A Misóginia e a Obra Femme Maison para o Frestas

Fui convidada pela pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda para escrever algo sobre a minha obra Femme Maison para sua pesquisa sobre feminismos contemporâneos. Aqui vocês podem conferir o texto:

Entre os anos de 1946 e 1947, a importante artista francesa americana Louise Bourgeois criou a série de pinturas Femme Maison que abordava a questão da identidade feminina. Eu percebo a violência contra as mulheres como um problema de identidade feminina e assim – diante dos alarmantes números brasileiros – mesmo em 2017, ainda uma questão a ser debatida. Apropriando-me deste título, crio o meu primeiro trabalho desta série, construído durante os meses de maio, junho e julho em meu atelier no bairro do Catete e montado em Agosto no Sesc de Sorocaba/SP para o Frestas Trienal de Artes à convite da curadora Daniela Labra.

A madrinha da obra, Clara Averbuck posa comigo para as câmeras dentro da instalação no Sesc.

Nesta primeira obra, eu encomendo para minha mãe a decoração de uma casa de boneca nos moldes do meu antigo quarto no bairro da Penha, suburbio do Rio de Janeiro. Cumprida a missão e instalada a obra, o público pode adentrar no espaço, experimentando apetrechos e se fotografando. Nesta nova série, abordo o ridículo feminino, questionando a obrigatoriedade de certas características femininas para a legitimação do ser enquanto mulher, visto que, acredito na não aceitação de outras/novas possibilidades resulta na violência.
As performances criadas por mim, surgiram a partir das experiências na produção de graffitis pela urbe. Comecei a pensar como obra, não apenas a imagem abandonada nas paredes da cidade, mas como também o processo, em essência a problematização da relação do meu corpo feminino em diálogo com a paisagem urbana e as questões de alteridade. Junto ao convite para a criação da performance Femme Maison para o Frestas, Daniela Labra propôs um mural que depois de algumas pesquisas, foi decidido que seria pintado no Palacete Scarpa, antigo prédio tombado pelo patrimônio histórico municipal e atual sede da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade.

Meu graffiti Femme Maison no Palacete Scarpa em Sorocaba

Escolhi para a parede cega do prédio, a imagem de duas mulheres unidas por um terceiro olho adornado pelo o que chamo de Flôr. Flores-vaginas apropriadas da obra de Georgia O’keeffe e muitas vezes dentadas como citado na obra Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, são constantes nas minhas representações pelas cidades. Pela primeira vez, essa criação sofreu, ao meu entender, ataques violentos de misoginia: criou-se uma polêmica na mídia, internet, ruas e universidades sobre o fato de haver uma “genitália feminina tamanho gigante pintada em um prédio público tombado”, palavras usadas pelo vereador Pastor Luis Santos (PROS) em sua fala contra o graffiti na câmara dos vereadores.
Voltando à minha ideia inicial sobre a questão da identidade feminina, e a existência de limitações em relação à mulher ainda no século XXI; quando a mulher propõe características que não são consideradas próprias desta, há um estranhamento, rejeição e em muitos casos, a violência como no linchamento virtual do graffiti do Palacete Scarpa. Enquanto desde pequenos os meninos são encorajados a exibir o pinto mijando na rua, ou mostrando o quanto cresceu para suas tias, percebendo-o como sua ferramenta de orgulho e poder, nós meninas somos alvos de críticas obrigando a nos esconder fechando as pernas, deixando de nos tocar e nos fazendo sentir envergonhadas de nossa parte que sequer pode falada: a buceta.
Na minha primeira visita à Sorocaba em busca da locação para o graffiti, uma das coisas que conheci foi um pelourinho que em seu formato fálico parece não incomodar ninguém, até porque, penso eu, além de celebrar o poder deste membro, reafirma a soberania do homem (branco) sobre todos nós. Neste sentido, colocar uma vagina em uma situação central, é como dar um poder inadmissível para as mulheres, esquecendo a vergonha sugerida em seu corpo. Pura misoginia.
Ao final, o vereador Pastor, após usar minutos para expor sua opinião de forma desrespeitosa sobre a minha obra na câmara, entrou com um requerimento no ministério público para que a mesma fosse apagada e solicitou na imprensa que eu me retratasse.
Acredito que o graffiti Femme Maison de Sorocaba, acabou por cumprir o seu papel fazendo toda uma cidade refletir acerca da mulher em nossa sociedade, dando visibilidade às dificuldades que enfrentamos em nosso dia a dia, e que ficam veladas, de difícil conversa, ridicularizadas e desqualificadas, mas que aqui pulsou pela arte.

Pintora tem seu sonho roubado

Atriz Amy Adams que interpretou Margaret Keane nos cinemas

Poderia ser uma novela em suas criações inusitadas, mas a história do filme “Grandes Olhos” que acabou de estrear no Netflix, é baseada em fatos reais: Margaret Keane é mais uma mulher que foi lesada em sua trajetória e por sorte – diferente de muitas que morreram pobres, anônimas e desiludidas – ainda conseguiu reaver algum brilho inscrevendo-se com alguma relevância na história da arte Americana.
Cartaz do filme de Tim Burton

O próprio Tim Burton, diretor do filme é um dos artistas atuais influenciados por Margaret. Cinquenta anos depois da década citada pelo filme, podemos dar créditos à artista por toda a nossa geração de pintores do pop surrealismo dentre outros movimentos. Também conhecido como LowBrow art, é um movimento popular das artes que inicia a partir de Margaret com toda uma nova geração de artistas cartunistas e ilustradores a partir da década de 70. O fato do emprego da representação figurativa principalmente com as técnicas de pinturas tradicionais e o forte uso da perspectiva, faziam este movimento nadar na contramão do que se esperava de uma arte de vanguarda (que caminhava cada vez mais para a abstração) o que criava o entendimento de que nenhuma instituição de arte as aceitariam e por isso da criação do termo “lowbrow” (arte não-culta). Tal questão já vinha sendo discutida no próprio movimento surrealista, mas este aimda se salvava pelas questões conceituais. Hoje, cinquenta anos mais tarde, já passamos pela pop arte e retornamos a aceitar uma tradição figurativa o que fortaleceu a atual geração de pop surrealistas como o famoso pintor Marc Ryden.

Obra de Marc Ryden
Obra de Margaret Keane

Muitos artistas de street art são confundidos como pintores pop surrealistas e eu que bebo de várias fontes para construir meu trabalho deixo evidente minhas influências do pop surrealismo. Coincidentemente, encontrei uma das obras de Margaret em que pintou siamesas como as que faço muito constantemente hoje. Certamente vou guardar para mim essa ideia de que nos mulheres, mesmo distantes pela geografia, cultura ou tempo, passamos por sentimentos que fazem nos expressar visualmente de formas similares.

Complicated women por Margareth Keane