Retrato Retrato de Suka

Retrato Relato de Suka, óleo sobre tela, 70 x 50 cm, 2021

Estive me perguntando qual seria o melhor relato para enviar. Qual parte de mim deveria ser destampada.

Eu vim relatar abusos, abusos emocionais e físicos. Por boa parte da minha vida, eu tive relações abusivas, eu me via em situações e repetições que eu não compreendia o porque. Era namorado que engravidava ex, novo namorado que me traía. Outro namorado que vivia de conversinhas na internet com outras e trocas de fotos… Eu me perguntava o porque.

Depois de conhecer Angela Davis, e o feminismo eu comecei a compreender o que era gaslighting, o que era relação abusiva, o que era estupro, mesmo dentro de uma relação. Todas essas coisas das quais eu estava vivendo. Pior ainda é conseguir admitir isso pra si mesma, ter coragem de enfrentar uma pessoa que mata todos os seus sonhos,  a sua personalidade aos poucos, a sua integridade e te transforma em um ser doente.

Eu vim relatar abusos, porque eu decidi ser exemplo para que outras mulheres se libertem.

Eu sofri abusos, quando meus pais acreditavam que eu estava segura. Na família, homem, mulher, eu era tão pequena, e reprimi tudo isso. Uma babá… Minha vida era muito simples, mas por muitos anos minha mãe saiu cedo e chegou muito tarde em casa, meu irmão e eu tínhamos que ficar com alguém nesse meio tempo. Eu acho que não tinha nem 6 anos. Fui tocada de formas que só de lembrar, me dá nojo. Eu me sentia culpada, porque ela me mandava ficar quieta e não contar a ninguém. Eu fui vulnerável em vários níveis em toda minha vida, e fui crescendo sem compreender os os motivos de passar por tanta agressão. 

Uma vez, me veio a memória tudo o que minha mente havia bloqueado, em um evento religioso, e eu chorei por horas rabiscando um papel. Desse jeito eu expresso minha dor, rabiscando, escrevendo… Eu entreguei tudo ali. Anos depois conversando com uma psicóloga eu pude compreender toda a repetição nas minhas relações, todos os anos de abusos e permissões que vieram de abusos lá da infância.

Eu precisei ressignificar, escrever e falar para me curar.

Hoje eu sou a favor da vida das mulheres, e precisei me tratar e desconstruir em vários níveis para que isso acontecesse. Eu falo porque sei que não sou a única. Eu relato porque quero ser exemplo e inspiração de mudança. E esperança de um mundo muito melhor.


Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

Retrato Relato de Ana Coutinho

Olá Panmela, boa noite 


Fiquei sabendo do retratos relatos pelo instagram, e te envio o meu abaixo.



Não tem palavra que eu tenho repetido mais do que cansada. Estou cansada, muito cansada e há muito tempo. Essa semana reparei que comecei a usar a palavra exausta, talvez seja uma ampliação do meu ser candada (como eu comecei a chamar, depois que digitava errado, por estar claro, cansada). Daí que boa parte do tempo estou pensando sobre isso. Como pode alguém viver assim? Eu sinto falta de momentos simples e que eu nem sei mais se existiram. E o cansaço me dói e eu não sei quando ele vai ir, ou se vai ir embora.


Boa parte do tempo estou me cobrando pelas coisas que não dou conta. Mas é que sempre tem algo pra ser feito. As vezes alguém me diz: “faz depois” e eu quase dou risada, num como assim fazer depois? Se eu não cozinho, não como; se não lavo roupa, não terei o que vestir; se não limpo a casa, não consigo estudar; e pra variar preciso estudar e preciso trabalhar, e quando sobra algum tempo, eu tento ficar acordada pra fazer algo pra mim.


Agora são 23h40. Estou cansada, mas era possivelmente a minha única oportunidade de escrever esse relato. Em seguida vou dormir, e espero acordar bem, ter aula de manhã e depois seguir estudando o resto do dia. Espero não esquecer de almoçar de novo, nem ficar com dor de cabeça, porque mais uma semana está passando e eu não tive tempo de fazer um óculos novo. Espero conseguir fazer uma hidratação no cabelo, os exercícios que aliviam minhas dores. Espero ouvir alguma amiga. Espero, só talvez o tempo passar, passar até não fazer mais sentido o depois de amanhã e quem sabe algum dia sentir que descansei. 23h56, um relato curto, meu sono e minha cabeça  que ecoa – CANSADA-.

-Muito obrigada pela oportunidade dessa escrita  e por me ler. Apesar do cansaço,  agora sinto afeto.

Retrato Relato de Ana Coutinho, óleo sobre linho, 70 x 50 cm, 2021.

Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

#RetratoRelato 045

Achei o máximo essa sua iniciativa de saber a história de pessoas comuns.


Tenho 63 anos e trabalho é sempre né senti igual a qualquer adulto: a terceira idade para mim começa aos 80 anos. Meu marido e filhos(3) me colocaram em casa, trabalho por opção desde os 17 anos. Sempre solve que ser dona de casa não era para mim.


Estou com a sensação de que é domingo e amanhã é segunda feira. Já tem quase um mês Dei uma geral na casa: arrumei armários, dei uma geral nas plantas, na cozinha estou fazendo receitas diferentes
Gostei muito da Rita Lobo principalmente nos vídeos do “o que tem na geladeira “.


As netas só por vídeo ( uma tristeza)
Não poder conviver com elas entristece.
Adoro vitrines e mercados e não devo ir e não vou
Sinto me um siri na lata, mas vou sobreviver!
Tenho fé em Deus!
Saúde para você e que Deus ilumine seu caminho,


Isabel deSá


Projeto #RetratosRelatos

Mulheres me enviam suas histórias com uma selfie para o e-mail panmelacastro@yahoo.com e eu as pinto como em um processo de cura.

#RetratosRelatos 050

Relato de quarentena

Já estamos há quase 60 dias de quarentena. Ou já passaram os 60, não tenho bem certeza. Se me dissessem que eu teria de passar 60 dias em casa eu não acreditaria. E muito menos se me dissessem que eu passaria os 60 dias sem estar deitada o tempo inteiro com depressão. Ter que conviver e ser dependente financeiramente de uma mãe abusiva por 60 dias, sem ter pra onde fugir (nem dinheiro pra isso) é uma ideia bastante assustadora.

Cada comentário sobre o meu anti depressivo, sobre eu dormir demais, sobre as minhas escolhas de vida, sobre qualquer coisa da rotina de casa, continuam a ser golpes horríveis, e ela nem faz ideia disso, acho que ela nunca aprendeu algo que não fosse isso.Já foram sim alguns ataques de ansiedade com medo de ela resolver acordar e fazer da minha vida um inferno como já fez, e eu acabar caindo em episódio depressivo pelos próximos meses.

E alguns ataques de ansiedade com coisas menos diretamente ligadas à ela mas que no fundo são mais do mesmo.Mas apesar de alguns poucos episódios depressivos, a verdade é que eu tenho estado incrivelmente bem nessa quarentena. Passo meus dias lendo, trabalhando e estudando o que gosto. Eu posso contar nos dedos de uma mão as crises de choro que eu tive (há uns tempos eram quase diárias…). Ainda mantenho alguns dos hábitos destrutivos, xícaras de café a mais, ou às vezes jantar cereais. Mas o quão bem eu to era inimaginável há um ano atrás. Foi a prova (a qual sinceramente ninguém deveria ser posta, mas enfim) do quão sólido foi tudo que eu construí comigo mesma, do quão forte eu consegui ser por tudo que eu passei. Eu tenho mesmo muito orgulho de mim mesma.

Essa semana foi dia das mães. A minha mãe perdeu a mãe dela recentemente. Apesar de eu saber bem o peso que é a maternidade e o quanto toda mãe se sacrifica, eu não consigo ter toda essa admiração que as pessoas descrevem nos posts de dia das mães. Acho que ela também não o tem pela mãe dela. São sentimentos bastante confusos, mas, de novo, eu não me sinto mais culpada por sentir isso. Naquele domingo eu tava me sentindo mal, mas fiz um cartãozinho, criei coragem e fui dar pra ela, também deve ser um dia difícil pra ela, e ficamos abraçadas um pouco.Esse texto não tem muito uma conclusão, acho que reflexões não precisam ter. Mas se a vida me permitir eu um dia quero poder dar pra minha cria tudo o que a minha mãe não pôde me dar.

Eu quero fazer com que a minha cria tenha a maior auto-estima possível! Que seja confiante e livre, confiante e livre pra errar sem medo, sabendo sempre que as pessoas à sua volta vão ser compreensivas. Acho que eu também sou a minha cria de alguma forma, um dia a gente chega lá.


Projeto #RetratosRelatos

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#RetratosRelatos 35 – Quarentena 1

Durante a quarentena recebi pelo email panmelacastro@yahoo.com relatos de mulheres enviados junto à uma selfie e nos quais retratei. Este trabalho em específico foi comissionado pelo Instituto Moreira Sales para o programa “IMS Convida”. A coleção das 3 obras produzidas para o programa pode ser conferida no site do instituto.

@panmelacastro

Sou XXXX XXXX, com som de i mesmo, estou com 27 anos e essa quarentena é o ápice do desafio que está sendo sobreviver diante do caos.

