são jovens de pele mais clara (Vale lembrar que o colorismo estabelece diferenças de tratamento para pessoas negras dependendo do seu tom de pele) e longos cabelos cacheados ou trançados, lembrando o ofensivo adjetivo “mulata exportação”.

A Mãe Preta

Aquela mulher negra mais velha, ou não tão bonita, de cabelo curto, ou de pele mais escura que ocupa a posição de mãezona / tia (com obviamente sua sexualidade anulada). A imagem da mulher negra que cria seus filhos sozinha. Pobre e batalhadora. Nesse estereótipo aparece uma vida consequência de tragédias e desgraças e isso a torna uma fortaleza que a faz encarar de frente todas as adversidades que a vida joga na cara dela.

 


Se eu tivesse oportunidade de falar com o Bk, eu diria que essas imagens desse seu video (assim como dos outros 6 que eu vi hoje a noite) não me representam. O video é machista e racista quando me representa desta maneira pejorativa. Esse machismo pode sair do vídeo e cair em suas vidas, quando em seus bandos, gangs e crews, a única posição que mulheres ocupam, são estas de adorno (ai vcs colocam uma DJ como “cota”).

Não ser machista não é apenas não atacar as mulheres em suas letras, mas inseri-las como figuras naturais que compartilham as cenas em pé de igualdade com vocês, fazendo as mesmas coisas e participando dos grupos de poder sem precisarem estar em um espaço estereotipado. Possuírem autonomia e protagonismo. Lutar contra o racismo não é apenas colocar o homem negro no poder, mas romper com os esteriótipos racistas que vocês propagam em suas imagens e vida em relação às mulheres negras.

Eu quero que mulheres façam parte do seu video e dialoguem com quem eu sou, mas eu não quero ser a menina bonita do video: eu quero ser aquela que colou um lambe, andou de skate ou fez um desenho. Eu também quero poder mostrar que estou também na correria.

“Correria”do Bk no Youtube

 

 

 

 

 

4 Trabalhos de Arte que Falam sobre Aborto

Your Body is a Battleground

Bárbara Kruger, 1989.

Os cartazes da artista, ativista feminista Bárbara kruger são bem conhecidos no mundo da arte. Um dos mais exibidos é justo esse criado para uma campanha pela pro-choise nos EUA.

Guerrilla Girls Demand A Return To Traditional Values On Abortion

Guerrilla Girls, 1992.

Estamos acostumados a ver em Museus diversos cartazes do grupo nova-iorquino que critica a falta de protagonismo das mulheres no mundo das artes, além de críticas ao patriarcado e ao machismo. Nas lojinhas de muitos desses museus, podemos comprar este trabalho que mostra que elas também lutam pelo direito ao aborto.

O Aborto

Paula Rego

Paula Rego produziu em 1998 uma série de dez quadros à pastel falando sobre suas próprias experiências quando a proposta de legalização foi derrotada em um primeiro referendo.

Possibilidades

Claudia Paim, 2011.

Realizada no Festival Performance Art Brasil no MAM – RJ, a artista brasileira tratou da ideia glorificada da maternidade.

Vagina Dentada (Filme)

Sempre que escuto o sobrenome O’keeffe me lembro das flores da pintora norte-americana que remetem a suaves e delicadas vaginas. Quando era adolescente, eu costumava fugir das aulas do Liceu de Artes e Ofícios para ir o Museu de Belas Artes, e em uma dessas visitas eu conheci a obra de Georgia O’keeffe. Esta experiência iria influenciar minha produção definitivamente: eu comecei a experimentar a pintura de flores como vaginas e vice versa, até que cheguei na vagina dentada, referência da leitura do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

Captura de Tela 2018-06-18 às 02.02.50

Pesquisando imagens no google para vagina dentada, cheguei ao cartaz desse filme de Mitchell Lichtenstein, filho do artista da Pop art Roy Lichtenstein, em que por coincidência ou não,  tem como protagonista uma garota chamada Dawn O’keeffe.

O filme de tão ruim, chega a ser bom. Justamente pelo texto e a direção do Lichtenstein, que enquanto homem, apresenta ao mundo o temor diante de nós mulheres; e o que torna o filme bastante caricato.

Captura de Tela 2018-06-18 às 02.39.19

 

De maneira bastante sutil, a primeira cena do filme já mostra o que está por vir e é o único motivo que não faz você desistir de ve-lo até o final, pois apesar de chato na construção da personagem, vc fica apreensiva aguardando a hora dos pintos começarem a voar. Então o filme entra em uma sequencia que a principio te enoja com todo o sangue esguichando de órgãos genitais masculinos, mas que muda repentinamente para um prazer sádico de quem aprecia veem homens violadores finalmente levando o que eles merecem.

Não se trata de um filme feminista, mas de um filme sobre mulheres criado sob a perspectiva masculina. Cenas como quando a mocinha finalmente consegue transar com um rapaz sem que decepasse seu falo, denunciam isso. Algo sobre um velho fetiche masculino em que até a mais difícil e desencaminhada das mulheres, pudesse ser seduzida, dominada, amansada e transformada em uma verdadeira mulher por um herói. Como já não bastasse esse velho conto de fadas masculino, o rapaz que consegue transar com a protagonista (há essa altura já a chamamos de mocinha), o faz drogando-a como se não tivéssemos passado os últimos dez anos visibilizando que ato sexual com mulher dopada / bêbada / desmaiada é estupro. Ou seja, mesmo quando a relação no filme parece consentida, é no final estupro também.

Encontrei essa matéria na Vice que fala um pouco da dificuldade com filmes como este e aqui vocês podem assisti-lo com legenda no youtube.