Recebi um diagnóstico de HIV no último pré natal da gestação de XXXX, meu gavião em tupi, há dois anos e três meses.
Estou só, experenciando a vida desde meus 12 anos e a família do pai dele não soube lidar muito bem com a notícia.
O diagnóstico é mais mental e social do que físico. De um dia para o outro, marquei uma cesárea eletiva e descobri que não poderia amamentar e teria que tomar dois medicamentos para sempre. Foi uma quebra de toda utopia que acreditava viver. O XXXX, pai de XXXX foi super grosseiro antes de eu entrar no pré natal e quando saí já sabia que não teria nenhum apoio emocional.
Entre depressão pós parto, tristeza, medo e solidão, vivi o maior dos amores que é ser mãe e a esperança de finalmente construir minha base e não ser mais só.
Então ninguém soube lidar com.nada, o machismo impregnou nossa relação, as tradições engessadas me sufocaram e a família dele ameaçava tirar meu filho de mim entre ameaças, humilhações e deboches. Ouvi que era só uma vagabunda que ele engravidou na rua, que ninguém iria querer uma magrela aidética, que se nem minha mãe me quis, quem iria querer? Ouvi isso e mais do homem que escolhi passar a vida, o homem que compartilhei o maior amor que o universo me dara.
Aconteceu tanta coisa, e eu cansada, magoada… até remédio de hiv ja jogaram na calçada para eu pegar. Ele procurava prostitutas, me agredia e depois fingia que nada havia acontecido. Já me empurrou e gritou logo em seguida para que eu parasse de me jogar. E eu tentava a todo custo me libertar desse padrão de achar que isso iria mudar, que ele estava doente, que não era maldoso assim.
Aluguei minha casa para morar com meu filho e segui.meus princípios até o fim. Acreditei que se fizesse minha parte e seguisse os ensinamentos do mestre Cristo, que ele iria se invadir por amor e me perdoar por qualquer que seja o motivo que me odeie.
E estou aqui, escrevendo esse e-mail, sem ver meu filho há 5 meses, perdi minha casa, perdi minha alegria, trabalho, perdi minha luz e estou de favor no quarto de um moço muito gentil que encontrei na vida. De favor, lutando para comer e me manter viva e superar essa fase. Abraçar meu filho e compartilhar essa vida com ele.
Quando conto isso, só recebo perguntas como o que fiz, que tipo de mãe perde o filho, mas afirmo que nossos direitos não são reconhecidos e estamos muito longe de uma igualdade justa. Existem pessoas que manipulam tudo e todos até obterem o resultado esperado e é quase impossível provar que elas fizeram o que fizeram.
Fui processada pelo ministério público por intransigência ao questionar meus direitos na creche da prefeitura e depois notei que tudo o que foi feito, foi lentamente estruturado por ele.
Demorei para aceitar a maldade da humanidade e demorei a aceitar que valemos o que temos, o que ofertamos materialmente importa e status ainda manda nesse sistema.
Estou com 48 kg, mas não desisto e sou extremamente grata de ter oportunidade de transformar toda essa arte em alegria, seja por momentos ou uma poesia ou quadro. A arte resgata minha alma toda vez que ela tenta fugir e sou.muito grata por ser quem sou.
Retomando à quarentena, não sei se saio entregando coisas de bicicleta, se corro riscos por ser soropositiva e nao estar me alimentando direito, se estou mesmo acolhida, se verei meu filho e se vou construir uma família um dia. Estou cansada de estar só sempre sendo atacada e julgada. Cansei. Espero que tudo isso valha de algo um dia. Sentir a dor de estar sem.meu filho e o desamor é muito, mas eu aguento.
Sei que a deusa vai permitir que eu veja e esteja por perto do meu passarinho e sei que ainda vou ajudar muitas mulheres.
Poderia escrever muito mais, mas sou grata por esse espaço de fala e tenho fé de que todas iremos retomar nosso lugar.
Assino Aveeva nos meus trabalhos para lembrar do sagrado e profano femininos e toda magia que nos foi negada.

Poema para o príncipe

Eu quero um príncipe que seja muito mais do que um pensamento morno sobre coisas as quais eu já sei.

Eu quero um príncipe desobediente que ponha em risco a senhora que sou em um tipo de surto desorganizado de minhas pequenas coisinhas.

Eu quero um príncipe que me deixe descobrir que a vida nunca foi o que me disseram viver.

Eu quero um príncipe que me dirija à um mundo de epifania e momentos de catarse que definitivamente mudem quem eu sou.

Um príncipe que mude meu juízo de valor.

O meu príncipe é amarelo como um sol que me faz girar ao redor e me sufoca as palavras, só restando a única que sei dizer: tão lindo. Sensacional.

Eis um poema triste de amor.